Sobre Bob Dylan tudo se escreveu desde quinta-feira, quando a Academia Sueca o anunciou como Nobel da Literatura porque, justificou a Academia: Dylan criou “novas formas de expressão poéticas no quadro da grande tradição da música americana”.

Mas este não é apenas influente na música, sendo-o igualmente na ciência. Como assim? A reputada publicação British Medical Journal garante que Bob Dylan foi citado, até hoje, 213 vezes em artigos científicos. A primeira vez de que há memória de uma citação de Dylan remonta a 1970, num artigo cujo título não cria dúvidas quanto a ser dylanesco: “The times they are a’changin’”. E esta icónica canção é curiosamente a mais citada, tendo sido utilizada 213 vezes em artigos científicos.

Mas viajemos até ao país do Nobel e ao Instituto Karolinksa, em Estocolmo. Aí, em meados de 2014, quatro cientistas que há mais de uma década citavam Dylan nos seus artigos, resolveram fazer uma aposta: quem citasse mais vezes o músico e as suas canções, tinha direito a um almoço grátis na cantina de Karolinksa.

Destes cientistas, Jon Lundberg e Eddie Weitzberg, ambos professores do departamento de Fisiologia e Farmacologia, foram os primeiros a citar o agora Nobel da Literatura. Em 1997 publicam um estudo intitulado “Nitric Oxide and Inflammation: The Answer Is Blowing In the Wind”. O estudo versava sobre… gases intestinais. A “piada” está feita — mas o artigo é sério e foi publicado na revista Nature.

Mais tarde, em 2003, outros dois cientistas do Instituto Karolinksa, Jonas Frisén e Konstantinos Meletis, ambos professores de biologia, publicaram um artigo intitulado “Blood on the Tracks: A Simple Twist of Fate?”, que continha uma referência ao décimo quinto álbum de Bob Dylan, editado em 1975, seguido do título da segunda canção desse mesmo álbum.

Era tudo? Não. Jon Lundberg e Eddie Weitzberg voltariam a Dylan e a uma canção que haviam citado anteriormente. E deram o título de “The biological role of nitrate and nitrite: The times they are a-changin’” a mais um artigo científico. E agora, é tudo? Homessa. Jonas Frisén, agora sem o parceiro Konstantinos Meletis a seu lado, voltaria “à carga” em 2010 com “Eph receptors tangled up in two”, que faz referência a “Tangled Up in Blue”, a primeira canção do álbum Blood on the Tracks.

Vá lá, investigadores e cientistas de Karolinksa, basta. Só que… não. Em 2011, Lundberg e Weitzberg publicaram “Dietary nitrate – a slow train coming”. A segunda parte (A slow train coming) é título de um disco de Dylan publicado em 1979. Mas o artigo citava ainda Dylan mais uma vez, neste caso a música “The Ballad of a Thin Man”, um tema clássico de Dylan incluído no disco Highway 61 Revisited. E lia-se: “We know something is happening, but we don’t know what it is – Do we, Dr Jones?”. Seja lá o que Lundberg e Weitzberg queriam dizer com a referência.

A coisa estava tão acesa, que os investigadores resolveram alargar a aposta: o almoço não seria apenas pago aos investigadores do Instituto Karolinksa que citassem Dylan; seria ao investigador que mais vezes citasse Dylan… no mundo.

Com o Nobel da Literatura atribuído ao músico, talvez Frisén, Meletis, Lundberg e Weitzberg venham a perder umas quantas coroas suecas em almoços.