O desaparecimento do pequeno Martim durante mais de 24 horas, no concelho de Ourém, está levantar questões, não só sobre a hipótese de rapto parental, mas também sobre a forma como uma criança pode sobreviver durante tanto tempo naquelas condições. Os portugueses já tinham feito as mesmas perguntas em 2014, quando Daniel Abreu, de 18 meses, esteve desaparecido durante três dias na ilha da Madeira. Em ambos os casos, as autoridades admitiram a possibilidade de rapto, devido a uma dúvida comum: era difícil, quase impossível, que as crianças sobrevivessem durante aquele tempo em condições tão adversas, sem água e sem comida.

O caso de Daniel remonta a 19 de janeiro de 2014. Nesse dia, a criança encontrava-se com familiares na casa de um tio, na Calheta. O alerta do desaparecimento foi dado ao início da tarde, pela família, e rapidamente foi mobilizado um dispositivo de buscas, composto por bombeiros, PSP e PJ. Os pais foram os primeiros a ser ouvidos pela Judiciária (neste caso, como na situação de Martim, a situação familiar não era pacífica). Os pais estavam em processo de separação e havia um histórico de violência doméstica que veio a descobrir-se mais tarde.

Daniel acabou por ser encontrado três dias depois, a 22 de janeiro. Estava molhado, com fome, frio, e estava debilitado. Foi descoberto por um “levadeiro” (responsável pela distribuição de água de rega na Madeira) chamado Manuel Teixeira, de 61 anos. O pediatra que observou a criança no hospital do Funchal garantiu que Daniel estava “clinicamente bem”, mas declarou que era “intrigante” que o bebé tenha conseguido sobreviver durante três dias naquela zona, sozinho e sem abrigo. As dúvidas dos médicos levaram a PJ a considerar a hipótese de rapto. “As últimas diligências, os últimos acontecimentos podem levar a pensar que estamos perante um crime de rapto”, disse Eduardo Nunes, coordenador da PJ da Madeira, dizendo que continuavam “em aberto todas as possibilidades“.

A mãe de Daniel acabou por ser detida, seis meses depois do desaparecimento, por suspeita de ter “encenado” o desaparecimento do filho. A mulher confessou ter levado a criança com a intenção de a vender por 125 mil euros a um casal de emigrantes, e chegou a contar os detalhes ao namorado. A guarda da criança foi atribuída ao pai, que não conhecia o esquema planeado pela mãe. Entretanto, em maio já deste ano, o Ministério Público acusou a mulher dos crimes de rapto e de tráfico de pessoas.

As dúvidas dos médicos relativamente à capacidade das crianças de sobreviveram nestas condições podem ficar esclarecidas com a história de Tserin Dopchut, uma criança russa de três anos que esteve perdida durante três dias numa floresta na Sibéria. Tserin desapareceu quando se encontrava a brincar com os cães, junto à casa da família, acompanhado pela avó. Ao seguir um dos cães para o interior da floresta, a criança ficou perdida e só foi encontrada 72 horas depois. Segundo a imprensa local, a criança conseguiu sobreviver apenas com os chocolates que levava no bolso, e chegou a montar uma cama improvisada junto a uma árvore.

As autoridades vasculharam uma área de 120 quilómetros quadrados, e Tserin acabou por aparecer a três quilómetros de casa. O local em que a criança de três anos se perdeu não é sequer comparável aos pinhais portugueses. “A situação era muito perigosa”, devido a um rio “rápido e frio” que existia na zona, explicou um responsável pelas buscas. Além disso, a gelada floresta siberiana é habitada por ursos e lobos, que “podem atacar qualquer coisa que mexe”, sublinhou o responsável. Ainda assim, a criança sobreviveu, e foi considerada uma heroína na sua aldeia natal, que organizou uma festa para celebrar o aparecimento.

Há outra história a ajudar a teoria de que não é impossível uma criança sobreviver durante várias horas sozinha, na rua. Em 2011, Tyler Jacobson, com menos de dois anos, desapareceu de casa apenas vestido com uma t-shirt e a fralda. A criança só foi encontrada no dia seguinte, a cerca de 400 metros de casa, após uma busca intensiva por parte das autoridades. A história ficou conhecida porque a Tyler passou a noite com o seu cão, e os médicos acreditam que foi precisamente o animal que conseguiu manter a criança quente durante a noite.

Com o caso de Martim, a investigação ainda não está concluída, mas a PJ já admitiu que não descarta a possibilidade de “origem criminosa”. Os especialistas também têm estranhado as condições em que a criança foi encontrada. O pediatra Bilhota Xavier, que observou Martim, confirmou que a criança “não apresentava sinais de ter sido vítima de maus tratos“. Em declarações à TVI24, o especialista em medicina forense Duarte Nuno Vieira afirmou que “não parece muito provável que a criança tenha feito este caminho sem nenhuma lesão sem nenhum arranhão, sem nenhum estrago de roupa”.

Uma das possibilidades avançada pela família, e que este especialista também refere, é a hipótese de rapto parental. A análise do vestuário de Martim poderá ser crucial para reconstituir os passos da criança. “Se esta criança tivesse sido retirada por alguém, andado no colo de outra pessoa, poderia existir no vestuário da criança algum vestígio biológico desse terceiro indivíduo”, acrescenta Duarte Nuno Vieira. O pai da criança reside em França, e esteve na última sexta-feira em Portugal para uma sessão no tribunal, em que a guarda de Martim foi atribuída à mãe. De acordo com a advogada, o pai não terá ficado satisfeito com o resultado. O homem foi o primeiro a ser chamado pela PJ para ser ouvido em Portugal.