“Abril e o Mundo Extraordinário”

Uma animação de longa-metragem franco-belgo-canadiana concebida por Tardi directamente para a tela, realizada por Franck Ekinci e Christian Desmares, e a que os apreciadores de ficção científica alternativa e “steampunk” chamarão um figo. A história passa-se em 1941, num mundo onde a França e a Prússia nunca estiveram em guerra, a linhagem imperial napoleónica prosseguiu, a economia e a indústria ficaram para sempre dependentes do carvão, porque os grandes cientistas e inventores mundiais foram sendo raptados misteriosamente e desapareceram sem deixar rasto e o império francês está em conflito com a Liga das Américas por causa das grandes florestas do Canadá. A jovem e expedita Avril (voz de Marion Cotillard), filha de um casal de brilhantes químicos também eles desaparecidos, tal como o seu avô (voz de Jean Rochefort), e acompanhada de Darwin, o seu gato falante, vai à procura deles e tenta resolver o enigma dos sábios evaporados. O universo retrofuturista e movido a vapor imaginado por Tardi (que remete para as aventuras na França “normal” dos anos 10 e 20 da sua personagem Adèle Blanc-Sec e também para o cinema de Karel Zeman) tem mais consistência que o argumento, que se torna um bocado rebuscado para o fim, mas mesmo assim, “Abril e o Mundo Extraordinário” é uma alternativa muito bem-vinda à ficção científica elefantina, bronca e a carburar a efeitos digitais que costuma chegar de Hollywood. Ganhou o Cristal de Melhor Longa-Metragem do Festival de Annecy 2015.

“O Ornitólogo”

Dependendo do ponto de vista, das opiniões que se têm sobre o nosso cinema e a sua relação com o espectador e da mundividência cinéfila, o novo filme de João Pedro Rodrigues, distinguido em Locarno com o prémio de Melhor Realizador, é ou mais uma rasgada, audaciosa e originalíssima manifestação da individualidade autoral do cinema português, ou, inegáveis qualidades técnicas e estéticas à parte – a fotografia de Rui Poças é de cortar o fôlego -, mais uma manifestação das suas doenças infantis, nomeadamente a birra contra os modelos de narratividade convencionais, o autorismo auto-referencial e “show-off”, e o culto insistente da opacidade. Um ornitólogo, Fernando (Paul Hamy) que anda de caiaque pelo Douro a observar pássaros, tem um acidente no rio, e é salvo por duas peregrinas chinesas que se perderam do Caminho de Santiago. A partir daí, começam a suceder-se as situações bizarras, que contradizem o aspeto de aventura na natureza selvagem com laivos fantásticos que a fita aparentava assumir. “O Ornitólogo” torna-se numa interpretação muito pessoal, bastante transgressora – para o lado homoerótico e “pasolinesco” -, e crescentemente estetizante, alegórica e desconcertante, da vida de Santo António de Pádua, que inclui “bondage” ritual, caretos boçais que se transfiguram em santos, uma aparição do Espírito Santo na sua forma alada, a transformação final do protagonista no próprio realizador, sangrando da carótida como se tivesse sido mordido por um vampiro, e uma homenagem a António Variações. Reservo-me o direito de preferir o João Pedro Pedro Rodrigues de “China China”, “Alvorada Vermelha”, “Manhã de Santo António” ou “A Última Vez que Vi Macau”.

https://youtu.be/BTv5SCrvRg4

“Café Society”

No seu novo filme, que também narra, Woody Allen divide-se entre a Hollywood (onde não ia, no cinema, desde “Annie Hall”, de 1977) e a Nova Iorque dos anos 30, para contar uma história de amor frustrado e para sempre lamentado entre um jovem e ambicioso novaiorquino, Bobby (Jesse Eisenberg). que tem uma irmã casada com um intelectual comunista e um irmão que é “gangster”, e ruma à Meca do Cinema para trabalhar com o seu tio Phil (Steve Carell), um poderoso agente das maiores “estrelas” da indústria cinematográfica, acabando por se apaixonar pela bela Vonnie (Kristen Stewart), a secretária dele, ignorando que são amantes. “Café Society” assinala ainda a estreia de Allen a realizar em digital, bem como a sua primeira colaboração com o mestre diretor de fotografia italiano Vittorio Storaro, que banha a fita no ouro da nostalgia sofisticada. “Café Society” foi escolhido pelo Observador como filme da semana, e pode ler a crítica aqui.