25 de fevereiro de 1973.

Então como agora, o estádio era do Restelo, mais à tardinha e sem pinga de chuva como a que caiu nesta noite diluviana de domingo em Lisboa. O Benfica era o de Jimmy Hagan. E o Benfica chegou ao dérbi depois de ter vencido, na jornada anterior, um outro dérbi: 2-0 ao Sporting, em Alvalade. Mais: a vitória diante do Sporting fora a décima quarta de seguida fora do velhinho estádio da Luz. E o recorde de Hagan adensava-se, mais e mais, deslocação após deslocação. É que a anterior máximo, doze vitórias como visitante, era do Benfica, sim, mas tinha barbas: foi na temporada de 1963/64.

Vítor Martins, Artur Jorge, Simões, Nené e Eusébio. Lá na frente o Benfica era de susto — isto para não falar de Humberto ou Toni, mais recuados. Mas ao Belenenses do argentino Scopelli, concretamente à defesa de Scopelli, com Pietra, Quaresma ou Murça — Mourinho Félix era o guarda-redes –, nada assustava. O problema (para o Belenenses, entenda-se) é que quando se tem Eusébio, vence-se. O pantera negra fez 1-0 aos 25′, Artur Jorge o segundo e último do jogo em cima do gongo: 89′.

O Benfica haveria de ser campeão na jornada seguinte, na Luz, diante do Vitoria de Setúbal. E o recorde que se adensara, pelo Restelo ficou: o Benfica foi empatar (2-2) às Antas na viagem seguinte. Mas o recorde perdurou. Nem John Mortimore, nem Sven-Göran Eriksson, Artur Jorge ou José Mourinho, André Villas-Boas ou Jorge Jesus, nenhum campeão — por mais destacado que o tivesse sido — conseguiu tantas vitórias fora de seguida como Hagan. Nenhum, até hoje. Também um domingo. 23 de outubro de 2016. O recorde, Vitória havia-o igualado em Chaves. Hoje, ultrapassou-o. Não houve Eusébio, mas houve igualmente um golo madrugador, de Mitroglou, aos 10′. O outro não foi tão no finalzinho como o de Artur Jorge em 1973, mas chegou aos 65′, por Grimaldo.

Agora, é esperar que o recorde caia. Talvez quarenta anos — ou melhor: 43 anos, sete meses e 27 dias. Talvez mais. É que Rui Vitória ainda o pode adensar o que Hagan não adensou. A próxima viagem é ao Dragão, a 6 de novembro.

Mas vamos lá ao até ao estádio Restelo (que até teve trovoada e tudo) e ao que há desta noite há para lhe contar. Logo aos cinco minutos, aí está a primeira ocasião de golo. E é para o Benfica. Tudo começou em Nélson Semedo, que subiu pela direita e entrou na área. Aí, apertado entre Florent e Yebda, tentou ser o Maradona da Linha de Sintra e perdeu a bola. O segundo dos opositores, o ex-Benfica Yebda, inventou quando só tinha que despachar a bola “para as couves”, tentou um toque habilidoso — e habilidade não é com o argelino –, perdeu a bola, Pizzi recuperou-a e rematou cruzado, na direção do poste esquerdo. Joel Pereira defendeu a custo, a bola ficou na pequena área, redondinha, Mitroglou fez-se à relva e desviou-a em esforço, mas Joel voltou a defender. De vez. Que perigo. Que disparate de Yebda.

Contem-se mais cinco minutos. E… golo. O cabeceamento, em si, não foi perfeito. Até foi à figura do guarda-redes Joel Pereira. Mas a potência do desvio de Mitroglou era tanta — há quem não a tenha com o pés, quanto mais com a cabeça –, que Joel viu a bola “furar-lhe” as luvas e seguir lá para dentro. O canto de Pizzi, à direita, é do melhor que há, em arco, com a bola a seguir para a pequena área, fugindo ao guarda-redes. Mitroglou saltou com Domingos Duarte, mas saltou mais alto e impôs o físico. É o quarto golo do grego no campeonato.

Já falaremos do remate (18′) de Salvio e da defesa de Joel Pereira. Mas é importante, antes, descrever-lhe a jogada que levou ao dito remate. Linfelof subiu pelo meio-campo fora, entregou a bola a Cervi mais à frente, ele que rapidamente se desfez dela na direção de Grimaldo, à esquerda. O espanhol não foi à linha de fundo cruzar, seguiu para dentro, ali mesmo à entrada da grande área, passou a Mitriglou, Mitriglou devolveu-lhe o passe, Grimaldo voltou a passar ao grego, toma lá, dá cá, que tocou ainda mais para dentro… de calcanhar. E quem recebeu o passe, “dentro”, foi Pizzi, que continuou com o “carrossel” e desmarcou Salvio à direita, dentro da área e nas costas da defesa do Belenenses. Depois, e por fim, Salvio rematou cruzado. Ufffff! Joel defendeu. E a jogada é toda ela um regalo.

Olha, olha, se não é o Belenenses a dar sinais de vida. Está feito o primeiro remate (25′) com direção dos da casa. André Sousa e Gerso, dois canhotos, ensaboaram a cabeça a outro canhoto, Grimaldo, combinaram à direita do ataque, deixaram o espanhol de candeias às avessas, Gerso cruzou (com tanta força, que quase aparentou ser um remate) para a pequena área, Luisão e Lindelof avançaram para deixar Yebda em fora-de-jogo, mas falharam os intentos e o argelino cabeceou mesmo, sozinho e à vontade. Ederson esticou-se todo, fez-se à relva e ao poste esquerdo, segurando o cabeceamento a custo.

Ouviu isto? Não, não era um trovão. Era o estremecer do poste. Pizzi desmarcou Mitroglou à entrada da área, o grego estava de costas para a baliza, amorteceu a bola na canhota, Domingos Duarte correu para o desarmar, mas quando lá chegou já Mitroglou tinha rodopiado e rematado (33′) ao poste esquerdo da baliza do Belenenses. Joel não chegou, só tocou na bola de raspão, com a luva direita. A bola, essa, depois de tocar o ferro, “passeou-se” pela linha de baliza, ninguém a cortou, ninguém a desviou para golo, seguiu para lá do poste contrário, lentamente e até à linha de fundo.

Sigamos para a segunda parte. O minuto era o 55. O livre, frontal. Coladinho à área. Aproximou-se da bola uma camisola azul, duas, três, uma catrefada delas. Mas estava mais do que visto: dali, a marcar alguém, marcaria André Sousa, de canhota. E marcou. A barreira era cerradíssima. Luisão gritava para que ninguém se mexesse, para que não se abrisse entre os do Benfica uma nesga que fosse para o remate de André passar. E André percebeu isso, que por ali nada passaria. Então, havia que rematar em jeito, por cima da barreira e daqueles matulões todos — Luisão, Lindelof, Fejsa, Mitroglou. Mas tanto jeito quis dar ao remate, tanto se inclinou para trás, que a bola subiiiiiu e acabou por sair muito por cima da barra. Ederson nem se fez ao remate, claro está. E isto foi o melhor que se viu do Belenenses na segunda parte…

Rui Vitória deitou às mãos à cabeça aos 59′. “O Mitro não me falha destes!” — terá pensado. Cervi acelerou pela esquerda, Grimaldo acelerava a seu lado, o argentino tocou para o lateral, este cruzou rasteiro para a pequena área, Mitroglou surgiu sozinho a desviar de canhota, mas desviou para o centro da baliza, Joel Pereira foi rápido a reagir, mergulhou para o relvado e desviou a bola. OK, Mitroglou falhou — e é disso que se falaria se a coisa der para o torto no final. Mas isto é uma defesa im-po-ssí-vel.

Mais uma ocasião para o Benfica. E esta deu em 2-0. Tudo começou em Sturgeon. Sim, é do Belenenses. Este recuperou a bola à saída da sua área, saiu a jogar pelo centro, acelerou, “cheirava” a contra-ataque, mas Sturgeon acabou por esbarrar em Luisão ainda antes do meio-campo. Depois, recuperada que estava a bola, Luisão desmarcou (65′) Guedes lá frente, ligeiramente descaído para a esquerda, o camisola vinte ameaçou que remataria, puxou a bola para dentro, olhou para a baliza, ajeitou a bola e ajeitou-se ele mesmo o corpo, enganou com isso toda a defesa do Belenenses, e o que fez a seguir foi passar para a esquerda, para dentro da área, desmarcado Grimaldo nas costas da defesa. O espanhol recebeu a bola e rematou-a de seguida, um remate cruzado que ainda tocou em Joel Pereira, mas tão forte seguia que só acabou a sacudir água das redes.

Uishhhhh! Foi o que se ouviu no Restelo — hoje mais encarnado do que azul nas bancadas. À trave! E que “pastel” – ou não estivéssemos em Belém — foi o de Cervi. Fejsa recuperou a bola (70′) no meio-campo, entregou-a rapidamente em Salvio à direita, este “despachou” Abel Camará e Florent em três tempos com a sua velocidade e drible, seguiu para a área, cruzou para trás, para fora desta, Guedes serviu de “tabela” e tocou de primeira para Pizzi, que lá dentro voltaria a cruzar recuado, Mitroglou falhou o desvio, Cervi não: em queda, rematou e acertou com estrondo na trave.

E nada mais há para contar. Então, terminemos como nos contos infantis: vitória, Vitória, fez-se história.

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