“Há uma real oportunidade para as startups que souberem operar num ambiente tecnologicamente forte”, afirmou Gus Franklyn-Bute, consultor da embaixada dos EUA em Londres, no Select USA Seminar & Startup Challenge Final Pitch, organizado pela Microsoft Portugal e a Embaixada dos EUA, no passado dia 18 de outubro.

Este evento, destinado às startups portuguesas de base tecnológica que querem expandir-se para os EUA, foi integrado no programa Journey to the Web Summit, criado pela Microsoft Portugal para ajudar as startups a tirar o melhor partido do Web Summit, que decorre em Lisboa, entre 7 e 10 de novembro.

Com um PIB (Produto Interno Bruto) anual na ordem dos 18 triliões de dólares e 320 milhões de habitantes, os EUA são um dos mercados mais atrativos para as startups e as portuguesas não são exceção. Porém, entrar neste mercado implica conhecer as suas especificidades e a manhã deste seminário, depois das notas de abertura de Paula Panarra, diretora da área de setor público e diretora geral interina da Microsoft Portugal e de Robert Sherman, embaixador dos EUA em Portugal, centraram-se em particular nos aspetos práticos que as startups precisam dominar antes de dar o salto.

O primeiro painel, moderado por Gus Franklyn-Bute, contou com a participação de Robert Mollen, advogado associado da Fried Frank; Elaine Lamb, diretora da La Playa International, especialista em seguros; Julio Castro, da KPMG US, e Michael Santos, da KPMG Portugal, ambos especialistas em impostos. Aspetos legais, seguros e impostos no contexto norte-americano foram temas que despertaram a participação de todo o auditório.

Preparar a entrada nos EUA não se faz em dias. Há que, em primeiro lugar, proteger a marca, estudar as leis comerciais, que são muito diferentes das da Europa, e tratar do visto para a equipa poder entrar nos EUA. A obtenção deste visto demora, em geral, três meses. “Tudo o resto – banca, seguros e implementação da empresa – pode ser feito em três semanas”, garante Robert Mollen, acrescentando que a parte mais difícil de todo o processo é, por vezes, encontrar um bom comercial. “A pior coisa que uma startup pode fazer é contratar um mau comercial… e a segunda pior coisa é contratar novamente um mau comercial”, gracejou Mollen aludindo às especificidades deste mercado e dos seus consumidores, que exigem uma abordagem diferente da europeia.

Os pecados capitais não se ficam por aqui. “75% dos empreendedores só procuram aconselhamento especializado depois de terem assinado contratos sem compreender todas as cláusulas”, adverte Elaine Lamb. Na maior parte das vezes, a ajuda já chega tarde de mais.

O timing também é particularmente importante nos que respeita aos impostos legais e nos EUA cada estado tem as suas próprias leis. Califórnia, tão apetecível para as startups, é o estado mais complicado ao nível das taxas a tributar. Novamente, os empreendedores “preocupam-se demasiado tarde com os impostos”, alerta Michael Santos. “Só depois de venderem a empresa ou parte dela é que percebem o imposto que têm de pagar”, exemplifica.

Acesso a financiamento

O segundo painel, moderado por Robert Mollen, foi dedicado a um assunto-chave: financiamento. Maria Dramalioti-Taylor, partner da Beacon Capital, Walter Palma, responsável pelos investimentos da Caixa Capital, e Alexandre Teixeira Santos, da SONAE IM, partilharam aspetos-chave da relação entre startups e empresas de capital de risco.

O painel foi unânime em defender que as startups só devem procurar as empresas de capital de risco depois de terem testado o mercado. Na balança devem ser considerados os business angels, incluindo amigos. “Os angels têm mais paciência, perdoam mais facilmente e esperam. Os VCs [venture capitalists] são mais agressivos e puxam-vos como se não houvesse amanhã”, argumenta Maria Dramalioti-Taylor.

A motivação de uns e outros é diferente: “Os angels olham para a questão social, enquanto os VCs têm a motivação dos números”, sublinha Walter Palma. É por isso que, para Alexandre Teixeira Santos, o momento ideal para uma startup abordar uma empresa de capital de risco é quando esta já tiver algo para mostrar e, sobretudo, métricas. Perceber quando chegou o momento é crucial: “não se pode colocar óleo de fórmula 1 num Smart senão ele explode”, conclui Walter Palma.

Os critérios de seleção de um candidato ao capital de risco foi outro dos temas mais debatidos. Além das prioridades das próprias empresas e das recomendações provenientes de consultores, o painel sublinhou a importância da equipa, da relação que se estabelece com ela e a etapa em que se encontra o projeto. “Não investimos em Power Points”, explicou Walter Palma, sublinhando a importância de a startup já se encontrar no mercado e de ter feedback dos consumidores.

A transparência da relação e o contacto pessoal entre a startup e a empresa de capital de risco foi também valorizada por Maria Dramalioti-Taylor, para quem o ideal é conhecer a equipa pelo menos durante seis meses antes de tomar uma decisão. Este tempo é, porém, usualmente mais curto, pressionado em geral pelas rondas de investimento, pelo que a relação tem de ser ainda mais transparente: “é como se fôssemos casar com uma pessoa seis semanas depois de a conhecer; a verdade é que vamos ter de ficar juntos durante cinco ou mais anos”, conclui.

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