De cada vez que alguém usa a frase “Times they are a changin’” para ilustrar os novos rumos da Academia Sueca, morre uma foca bebé de desnutrição. Hoje fomos quase todos apanhados de surpresa com a atribuição do Prémio Nobel de Literatura a Bob Dylan mas convém não abusar dos paralelos entre realidade e êxitos do pop rock.

Comecemos pela nacionalidade. Dylan é norte-americano, o que reforça a perplexidade, sabendo-se que a Academia diz dos autores daquele país o que o Abu Bakr Al-Baghdadi não diz da entremeada. Mais. Dylan não é um escritor, é apenas um cantautor, poeta e sósia da Cate Blanchett, mas verdade seja dita, já andava há anos nas listas das casas de apostas que adoram especular com este galardão. Por alguma razão, a literatura é um dínamo de sedução mediática. Cria muitas expectativas, contribui para a sociedade do espectáculo, obriga as televisões à realização de directos a partir de livrarias e transforma anónimos em especialistas instantâneos. “O Dylan? Pffff, quem é o Dylan ao pé do Thiong’o?”

A verdade é que está aberto um novo paradigma nesta categoria do prémio que concentra todas as atenções. Depois da escolha de Svetlana Alexievich, uma repórter, temos agora um, digamos, músico. Escreveu com fartura, de facto, fez rimas, que fez, mas aposto um dedo mindinho em como o CAE do IRS de Bob Dylan atesta isso mesmo. Músico. O que faz com que se abra toda uma Caixa de Pandora da história contrafactual. E se tivessem escolhido outro músico? Quem seria merecedor da distinção? Aqui deixo algumas sugestões:

Nick Cave

Seria a escolha acertada do zeitgeist, do espírito do tempo. Acabado de lançar um álbum nascido de um luto profundo, Cave conquista muitos corações, extravasando largamente o universo indie onde começou por fazer carreira. Se Dylan tem “Knockin on Heaven’s Door”, Cave já entrou por ele adentro. Foi capaz de transformar-se sucessivamente, tem espiritualidade e sensibilidade para dar e vender e até já publicou livros, imagine-se. “I had a dream, Joe”. Se era o Nobel, esquece.

Leonard Cohen

O poeta por excelência. O cúmulo do charme. O Kilimanjaro da elegância. Ainda por cima, nas palavras do próprio, está pronto para morrer, situação que normalmente favorece a atribuição dos melhores prémios de carreira. À semelhança de Cave, também escreveu romances, mas o novo mindset da Academia Sueca parece apontar noutra direcção. Vantagem que poderá brandir num futuro próximo: é norte-americano, mas do Canadá.

Chico Buarque

Quando se soube da atribuição do prémio a Bob Dylan, metade dos portugueses suspiraram “Oh pá, ainda se fosse o Chico”. A outra metade estava mais preocupada em manter-se afastada de Aguiar da Beira. Chico Buarque é, digamos, um génio das letras, agrupadas no formato canção ou em páginas umas a seguir às outras, como costuma acontecer nos romances. Que, assinale-se, Buarque está farto de publicar, o que à luz do novo paradigma, não lhe traz vantagem nenhuma. Enfim, se me perguntassem, eu diria que a odisseia de “Geni e o Zepelim” vale por qualquer livro do senhor Odysseas Elytis. Quem? Exacto.

Sérgio Godinho

Clássico puxar de brasa à nossa sardinha, a verdade é que Sérgio Godinho não fica a dever nada a Bob Dylan. Godinho canta há décadas a condição humana, o amor e os desencontros, a transgressão e o desamparo, a luz e as trevas. É um mestre com as palavras e, no ano em que se assinalam os 500 anos da Utopia de Thomas More, seria só justo atribuir o prémio ao autor de “Liberdade”. Afinal, haverá utopia maior do que conseguir manter a paz, o pão, a habitação, a saúde e a educação, num período de assalto fiscal? Uma nota: convém que a casa não tenha boas vistas. Caso contrário, não há Prémio Nobel que lhe sustente o IMI.

Anselmo Ralph

de um lado:

Don’t wanna judge nobody, don’t wanna be judged
Don’t wanna touch nobody, don’t wanna be touched

do outro:

Dei-te mil motivos pra confiares em mim
Mas nada disso foi suficiente pra ti
Então agora não me toca (não quero saber de beijos)
Não me toca (não quero saber de abraços)

Venha o diabo, ou a Academia, ou a Ladbrokes, e escolha.

Pedro Vieira é consultor da Booktailors, pivô de televisão e ilustrador relutante.