Desde que os eleitores decidiram, em referendo, que o Reino Unido (RU) abandonaria a União Europeia (UE), que têm sido vários os sinais de alarme provenientes da indústria automóvel, preocupada com a perda de competitividade de um produto que, apesar de fabricado no território, se destina, essencialmente, à exportação.

O mais recente aviso partiu da associação da poderosa indústria automóvel alemã, a Verbandes der Automobilindustrie (VDA), que detém no RU mais de uma centena de unidades de produção, entre fábricas de automóveis e de componentes.

Em declarações ao Financial Times, o presidente da VDA, Matthias Wissmann é da opinião que parte da indústria automóvel britânica poderá deslocalizar-se para países da Europa central e de leste (apontando como exemplos a Eslováquia ou a Polónia), caso o RU perca o acesso ao mercado único em resultado do seu “divórcio” da UE, e daí decorra a imposição de tarifas de importação aos seus produtos, que – já se comenta – poderão ser da ordem dos 10%.

Wissmann tem ainda por certo que um período de indefinição demasiado longo implicará um declínio do investimento estrangeiro no território por parte do sector, recordando o sucedido em Itália, há duas décadas atrás, quando a produção automóvel caiu de 2 milhões para apenas 500 mil unidades anuais.

Matthias Wissmann acredita que parte da indústria automóvel britânica poderá deslocalizar-se para países da Europa central e de leste

O presidente da VDA, e ex-ministro dos Transportes, enfatizou ainda que a prioridade da associação que dirige foi garantir a coesão da UE, algo que o referendo britânico acabou por não permitir.

Em 2016, as marcas alemãs exportaram 810 mil automóveis para o RU, mais do que para qualquer outro país do mundo, mas embora esse mercado seja relevante, Wissmann não tem pejo em colocar os pratos na balança:

O Reino Unido é um mercado importante para nós, mas o mercado da UE é muito mais importante.”

Quem também está a sofrer com a incerteza acerca dos efeitos do Brexit para o sector automóvel é o Grupo PSA e os seus trabalhadores. Segundo informação avançada pela rádio France Info, citando documentos internos da empresa, a que teve acesso, este é o factor apontado como justificação, a par da queda das vendas dos diesel na Europa, para o esperado corte, já em 2017, de nada menos do que 2.133 postos de trabalho em França. Ou seja, cerca de 3% da sua força de trabalho local, actualmente estimada em 78.274 trabalhadores, incluindo o fabricante de componentes Faurecia.

O Grupo PSA pondera eliminar 2133 postos de trabalho em França, já em 2017. O Brexit terá contribuído para a alegada necessidade de suprimir empregos

Por seu turno, a General Motors (GM), que tem no RU o seu maior mercado na Europa, é apontada como o construtor que maior probabilidade apresenta de transferir a sua instalação fabril do RU para outro país europeu. Já em Julho, a GM havia anunciado ter por objectivo uma redução de custos da ordem dos 365 milhões de euros até final do ano, por forma a fazer face à desvalorização da libra e a manter os seus objectivos para 2016 – que se previa poder ser o seu primeiro ano com resultados positivos desde 1999, algo que, agora, dificilmente se verificará.

Aliança Renault- Nissan confiante

No topo das preocupações do sector automóvel despoletadas pelo Brexit estão o aumento dos custos de produção, por via do incremento dos custos cambiais, e a eventual introdução de taxas incidentes sobre os produtos importados do RU. Mas também já há quem tema uma recusa de parte dos consumidores europeus em adquirir veículos produzidos em terras de Sua Majestade, como forma de retaliação à decisão dos seus súbditos.

Recentemente, Carlos Ghosn, CEO da Renault-Nissan, veio a terreiro afirmar que a fábrica que a marca japonesa possui em Sunderland só poderia aí manter-se, assim como os novos investimentos para a mesma previstos, caso o Governo britânico se comprometesse a assegurar compensações para quaisquer barreiras fiscais que viessem a ser impostas à importação para a UE dos seus automóveis produzidos no território. De imediato, outras marcas, como a Jaguar Land Rover, vieram clamar, no mínimo, por um tratamento igual. Não sendo de esperar posição diferente por parte de fabricantes como a Toyota, a Honda, a Mini, a Bentley ou a Vauxhall, que também possuem fábricas no RU.

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Até agora, não há confirmação de que a maior fábrica de automóveis do Reino Unido continuará a fabricar o Qashqai

De recordar que Sunderland é a maior fábrica de automóveis do RU. Emprega directamente 7.000 pessoas, assegura trabalho a muitos outros milhares, através da cadeia de fornecedores, e é responsável por cerca de um terço dos 1,6 milhões de automóveis fabricados anualmente no RU, produzindo modelos como o Infiniti Q30, o Leaf, o Juke e, sobretudo, o Qashqai. Até agora, não há confirmação de que continuará a fabricar o Qashqai (a decisão sobre o local de produção da sua futura geração só deverá ser tomada no final do ano) ou o Juke (cuja nova geração deverá chegar ao mercado em 2018).

Após um encontro com a primeira-ministra Theresa May, que afirmou a sua intenção de continuar a apoiar a indústria automóvel, o responsável máximo pela Aliança Renault-Nissan afirma estar confiante que o RU continuará a ser competitivo para a actividade da empresa, mesmo depois da conclusão das negociações com vista à sua saída da UE, que terão início no final do próximo mês de Março.