Atenção aos solavancos: 2-2 com a União Lisboa, 2-1 no Porto, 2-2 em Coimbra, 2-1 nas Salésias. O arranque do Benfica visitante no primeiro campeonato de sempre, em 1934-35, é o menos vitorioso possível. Contado nem se acredita. Em quatro jogos, zero vitórias e apenas dois pontos em oito possíveis. Que irregularidade assustadora. A primeira alegria de sempre só chega à quinta tentativa, em Setúbal (5-2).

Como os sábios dizem (e bem), “isto não é como começa, é como acaba”. E o Benfica dá a volta ao texto. E de que maneira. O 2-0 no Restelo, com golos de Mitroglou e Grimaldo, equivalem à 16.ª vitória seguida fora de casa no campeonato. É recorde nacional. Por incrível que pareça, o Benfica ultrapassa o Benfica. Isso mesmo, o Benfica de Rui Vitória 2016 dá água pela barba ao Benfica de Jimmy Hagan 1972-73.

A história repete-se, no fundo. Porque esse Benfica de Hagan, travado in extremis pelo Porto, nas Antas, com um golo do brasileiro Flávio aos 88 minutos (2-2), também melhora o recorde à custa de outro Benfica. O de Riera/Czeizler em 1963. Pormenor interessante dessa epopeia: o Benfica ganha nas Antas (2-1) e em Alvalade (3-1), algo inalcançável para Hagan e Vitória. É o Vitória a impedir a 13.ª vitória seguida, no Bonfim. Quer isso dizer que o Benfica ocupa todos os lugares do pódio, em matéria de vitórias seguidas fora no campeonato? Sim senhor, isso mesmo. Benfica de Vitória em primeiro (16), Benfica de Hagan em segundo (15), Benfica de Riera e Czeizler em terceiro (12).

E em quarto? O Porto, em quatro versões, todas elas com 11 vitórias. O primeiro de todos é o de Artur Jorge em 1984-85, com uma invejável 22-4 em golos. Em abril, nulos mil. É o Sporting o responsável pela quebra momentânea (0-0). O FCP repete a dose dos 11 na década seguinte, em 1996-97.

O onze de António Oliveira ganha 1-0 em Alvalade e 2-1 na Luz antes de soçobrar na Reboleira, com um penálti aos 90’+3 minutos, assinalado por António Rola, por empurrão de Sérgio Conceição sobre Jordão. Antes do 2-2 de Gaúcho, o árbitro expulsa os portistas Artur e Sérgio Conceição por protestos e ouve todo um chinfrim de protestos, com o capitão Jorge Costa à cabeça, sempre de dedo em riste — aliás, a atitude sobranceira manter-se-ia depois do apito final, na cara de um polícia já sem o boné em cima da cabeça e na sequência de um lamentável 100 metros costas de Rola na tentativa de fugir à avalanche de protestos.

Os dois últimos casos portistas já remontam ao século XXI. Em 2008-09, na era Jesualdo Ferreira, não há uma única vitória só com um golo marcado. É tudo de dois para cima, é obra. Até ao 1-1 em Paços. Seria aqui que se iniciaria a quarta e última série de 11 vitórias seguidas, em 2010-11. André Villas-Boas ganha 3-1 a Rui Vitória e arranca para o título, devidamente festejado na Luz. Quando Vítor Pereira assume o leme, já o Porto tem nove. Acrescenta-lhe mais duas, em Guimarães (1-0) e Leiria (5-2). Na visita à Feira, 0-0 com o Feirense.

Benfica e Porto, que tal passar ao outro e não ao mesmo? Siga, vá. É o Sporting, com sete vitórias seguidas em dose dupla. Em 1947, sob o comando de Robert Kelly, é um fartote de goleadas: 5-3 ao Elvas, 4-2 ao Boavista, 4-2 ao Estoril, 5-3 à Olhanense, 6-1 ao Atlético, 4-2 ao Porto e 3-1 à Académica. Adivinhe o goleador dessa aventura? Cuidado, não arrisque Peyrot… Já é tarde. Peyroteo? Não, o fura-redes por excelência falha dois jogos por lesão e o facto é aproveitado por Jesus Correia (11-9). Já agora, quem trava o Sporting? O Vitória, nos Arcos (1-1), com golo de Peyroteo em cima dos 90.

O outro recorde do Sporting é estabelecido em 1970, por Fernando Vaz. Sem o exagero dos números de Kelly, ainda assim com um 5-2 ao Leixões em Matosinhos a selar o título de campeão nacional. No início da época seguinte, Barreirense, Leixões, Varzim e CUF nem marcam um golo a Damas. Na visita a Guimarães, o Vitória também não. Só que o Sporting está a zeros e o nulo inviabiliza o novo recorde do clube.

Bom, já que há números dos três grandes, porque não aumentar a lista com os outros campeões nacionais? Sim, porque não? Comecemos pelo Boavista de Jaime Pacheco em 2002. De 14 janeiro até 24 março, seis em seis e só um golo sofrido (Farense). O Belenenses também tem o recorde de seis vitórias seguidas, estabelecido em 1946, ano do único título. Se o Boavista ganha à arraia-miúda, por assim dizer (Beira-Mar, Belenenses, União Leiria, Farense, Braga e Paços), o Belenenses tem uma vitória sobre o Porto no seu registo. Um-zero, cortesia de Andrade, então o mais jovem jogador do onze de Augusto Silva, com 19 anos.

Dos não-campeões, aquele com melhor registo é o Braga de Leonardo Jardim. Entre 19 dezembro 2011 e 17 março 2012, seis vitórias e 18 golos marcados, sete deles de Lima. Quem o trava é Jesus, na Luz (Benfica, 2-1).

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