Depois de um debate que ficou marcado pelo tom anormalmente agressivo, e em que Donald Trump chegou a ameaçar que Hillary Clinton seria presa caso ele vencesse as eleições de 8 de novembro, vários norte-americanos tentaram retirar algo de positivo e confortável daqueles 90 minutos. A procura não demorou muito tempo: Ken Bone, trabalhador numa fábrica de carvão no Illinois e eleitor indeciso que colocou uma pergunta sobre o setor energético aos dois candidatos, foi uma escolha consensual.

Depois do debate, a internet encheu-se de memes com a cara de Ken Bone (já há quem lhe atribua um alter-ego, o rapper K-Bone), e há quem se delicie com o vídeo onde ele aparece, já depois do debate ter terminado, a tirar fotografias do estúdio com uma máquina descartável. Mais: já foram feitos guias para quem se quiser vestir como ele na noite de Halloween. A peça essencial é a camisola de lã vermelha, que, como Ken Bone admitiu mais tarde numa entrevista, foi a sua segunda opção de visual para aquela noite.

Ou seja, a camisola vermelha, que Ken Bone modestamente diz que é mais famosa do que ele próprio, nem estava nos planos. O plano A era vestir um fato verde-azeitona que usara em tempos, mas depois teve um acidente. “A minha mãe teria muito orgulho em ver-me a vesti-lo na televisão, mas pelos vistos eu ganhei 30 libras [13,6 quilos] e quando entrei no carro de manhã para ir para o debate rasguei a parte de trás das calças de cima a baixo”, disse à CNN.

Na mesma entrevista, Bone mostrou-se espantado com a quantidade de seguidores que ganhou no Twitter: “Ontem à noite tinha sete seguidores no Twitter, dois dos quais eram contas da minha avó, porque ela teve de fazer um novo perfil depois de ter esquecido a palavra-chave. Agora tenho várias centenas. Não sei porque é que querem saber o que é que eu digo, mas fico contente por estarem interessados em política”.

https://twitter.com/TheMightyEROCK/status/785317500875452416?ref_src=twsrc%5Etfw

https://twitter.com/ParkerMolloy/status/785317463256948736

A pergunta de Ken Bone surgiu já perto do fim do debate. “Que passos é que a vossa política energética daria para responder às nossas necessidades energéticas, sendo ao mesmo tempo amiga do ambiente e minimizando os despedimentos de trabalhadores da indústria dos combustíveis fósseis?”, lançou aos dois candidatos o homem anafado, de bigode e óculos, vestindo a tal já bem famosa camisola vermelha.

Trump, que foi o primeiro a responder, disse-lhe que “o carvão vai durar mil anos neste país” e que, depois de falar também do gás natural”, os EUA têm uma “enorme riqueza mesmo debaixo dos nossos pés”. Já Clinton referiu que os EUA “podem ser a superpotência de energia limpa da século XXI e criar milhares de novos empregos e empresas” mas que ao mesmo tempo “não quer deixar para trás” os trabalhadores da indústria mineira, sem especificar, remetendo para o seu site.

No final do debate, Ken Bone, que foi escolhido para colocar uma pergunta aos dois candidatos por ser um eleitor indeciso, ainda não sabia bem em quem votar. Antes do debate, estava ligeiramente inclinado para o lado de Trump. Agora, está “mais indeciso do que nunca”. Sobre o tom do debate, disse que “nalguns momentos parecia que estava a ver o meu pai e a minha mãe a discutir”. Ainda assim, ficou com uma boa impressão de Hillary Clinton. “Ela impressionou-me com a sua compostura e com algumas das perguntas de ontem à noite”, disse à CNN, acrescentando que só depois do último debate, na madrugada de 19 para 20 de outubro, estará pronto para decidir em quem vai votar.

No estado do Illinois, onde Ken Bone vive, Hillary Clinton aparece nas sondagens com uma vantagem confortável, com uma média de 54,8% dos votos contra 38,5% para Donald Trump, de acordo como site FiveThirtyEight.

Joe, o canalizador

Não é a primeira vez que um cidadão anónimo é catapultado para a fama depois de interpelar candidatos presidenciais. Antes de Ken Bone, já tinha havido Joseph Wurzelbacher — que ficou conhecido por Joe The Plumber (Joe, o canalizador) — , um homem do Ohio que em 2008 colocou uma pergunta a Barack Obama enquanto este visitava o seu estado numa ação de campanha. Naquela altura, disse que era um pequeno empresário que estava a pensar comprar uma empresa de canalização. A pergunta era sobre a política fiscal de Obama para os pequenos empresários — que, suspeitava Joseph Wurzelbacher, iria subir-lhes os impostos.

Depois do encontro com Obama, durante o qual permaneceu em silêncio, disse à FOX News que a resposta de Obama o aproximava dos socialismo: “Ele disse que quer distribuir a riqueza. Quer dizer, eu não quero fazer nenhuma declaração aqui, mas, quer dizer, isso é mais ou menos uma opinião socialista”.

Depois deste episódio, o epíteto de “Joe The Plumber” acabou por ser-lhe atribuído pela campanha de John McCain e de Sarah Palin (candidatos a Presidente e vice-Presidente pelo Partido Republicano em 2008, respetivamente), que acabaram por referir aquele cidadão até então anónimo em várias ocasiões, em debates e discursos.

“Temos de agradecer ao Joe. Seja como for, ele conseguiu que Barack Obama finalmente dissesse quais são as suas intenções numa linguagem simples”, disse Palin num comício. “O senador Obama disse que ele quer “distribuir a riqueza” e quer que o Governo agarre no vosso dinheiro e decida como é que ele pode ser distribuído, de acordo com as suas prioridades. E o Joe sugeriu que soava um bocadinho a socialismo.”

Em 2012, Joseph Wurzelbacher registou-se como membro do Partido Republicano.