Mais que um clube é o lema do Barcelona. Mais que uma Taça é a teoria da Taça da Liga inglesa. Mais que um treinador é o objetivo de Pep Guardiola e José Mourinho. São eles, os treinadores, de quem realmente se deve falar para o United-City desta quarta-feira à noite (SportTV1, às 20h00), e não de Agüero-Ibrahimovic, um duelo apaixonante, sim senhor, mas sem a dimensão dos dois maestros que jogam sentados ou, quando muito, de pé junto à linha lateral.

Porque é impossível representar um mesmo espírito ganhador e uma ambição como as que personificam Mourinho e Guardiola de uma forma tão oposta. É a mesma essência no “Heavy” e no “Coldplay”. Os dois partilham uma desmedida preocupação por detalhes, preparação física, dieta, análise microscópica do rival, equações metabólicas e todos os outros elementos científicos que sirvam para atingir a perfeição. Os dois também partilham a convicção absoluta do “melhor tático do mundo”, o que os torna, aos olhos dos jogadores, eloquentes, precisos e infalíveis quando se trata de ganhar um jogo desde o banco.

Assombrados com tanta sabedoria, os seus homens respondem com uma lealdade ilimitada. Uma coisa é o estilo coldplay, com discurso filosófico, erudito e sedutor. Outra é o estilo heavy, a forma provocadora de levar os formalismos ao limite. Por isso, “são dois doentes por futebol”, como explica Xavi, treinado por Guardiola — e até por Mourinho, ainda na era Van Gaal em 1997-98. Aliás, Xavi, Mourinho e Guardiola são velhos conhecidos desses tempos.

A 16 Dezembro 1998, o Barça ganha ao Estrela Vermelha por 4-1, num particular em Cádis, com Mourinho a treinador. Na altura, Van Gaal (altamente criticado pela imprensa catalã e pelos adeptos do Barça devido à sua rigidez como pessoa, fielmente transposta para o relvado) encosta-se na bancada e atira Mourinho às feras. Este dá-se bem, com Guardiola no onze e Xavi a entrar nos últimos nove minutos.

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A vitória é tão folgada e tranquila (golos de Cocu, Kluivert, Zenden e Óscar, todos na segunda parte) que os jornalistas e os adeptos catalães pedem a substituição de Van Gaal por Mourinho até ao final da época. Tal não acontece (e Van Gaal até ganha a segunda Liga espanhola consecutiva em maio 1999). Só ligeiramente mais tarde, em setembro 2000, Mourinho segue o seu caminho. Heavy, claro. Com Pep, então, nem se fala. Guardiola está, aliás, careca de saber. Queridos inimigos, a sequela (parte 18).

Na estatística, Guardiola manda. E bem (8-3 em vitórias). Se afunilarmos a pesquisa para jogos únicos a eliminar, como este da Taça da Liga (em caso de empate, prolongamento e penáltis), uma alegria para cada lado. O primeiro a rir é Mourinho na final da Taça do Rei-2011, em Valência, com aquele cabeceamento fulgurante de Ronaldo sem hipótese para Pinto, em pleno prolongamento. À mesma hora, na Luz, o Porto de Villas-Boas dá a volta ao Benfica na Taça de Portugal (3-1). O segundo ato dá-se em Praga. É a Supertaça europeia-2013, entre Chelsea e Bayern. Um golo de Torres aos 9′ é anulado por um de Ribéry aos 47′. No prolongamento, Hazard volta a adiantar Mourinho, aos 93′. Cabe ao suplente Javi Martínez o 2-2 já em período de descontos. Nos penáltis, todos marcam à exceção de Lukaku, no décimo e último remate. E hoje, em Old Trafford, como é: heavy ou coldplay?