Crescemos a ouvir que o passado é para pôr atrás das costas. No fundo, é para evitar. Alex Cameron não vai nessa cantiga. Nós, por outro lado, vamos em todas as cantigas que o australiano faz. Ainda que, e convém admiti-lo o quanto antes, não tenhamos a sua decência. “Contamos histórias que relembram falhanços microscópicos, que invocam arrependimento. O que estamos a dizer é que não é tarde de mais para admitir os nossos fracassos e crescer a partir daí, aprender a celebrar as tuas circunstâncias, sejam elas de que natureza forem”, assegura via Skype um dia antes do concerto que dará na ZDB.

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“Jumping the Shark”, de Alex Cameron (Secretly Canadian)

Alex Cameron, às custas do disco Jumping the Shark – editado no final de agosto pela Secretly Canadian – é um dos perdedores do ano. E que paradoxo é dizê-lo. A sua electro-synth-pop — sintetizadores, voz e pouco mais — é das melhores coisas que vamos levar deste 2016 mas é na derrota, no falhanço, que está o segredo do artista. E se há coisa certa aqui – sim que Cameron nunca ri, é daqueles tipos que nunca sabemos quando está a brincar ou a falar a sério – é que não há cá pseudónimos ou personas: “É da minha vida que estou a falar, de coisas específicas, não abordo nada fora do meu lado pessoal e social de tragédia, o que digo é o que sei, e o que conheço é bastante pessoal, se isso envolver as pessoas, se isso as faz criar metáforas e aplicar aqueles conselhos à sua vida, melhor”, confessa.

Alex Cameron é um tipo rigoroso. Ou talvez seja alguém com boa memória, nada seletiva, pelo menos assim parece quando lhe pedimos para nomear alguns dos seus maiores falhanços, os mesmos que diz servirem de inspiração: “Posso falar-te do tempo em que me estava completamente a borrifar para esperanças e sonhos, de quando intencionalmente parti o coração de alguém, de quando não conseguia estar bem sexualmente, de quando deixei um trabalho só por stress ainda me que tenham oferecido dinheiro para ficar, de quando perdi comboios, de quando bati com o meu carro e estava demasiado nervoso para preencher os papéis do seguro, de quando me senti tão deprimido em palco que tinha quase a certeza que era a última vez que ia tocar, de quando não apoiei o meu irmão emocionalmente… coisas como estas, posso-te dizer muitas mais. Achas que chega”. Bom, talvez.

Iniciou-se como tantos outros, toca de aprender os instrumentos na escola. Fez-se homem em Sydney, onde já era garoto. Antes de invadir os bares da cidade com uma banda de rock onde também estava Roy Molloy – companheiro de negócio, amigo e também músico, normalmente toca saxofone nos concertos de Cameron – há coisas que importam referir, um passado que não sai com apagador de giz. “Sempre ouvi música como se fosse fazê-la, desde que era um puto. Sou o irmão mais novo e isso deu-me um sentido de frescura, não era uma grande consequência para a minha família, do género ‘ah, a propósito, ele é o terceiro, pode fazer o que quiser’. Tinha um pequeno dictafone, como tantos outros miúdos, e quando fiz 16 anos já tocava instrumentos na escola, isto tornou-se sério, quis comprar um sampler e gravar as minhas coisas e comecei a gravar sintetizadores e coisas aleatórias. Portanto, temos feito isto desde os 18, desde que podemos legalmente”.

A forma é profundamente distinta por aqui. Não é que estes sintetizadores não venham de algum lado, isto vai dos Suicide a Ariel Pink e o próprio Alex concorda, mas o homem também consegue soar a uma espécie de Springsteen espacial e isso é tudo bom. Só que a atitude, a postura de ser o pior aluno da turma e saber viver com isso é de uma frontalidade rara. À medida que a conversa prossegue, cada vez estamos mais certos de que este é um dos músicos mais interessantes destes dias, tanto na obra que faz como me tudo o resto. Cameron saca de frases banais transformadas em lições de vida como poucos conseguem: “Não somos pessoas de andar a dizer ‘não acredito na sorte que tive’, é claro que a sorte existe, mas a única forma de tirar vantagem dessa sorte é trabalhar no duro. Baixamos a cabeça, vamos de cidade em cidade, damos o máximo de nós fisicamente para tentar vender o maior número de discos possível. Essa é a nossa função enquanto criadores”.

Mergulhemos no disco de novo, esse objeto que quase gera incómodo, quase como se tivéssemos que ir outra vez ao médico pedir uma segunda opinião. Não é confortável mas conquista-nos com facilidade. Sobretudo com um título tão curioso quanto este. Jumping the Shark é um cliché tirado da televisão norte-americana para falar de uma produção que já passou de moda, que quando vê os holofotes seguirem noutra direção desata a disparar foguetes para recuperar a luz.

“Geralmente essa tentativa acaba com um colossal e embaraçoso fracasso, quis este nome porque encontrei beleza no esforço, na procura de um sucesso massivo. Acho o esforço bonito, tal como ao fracasso, espero fazê-lo até ao fim da minha vida”.

Esperemos que para Alex Cameron o fim esteja a galáxias de distância. Sobretudo porque poucos como ele conseguem criar imagens tão nítidas apenas com as palavras. E fá-lo com a melhor das simplicidades: “Escrevi as canções como se fossem escritas por um narrador, fazes um tema como ‘The Comeback’ e garantes que é um ex-apresentador de talk show a escrever canções na sua cave, em ‘Real Bad Lookin’’ asseguras que são pessoas bêbedas a escrever canções num bar. Ou seja, garantir que a personagem tem o ambiente perfeito para se exprimir, acho que é o que toda a gente faz mal, tentar escrever canções sem estarem conectados com aquela música, soa a mentira. Temos tentado procurar a verdade no som. Não estou preocupado em ter boa aparência, estou preocupado em parecer bem.” Uma questão de honestidade, é mais ou menos isso.

Alex Cameron atua esta quinta à noite no Café au Lait no Porto e sexta à noite na ZDB em Lisboa.

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