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Óbito

João Lobo Antunes: 11 reflexões sobre a vida, a doença e a morte

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O Observador recupera aqui algumas das reflexões feitas por João Lobo Antunes sobre temas como a vida, a compaixão pelos outros, a doença que o afetou e a morte que o esperava.

"As pessoas sem memória são navegadores sem bússola"

LUSA

Autor
  • Miguel Santos Carrapatoso
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João Lobo Antunes morreu esta quinta-feira aos 72 anos, depois de uma vida dedicada à medicina e em particular à neurocirurgia, mas também ao ensino, às questões ligadas à Ética para as Ciências da Vida, à filosofia, à intervenção pública e política e até à literatura. Reconhecido pelos pares, agraciado com várias distinções, não foi por acaso que Maria João Avillez, no Observador, o distinguiu como o “Príncipe do Renascimento“.

Habituado a encarar a fragilidade (dos outros, dos doentes) de frente, nunca deixou de refletir sobre a vida, a doença e a compaixão. No último período da sua vida, o médico viu-se na pele de paciente e a morte tornou-se um tema frequente das suas reflexões. O Observador recolheu 11 frases de João Lobo Antunes que materializam essa e outras discussões.

A vontade de viver “uns anos mais”

Quando olho para a minha vida, diria que o futuro sempre me aconteceu, e eu não dei por isso. Nunca tive uma meta (…) Portanto, quando dava por isso, o futuro já cá estava. De maneira que estou tranquilo. Queria ter uns anos mais, queria ter uns anos mais.”

O medo de perder a memória

No balanço entre as coisas que recordo e as que procuro esquecer ficam sobretudo aquelas em que me afastei de mim próprio, da minha razão de ser. Em que não fui fiel a mim próprio. Essas são irreprimíveis. Tive ocasião de ser eu próprio operário dessa transformação e de perceber como a doença trata a memória das pessoas. As pessoas sem memória são navegadores sem bússola. É das maldições piores que existem.”

Treinado para resolver problemas

Um primeiro-ministro inglês do princípio de século XX dizia que a democracia era o governo pelo diálogo, mas para que funcionasse era necessário que se calassem. O diálogo não pode perpetuar-se sempre, a certa altura é necessário chegar a conclusões. Pessoas como eu, que foram treinadas para resolver problemas, sabem que há uma altura em que é necessário levar as pessoas a fecharem conversas.”

A transformação pela doença

Há anos escrevi que não se pode dizer com os olhos aquilo que se nega com a palavra. Diria que foi a experiência da doença que me tornou mais sensível. Como se tivesse esticado a corda do violino e esta vibrasse ao menor toque, com maior intensidade e frequência. Por isso, mais do que uma mudança sofri uma evolução, que introduziu outra doçura na relação com as pessoas.”

Benevolente, mas não bondoso

A benevolência surge da capacidade de reconhecer nos outros os nossos defeitos. Da irmandade secreta entre as faltas que os outros cometem e as que cometemos. Mas tem limites. Há coisas com que já não sou assim tão tolerante. Nomeadamente, algumas falhas de caráter. Não que isto tenha mérito moral — não tem nenhum.”

Uma vida entre batalhas vencidas e perdidas

Tenho refletido muito sobre o que foi a minha vida e diria que se houve guerra foi vivida com leveza. Perdi muitas batalhas, como médico e cirurgião. Mas ganhei mais do que perdi. Devo dizer que sempre com uma estratégia cautelosa. Nunca me meti numa guerra que não achasse que tinha possibilidade de vencer. Ou seja, fui sempre pragmático, apesar dos meus devaneios literários ou filosóficos. E tive muitas quando voltei a Portugal.”

A doença como “implacável igualizador”

De facto, o meu hospital era um lugar para pessoas importantes, e o reconhecimento do estatuto de privilégio de cada um era um passo prévio e indispensável na relação que se estabelecia. Para o doente, isto era essencialmente um mecanismo de defesa, um grito de apelo adicional, a reclamação da atenção exclusiva, o que não surpreende, pois todos os doentes, sem excepção, se encontram no estado que alguém descreveu eloquentemente como de ‘wounded humanity’. Mas, no fundo, a doença é um implacável igualizador e ri‐se do berço e da fortuna”.

Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015

O balanço final

A doença convida ao exame da vida, provavelmente a única circunstância em que chegamos próximo da análise lúcida do caminho percorrido. Então regressam à cena os actores esquecidos da nossa biografia. Voltamos a viver os momentos em que subimos mais alto do que alguma vez aspirámos, ou descemos àquela profundidade em que a vergonha nos perdera. Ouvimos novamente as palavras que deveríamos ter contido ou então, pelo contrário, as que ficaram por dizer. Contabilizamos o balanço final e escrevemos, com um sorriso e um travo de amargura, o último currículo.”

Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015

A rejeição da comiseração piedosa

Prefiro a compaixão ontológica, de bicho para bicho, um sentimento cuja essencial nobreza tem uma raiz biológica que só agora se vai desvendando à comiseração piedosa, um sentimento mais barato. Esta é a minha maneira de ser doente.”

Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015

A traição do corpo e o refúgio na mitologia da adolescência

Por isso, quando o corpo me traiu, o meu refúgio foi adoptar a impassibilidade do coronel inglês de calças de caqui e pingalim, cuja imagem se gravara, indelével, quando ainda adolescente vi pela primeira vez David Niven na Ponte do Rio Kwai.

Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015

O futuro da medicina

Não sei o que nos espera, mas sei o que me preocupa: é que a medicina, empolgada pela ciência, seduzida pela tecnologia e atordoada pela burocracia, apague a sua face humana e ignore a individualidade única de cada pessoa que sofre, pois embora se inventem cada vez mais modos de tratar, não se descobriu ainda a forma de aliviar o sofrimento sem empatia ou compaixão.”

Obra Ouvir com outros olhos (Gradiva) – 2015

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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