A Câmara de Idanha-a-Nova e a Filarmónica Idanhense estão a dar um novo impulso na revitalização e na preservação da viola beiroa, um instrumento secular tradicional da Beira Baixa que esteve à beira da extinção.

O município e a Filarmónica Idanhense lançaram um curso de construção de viola beiroa, frequentado por 12 formandos, que foi iniciado a 01 de outubro, Dia Mundial da Música.

O objetivo desta iniciativa está bem definido: aprender a construir uma viola beiroa e contribuir para a revitalização da história musical do concelho, onde este instrumento musical quer retomar o seu lugar de destaque.

“No país, não há uma oficina de construção e há também pouca gente que toque a viola beiroa”, comenta o diretor artístico da Filarmónica Idanhense, João Abrantes.

Desde as 09:00, as duas oficinas montadas no espaço do mercado municipal de Idanha-a-Nova ganham uma vida nova, com os formandos atentos às indicações dadas pelo mestre Alísio Saraiva, o coordenador do curso, tocador e o grande responsável por evitar a extinção da viola beiroa na Beira Baixa.

Alísio Saraiva começou, em 1994, a fazer pesquisa e recolha de informação sobre este instrumento, com uma tradição secular na Beira Baixa, e criou a afinação que é atualmente utilizada nesta viola.

Tal como numa orquestra, formador e formandos afinam nas bancadas de trabalho os acordes das serras e serrotes para produzirem, cada um, uma viola beiroa, que tem como referência o modelo que está exposto no Museu Nacional de Etnologia e que pertenceu a Manuel Moreira, natural de Penha Garcia e considerado o último tocador de viola beiroa.

Eduardo Antunes tem 22 anos e é o formando mais novo deste curso. Por breves instantes, interrompe o seu trabalho de “carpinteiro” e explica que assim que surgiu a oportunidade de integrar este curso não hesitou.

“Toco vários instrumentos musicais, desde guitarra, trombone, bateria ou adufe, mas não sabia construir nenhum instrumento musical. É uma oportunidade que tenho para aprender, até porque este é um instrumento que estava em extinção”, explica.

Eduardo confidencia que quer aprender a tocar a viola beiroa e adianta que esta é uma experiência diferente, onde, pela primeira vez, também executa um trabalho de carpinteiro.

No grupo de 12 formandos, há fotojornalistas, reformados, bombeiros, estudantes, carpinteiros e agricultores.

“Há de tudo e as idades dos formandos vão dos 22 aos 70 anos. A ideia de se avançar com este curso tem ainda outro objetivo mais alargado que é criar em Idanha-a-Nova uma oficina de música tradicional, não só da viola beiroa, mas de outros instrumentos, como a zamburra ou a palheta de Monsanto”, afirma João Abrantes.

Já António José, fotojornalista e membro do Grupo de Estudos e Defesa do Património Cultural e Natural da Gardunha (GEGA), abraçou o curso de “alma e coração” e quer levar uma viola para a sede do grupo em São Vicente da Beira e, se possível, integrá-la também no rancho local.

“Soube do curso e inscrevi-me porque tenho um gosto particular pelo artesanato e também porque a viola beiroa faz parte integrante do património da Beira Baixa”, frisou.

A vila de Idanha-a-Nova, no distrito de Castelo Branco, que integra desde o final de 2015 o grupo de Cidades da Música da UNESCO, no âmbito da rede de Cidades Criativas, quer integrar a viola beiroa em todos os grupos tradicionais do concelho.

“A seguir a este curso de construção vai haver um outro de execução para criar público e revitalizar o uso da viola. Queremos que passe a estar integrada em todos os grupos tradicionais de Idanha-a-Nova”, concluiu o diretor artístico da Filarmónica Idanhense.

Praticamente desaparecida da Beira Baixa, esta viola pode ser ainda encontrada em ocasiões cerimoniais, destacando-se a sua aplicação na ‘Dança dos Homens’ que remonta ao século XVII e que acontece apenas nas festas de maio, da Nossa Senhora do Alto dos Céus, na freguesia de Lousa, em Castelo Branco.