A direita diz que os serviços públicos estão mal, a esquerda defende que já estiveram bem pior. O CDS convocou para esta quarta-feira um debate sobre a rutura dos serviços públicos, descrevendo um caos nesta área: pagamentos em atraso nos hospitais no valor de 262 milhões de euros, menos polícias admitidos, menos dinheiro no Ensino Superior e cidadãos sem bilhetes de metro. O Governo responde que se há governação que atacou a função pública foi o anterior.

A vice-presidente da bancada democrata-cristã, Cecília Meireles, quis passar a mensagem da “austeridade das esquerdas“, com uma execução orçamental que está a afetar “a vida real na rua, nas escolas, nos serviços públicos”. No setor dos transportes, Cecília Meireles diz que os cidadãos já perceberam que o “paraíso ideológico das esquerdas, é afinal um verdadeiro inferno diário para muitos cidadãos de Lisboa e Porto”. E atirou-se à falta de bilhetes no Metro de Lisboa: “O senhor ministro chamou azar, eu chamo de incompetência.” O líder da bancada do CDS, também acusou o Governo de atirar as “culpas para o azar, para o azarucho”.

O CDS traçou um cenário negro dos serviços públicos. Na área da saúde, Cecília Meireles adverte que atualmente é difícil “reparar uma máquina de exames ou comprar medicamentos sem a autorização do ministro da tutela”, isto “já para não falar nos pagamentos em atraso de 262 milhões de euros”. A deputada do CDS falou ainda de “cativações de 44 milhões de euros no Ensino Superior”, de “escolas encerradas por falta de funcionários” e da “formação de 800 polícias em que só 300 foram aprovados”.

O CDS acusa ainda PCP e Bloco de Esquerda de serem partidos que “nuns dias nada veem, nada ouvem, nada dizem e noutros dias choram e fazem grandes protestos, mas quando chega a hora da verdade, a hora do voto, dizem Amén e baixam a cabeça“.

Numa linguagem também religiosa, o ministro Adjunto, Eduardo Cabrita, respondeu ao considerar que este debate é “um ato de contrição do CDS após quatro anos de estratégia de deliberada degradação do serviço público, da saúde, da educação e dos transportes”. E não ficou por aqui na resposta: “Bem-vindo o CDS à sua tradição democrata-cristã. O arrependimento é um valor cristão.”

Eduardo Cabrita considera “positivo que quem ao longo destes anos, se orgulhava da redução do número de estabelecimentos de ensino, da redução em dezenas de milhares do número de professores ou da redução da despesa afeta ao serviço de saúde” venha agora convocar este debate. O ministro lembra, por exemplo, que o país passou de “quatro orçamentos recessivos na educação para um orçamento que aumenta a despesa na educação e faz com que a abertura do ano letivo não seja notícia” e que “abriu mais lojas do cidadão num ano do que o governo PSD/CDS em quatro anos de mandato“.

PCP e Bloco de Esquerda responderam que não é possível encarar com “seriedade” um debate convocado pelo CDS sobre serviços públicos. A deputada bloquista Mariana Mortágua, lembrou o passado de ataques aos serviços públicos do anterior governo, considerando que “o secretário de Estado Sérgio Monteiro foi o coveiro o serviço nacional de transportes”. Mariana Mortágua pôs também a tónica nos trabalhadores na função pública: “Não há serviços públicos sem funcionários e o maior ataque que PSD e CDS fizeram foi aos funcionários públicos. Quando esta maioria valorizou os funcionários estava também a valorizar os serviços públicas, mas essa é uma realidade que a direita nunca compreenderá”.

A esquerda fez assim um retrato dos serviços públicos nos anos de governação PSD/CDS, o que levou o vice-presidente da bancada do PSD, António Leitão Amaro, a considerar que esta é uma maioria a “olhar para o retrovisor: que em vez de falarem do que se passa, não param de olhar para o passado“. Leitão Amaro quis ainda dizer que é responsabilidade deste governo situações como “escolas que não abrem porque não há funcionários ou alunos que têm de trazer o papel higiénico de casa”.