Chamam-lhes as “múmias dos pântanos“. Morreram há mais de dois mil anos, em situações ainda incertas, e os seus corpos emergiram muitos anos mais tarde em de pântanos do norte da Europa: Alemanha, na Dinamarca, na Holanda e no Reino Unido. As propriedades químicas dos pântanos permitem que os cadáveres se mantenham num estado de conservação extraordinário.

O jornalista Adam H. Graham viajou por estas terras e escreveu a história na BBC Travel. De acordo com Graham, os estudos que têm sido feitos aos cadáveres demonstram que todos eles, mulheres ou homens, tiveram um fim violento — pescoços cortados, enforcamentos, etc. Visto que, de acordo com os estudos existentes, a maioria das pessoas daquela época eram cremadas, estes indivíduos deverão ter tido um final bastante diferente do resto das populações. Estes indícios têm dado força à hipótese de se tratarem de vítimas de sacrifícios, que foram assassinadas e enterradas como oferta aos deuses.

Um dos cadáveres mais conhecidos é o da Mulher de Haraldskær, descoberta num pântano em Jutland, na Dinamarca, em 1835. “Quando ela foi descoberta, por escavadores em 1835, pensou-se que seria a rainha viking Gunhildd, que, de acordo com a Saga do Viking Jomsborg, foi afogada pelo próprio marido”, explica à reportagem da BBC Mads Ravn, arqueólogo do Museu Vejle, na Dinamarca. A suspeita acabou por ser descartada quando, através da datação por carbono-14, se descobriu que o cadáver tem 2.200 anos.

A Mulher de Haraldskær, descoberta num pântano em Jutland, na Dinamarca, em 1835. (Imagem: Wikimedia Commons)

Outra das mais famosas “múmias dos pântanos” é a do Homem de Grauballe, descoberto em 1952, também na Dinamarca, num estado perfeito de conservação. É um dos exemplares mais perfeitos e tem a pele intacta e o rosto ainda reconhecível. “Como a maioria dos cadáveres dos pântanos, o cabelo e a pele ficaram vermelhos devido a um processo químico chamado reação de Maillard”, explica Pauline Asingh, arqueóloga do Museu de Moesgard, na Dinamarca.

A morte do Homem de Grauballe também não foi pacífica, apesar do aspeto relativamente calmo do cadáver. “Foi forçado a colocar-se de joelhos, e a garganta foi cortada de um ouvido ao outro por alguém atrás dele. Mas depois foi depositado com cuidado no pântano”, esclarece Asingh, sublinhando que “pode parecer violento para nós, mas os sacrifícios eram um aspeto cultural deste período”.

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O Homem de Grauballe, descoberto em 1952. (Imagem: Wikimedia Commons)

No último século foram descobertos centenas de cadáveres em pântanos um pouco por toda a Europa do norte. As tecnologias atuais estão a permitir descobrir mais sobre estes corpos, mas a verdade é que continuam muitas dúvidas em torno da morte destes indivíduos. No caso da Mulher de Haraldskær, estão a ser feitas análises ao ADN do cadáver, para se conhecer mais sobre a história do cadáver, um dos grandes exemplos dos homicídios mais antigos alguma vez registados.