Há um tempo que antecede a televisão por cabo. Quando 130 canais era exotismo desmedido e irreal. “Em Beja, até ao início dos 2000, havia seis canais e dois eram espanhóis, lembro-me de ver o Oliver Tsubasa em castelhano”, confessa Diogo Vargas, teclista dos Marvel Lima, o quinteto de Beja que esta sexta, 14, edita o disco de estreia homónimo com o carimbo da Pontiaq.

Em caso de dúvida cá estão eles, a provar que o Alentejo é terra de vinho bom como é terra de bons sonhos — junta-se tudo e faz-se uma banda enquanto descobrimos as hormonas e as primeiras namoradas. “Havia os que jogavam à bola, nós escolhemos tocar, é claro que crescer e formar uma banda no Alentejo tem vantagens e desvantagens. Sempre tivemos uma sala de ensaios cedida pela Casa da Cultura, depois, claro… o público, em Beja, são sempre as mesmas cinquenta pessoas que são fiéis às bandas de lá”, afirma Diogo Vargas.

marvel lima disco

A capa do álbum de estreia dos Marvel Lima

A circunstância e o lugar faz o monge. E estes cinco não são muito de isolamento, pelo contrário, a vizinhança espanhola fê-los seguir por algo latino. Ainda que no final de 2013, quando os Marvel Lima se fizeram homens, não fosse possível esquecer o rock mais melancólico que tanto pregaram nas primeiras canções.

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E, como se isso já não fosse amálgama suficiente, tratemos de chamar também o psicadelismo e um groove, quase funky e pouco próprio de quem tanto gosta de distorcer as cordas. “Mi Vida”, single que lançaram em 2014, é o exemplo perfeito: “O ‘Mi Vida’ é um medley de Marvel Lima, resulta porque abarca um bocadinho de tudo, tem o lado espanhol e latino, no início aquele andamento psicadélico, há groove, há os synths… aquilo que sempre quisemos, fazer uma coisa nossa. O pessoal provavelmente estava à espera de uns Tame Impala 3, só que nós temos identidade própria”, explica José Penacho, vocalista e guitarrista.

Esta salada rica, rúcula e tudo, é de “tempero mediterrâneo” e se as aspas lá estão é porque não fomos nós quem o disse. Se isso é sinal de cuidado extremo com a alimentação, já nem tanto. “Enquanto cá andar é do bom e do melhor”. Se abrissem o negócio teria que ser algo como Marvel Limaria, mas no entretanto, há música para tocar, e vai-se a ver e isto ainda alimenta.

Ainda assim, há aqui preocupações genuínas, não é só suruba. “Primavera”, terceira faixa – por certo aquela onde o groove mais espreita pela janela – não é por acaso: “Sou engenheiro agrónomo e a minha especificidade é a climatologia agrícola, tenho que lidar com estações, com chuvas, evapotranspirações, tudo isso. Se procurares nas letras há sempre uma referência temporal, gosto de me deixar afetar por isso”, enquadro José Penacho.

E o Alentejo, malandro, sempre presente. Os Marvel Lima são bem mais primaveris do que tostas ao calor. “O verão é sofrimento para nós, somos mais primavera, ninguém sai de casa em Beja antes das 18h no verão”, explica o teclista antes de concluir: “A aridez vem também daí, os nossos ensaios eram um sufoco, tudo a soar, o cheiro a homem, isso pode ter contado bastante também”.

Isto não é cosplay, amigos

E aquela outra questão: de onde vem o nome deste quinteto rockeiro? O latino que existe neles não significa que tenham ido à capital do Peru. Lima vem de verde lima, a cor com que pintaram a sua sala de ensaios. O nome também é culpa da intransigência de um ex-baterista da banda: “Ele era difícil de agradar. Com Marvel Lima já não se importou, o Lima vem da nossa sala de ensaios, pintámos uma parede com aquele verde-lima e a cor era tão forte que decidimos o lima por aí, o Marvel vem de Marvellous”, contextualiza Penacho.

Tudo certo, sem problemas, só não esperem que ninguém pergunte pelos super-heróis, pelo Surfista Prateado e pelos Vingadores desta vida. “Sim, claro, o [homem da rádio e da televisão] Álvaro Costa até já nos disse que vamos ser processados pelo Capitão América”, partilham antes de se apressar a clarificar que são pouco dados ao assunto. Nem vão à Comic Con nem arriscam qualquer cosplay. Disfarces só nas canções.

Esta fusão de texturas e sonoridades apresenta o seu disco homónimo no próximo dia 21 no Musicbox, Lisboa, e dia 5 de dezembro no Café Au Lait, no Porto. Não sabemos se usarão máscara e mesmo que o façam isto continuará a ser real. Se em Beja os apelidaram de super-heróis da terra, noutros palcos também ninguém levará a mal.