Alguém conhece de cor e salteado a letra do hino espanhol? Sim, claro que sim. É um tom monocórdico, sem chama nem intensidade. Pois claro, é um hino instrumental. Daí que os jogadores se limitem a olhar para o céu sem abrir a boca nem sequer mexer os lábios. Alguém conhece de cor e salteado o estilo de jogo do Benfica na Amoreira? Sim, claro que sim. É um tom monocórdico, sem chama nem intensidade. Pois claro, é um não-hino ao futebol. Daí que os jogadores passem pelas brasas. No duplo sentido: o de dar 45 minutos de avanço com um futebol sem imaginação e o de ser obrigado a esforçar-se o dobro daquilo que espera para resolver a eliminatória sem recorrer ao prolongamento.

O 1.º Dezembro, sétimo classificado da Série G do Campeonato Nacional de Seniores, entra em campo cheio de vontade de surpreender e cumpre o desejo do treinador José Martins de adiar o golo do favorito Benfica nos primeiros 30 minutos. O objectivo é conseguido e o tempo estica-se até ao intervalo. Atenção, o 1.º Dezembro joga em campo neutro, na Amoreira. No outro lado, Rui Vitória estreia Danilo e faz umas experiências lá na frente, com a dupla Zivkovic e José Gomes. No meio-campo, Carrillo, Celis e Cervi, um trio que se atrapalha claramente. Com a bola e até sem ela. É possível ter 71% de posse de bola e não fazer cócegas sequer ao 1.º Dezembro? É, o Benfica prova-o em absoluto.

Se a primeira parte é uma nulidade, a segunda já é diferente. Rui Vitória faz entrar Gonçalo Guedes para o lugar de Carrillo e a velocidade do português faz-se notar de imediato. Ganha um lance e outro e mais um. Às tantas, sofre falta ali no lado esquerdo. Do respectivo livre, aparece o golo aos 50′. A bola é socada para fora da área pelo guarda-redes João Manuel e é o central Lisandro quem a recupera já pertíssimo da bandeirola de canto. O passe para Danilo é daqueles inofensivos. Acontece que o brasileiro mete o turbo, corta pelo meio de dois defesas e atira a bola por entre as pernas de João Manuel. Zero-um. Está resolvido?

Isso é que era doce. Diz Celis. O colombiano, já infeliz naquela desnecessária mão na bola vs. Besiktas, a ditar o livre do 1-1 de Talisca ao cair do pano, volta a incorrer no erro de palmatória. Desta vez, atrasa a bola para Ederson de maneira displicente, desde a linha lateral. Abdoulaye aproveita a deixa, é mais lesto que Luisão e é carregado em falta pelo guarda-redes. Penálti indiscutível e cartão amarelo (antes de 1 Junho, data da mudança da lei, seria penálti e vermelho). Para bater, o tranquilíssimo Martim Águas. O apelido é de jogador. O estilo também. Além de enganar Ederson (bola para um lado, guarda-redes para o outro), a tranquilidade do movimento é interessante para um jovem de 23 anos. É o terceiro Águas a marcar ao Benfica, depois do tio Raúl (pelo União Tomar em 1975) e do pai Rui (Portimonense 1984). Só falta o avô José – que, por acaso, até marca ao Benfica, só que a título particular, pela selecção do Lobito, em 1950, o que lhe vale, aliás, a transferência para o Benfica.

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Empate aos 62′. E agora, Benfica? Nada. Ou quase. Pelo menos, durante 20-e-poucos minutos. É de uma pobreza franciscana, a falta de ideias e de genica. O 1.º Dezembro vê ali uma oportunidade de ouro para saltar à ribalta e só quer aguentar até ao prolongamento. Depois, quem sabe?, penáltis. João Manuel é o digno guardião do 1-1. Aos 84′, voa de forma sensacional para impedir a alegria de Gonçalo Guedes. E, aos 85′, salva o golo de Lisandro. Atingimos o minuto 90 e vem à memória a 3.ª eliminatória do Benfica na época passada, em que Jardel salva o Benfica no último suspiro, vs. Vianense, em Barcelos (campo neutro). Ora bem, na Amoreira, acontece o mesmo. O árbitro dá seis minutos. Ao quinto, há um canto para o Benfica. Marca-o Pizzi. A defesa do 1.º Dezembro afasta para fora. Outro canto. Marca-o Pizzi, de novo. A bola voa para a pequena área e Luisão eleva-se mais alto que todos para o golo. O capitão salva o Benfica. Mais uma vez. É o seu primeiro golo na Taça de Portugal desde aquele 4-3 ao Sporting em 2013, aos 97′ (hoje, na Amoreira, 90’+6).

Estádio António Coimbra da Mota, no Estoril
Árbitro: Hélder Malheiro (Lisboa)
1.º DEZEMBRO: João Manuel; Zheng, João Lima, Romário e Oumar (cap); Pedro Dias e Leo; Gonçalo Maria (Pedro Rosário, 73′), Martim Águas e Rui Santos; Abdoulaye (Pedro Mendes, 65′).
Treinador: José Martins (português)
BENFICA: Ederson; Nélson Semedo, Luisão (cap), Lisandro e Eliseu; Carrillo (Gonçalo Guedes, 46′), Danilo, Celis (Mitroglou, 85′) e Cervi (Pizzi, 61′); Zivkovic e José Gomes.
Treinador: Rui Vitória (português)
Marcador: 0-1, Danilo (50′); 1-1, Martim Águas (62′ gp); 1-2, Luisão (90+6)