Rádio Observador

Braga

Inovar antes da faculdade (e salvar as abelhinhas)

434

Milena e Francisca criaram método inovador de combate à vespa asiática, que pode revolucionar a apicultura, enquanto ainda estavam no 12.º ano, e foram representar Portugal numa feira de tecnologia.

Milena e Francisca eram alunas da Escola Secundária Dona Maria II, em Braga, quando desenvolveram o projeto.

Milena Pereira e Francisca Costa ainda estavam a concluir o ensino secundário, na Escola Secundária Dona Maria II, em Braga, quando criaram uma solução tecnológica inovadora para um problema que identificaram bem perto — os ataques das vespas asiáticas às abelhas nas colmeias, no norte de Portugal. O projeto valeu-lhes uma viagem ao Brasil para representarem Portugal na Mostratec, uma das maiores mostras de ciência e tecnologia do mundo, na semana passada, e onde venceram uma menção honrosa.

“O Norte de Portugal começou a ser invadido por uma espécie, a vespa asiática, que não é natural”, explica Milena Pereira ao Observador. A colega, Francisca Costa, acrescenta que “o problema está a devastar completamente a apicultura, sobretudo em Braga“. Por isso, as estudantes lembraram-se de aproveitar o Projeto Excelência Académica daquela escola secundária para encontrar uma solução. “Pensámos em vários métodos, biológicos, químicos e eletromecânicos”, sublinha Milena. As várias experiências que levaram a cabo conduziram à conclusão de que o método mais exequível era o eletromecânico.

IMGP6329

Um dos professores das jovens é apicultor, o que facilitou o trabalho de campo. “Pudemos utilizar os apiários dele para as experiências e isso foi muito útil”, refere Francisca. (Imagem: João Vieira)

“Criámos uma ‘harpa elétrica’, que colocámos à entrada das colmeias. Uma espécie de rede composta por fios elétricos, e utilizámos a diferença de envergadura de asas entre a abelha e a vespa para criar uma malha que seja mais larga do que as abelhas e mais estreita do que as vespas”, destaca Milena. A rede tem uma particularidade: ao tocar num dos fios, não acontece nada. Mas ao tocar em dois fios simultaneamente, dá-se uma descarga de 10 mil volts. Por isso, como a vespa é maior do que o espaçamento da malha, acaba sempre por tocar em dois fios, e morre eletrocutada antes de entrar na colmeia.

A estudante faz questão de sublinhar que “não existe problema em aniquilar esta espécie”, uma vez que não é natural em Portugal e coloca em causa o ecossistema que invade. E assegura ainda que “não existe o problema de a abelha ser eletrocutada, porque teria de tocar em dois dos fios e, devido ao seu tamanho, não consegue”. O trabalho de campo foi facilitado porque um dos professores das estudantes é apicultor. “Pudemos utilizar os apiários dele para as experiências e isso foi muito útil”, refere Francisca.

O projeto levou as duas alunas de Braga a participar na 10.ª Mostra Nacional de Ciência, promovida pela Fundação da Juventude, em maio deste ano. “A nossa escola foi com três projetos à Fundação da Juventude, e todos eles eram maravilhosos, e mereciam um prémio”, lembra Milena Pereira. Contudo, foi o projeto de Milena e Francisca que acabou por se destacar na iniciativa. Por isso, foram na semana passada ao Brasil, para participar na edição deste ano da Mostratec, uma feira de ciência e tecnologia que se realiza todos os anos em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul Brasil. Esta feira reúne anualmente projetos científicos inovadores criados por jovens cientistas de todo o mundo. Este ano, entre os 640 projetos, só houve um português: o de Milena e Francisca. E ganharam uma menção honrosa, por criar “inovador e eficaz sistema de captura e eliminação das vespas velutinas”.

IMG_20160419_145620

A rede de fios elétricos criada por Francisca e Milena para impedir a entrada das vespas asiáticas nas colmeias. (Imagem: João Vieira)

“Ficámos muito contentes. Sentimos que valeu a pena, depois de trabalharmos este ano todo”, refere Francisca. “Para nós foram muitas noites sem dormir, especialmente para conciliar o final do secundário com o projeto. Tentámos dar o máximo de tempo ao projeto, e por isso é uma alegria enorme, um grande orgulho, poder ir representar o nosso país”, acrescenta Milena. Na mala, levam agora “apenas uma maquete ilustrativa, porque a organização não deixa levar nem as abelhas nem a a bateria, e por isso não vamos poder mostrar o equipamento a funcionar”, sublinha Francisca Costa.

Escola tem “dinâmica de projetos que não é nova”

O professor João Vieira, que coordenou este projeto, garante que este tipo de ideias “não é novo na escola”. A Secundária Dona Maria II já viu, por exemplo, um grupo de alunos premiado no Intel ISEF, a maior feira de ciência e engenharia do mundo. E, em dezembro, “um dos nossos alunos vai participar na final das Olimpíadas da Astrofísica, na Índia”, destaca”. Para o docente, existe uma “dinâmica de projetos na escola” que é ainda mais relevante porque “os alunos fazem estes projetos fora das aulas“, e em áreas distintas, “que vão da impressão 3D até à biologia”.

Uma das grandes vantagens destes projetos, sublinha João Vieira, é a possibilidade que oferece aos alunos de “contactar com investigadores e aprender conceitos que, normalmente, só aprenderiam daí a dois ou três anos no ensino superior”. Assim, garante o professor, “os estudantes levam um background diferente para o superior, aprendem a argumentar, a puxar dos seus conhecimentos, e dão um salto em relação àquilo que é a aprendizagem normal do secundário”. Além da preparação para o ensino superior, “há ainda o contacto com o meio empresarial, que é de extrema relevância no que toca à inovação”.

IMGP6335

As vespas, maiores do que a malha da rede elétrica, tocam em dois dos fios e morrem com uma descarga de 10 mil volts. (Imagem: João Vieira)

João Vieira vê, ainda, vantagens na imagem institucional da escola. “Os alunos querem vir para aqui“, garante o responsável pelo projeto Excelência Académica, que é um clube ainda mais exclusivo. “Temos menos vagas do que interessados. Abrimos cerca de 30 vagas, o equivalente a uma turma”, sublinha o docente. Numa escola com 1.100 alunos, integrada num agrupamento de mais de três mil estudantes, fazer parte daquele clube é só para os melhores. Mas o entusiasmo acaba por transbordar para as aulas. “Quando temos alunos e professores entusiasmados com projetos, acabamos a falar, nas aulas, de temas que nem sequer estavam nos programas, porque os alunos querem saber mais”, acrescenta João Vieira.

No caso concreto do projeto de Milena e Francisca, “já há uma empresa que mostrou interesse no produto, mas ainda terão de ser feitos testes a uma escala maior”, assegura o docente. “Se tiver os resultados que a empresa espera, são capazes de fazer um investimento”, destaca. “Estes projetos nas escolas têm uma importância enorme, são muito estimulantes para os alunos, e acabam por potenciar até a criação de startups“, considera João Vieira.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

Maio de 2014, nasceu o Observador. Junho de 2019, nasceu a Rádio Observador.

Há cinco anos poucos acreditavam que era possível criar um novo jornal de qualidade em Portugal, ainda por cima só online. Foi possível. Agora chegou a vez da rádio, de novo construída em moldes que rompem com as rotinas e os hábitos estabelecidos.

Nestes anos o caminho do Observador foi feito sem compromissos. Nunca sacrificámos a procura do máximo rigor no nosso jornalismo, tal como nunca abdicámos de uma feroz independência, sem concessões. Ao mesmo tempo não fomos na onda – o Observador quis ser diferente dos outros de órgãos de informação, porque não queremos ser todos iguais, nem pensar todos da mesma maneira, pois não?

Fizemos este caminho passo a passo, contando com os nossos leitores, que todos os meses são mais. E, desde há pouco mais de um ano, com os leitores que são também nossos assinantes. Cada novo passo que damos depende deles, pelo que não temos outra forma de o dizer – se é leitor do Observador, se gosta do Observador, se sente falta do Observador, se acha que o Observador é necessário para que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia, então dê o pequeno passo de fazer uma assinatura.

Não custa nada – ou custa muito pouco. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: jfgomes@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)