Alemanha. O nome assusta por si só. Alemanha. Força, grandeza, estatuto. Que o digam os clubes portugueses. Na época passada, os grandes saem da UEFA por culpa dos alemães: primeiro é o Sporting em Leverkusen, depois o Porto aos pés do Dortmund, finalmente o Benfica com o Bayern. É o cabo dos trabalhos. Se afunilarmos a pesquisa dos portugueses na Alemanha, aí a porca torce ainda mais o rabo. Dos 72 jogos, só sete vitórias. Sete. É pouco, pouquíssimo. Dessas sete, nenhuma do Sporting e duas de Jesus, ainda pelo Benfica. Ei-los, os sete magníficos.

Fernando Caiado, CUF 1972
Ultrapassado o Racing White Molenbeek, da Bélgica, com dupla vitória sem sofrer golos (2-0 e 1-0), à equipa do Barreiro sai-lhe o Kaiserslautern para a 2.ª eliminatória da Taça UEFA 1972-73. Na primeira mão, o Estádio Alfredo Silva enche-se para puxar pelos seus. Em vão, embora Manuel Fernandes faça o empate à beira do intervalo. Na segunda parte, Hosic bisa aos 52′ e Diehl fixa o 3-1 aos 64′. Curiosamente, o treinador alemão Dietrich Wiese está insatisfeito com a vantagem de dois golos. “Quando marcámos o segundo golo, senti que a CUF já não tinha pernas para nós e recomendei economia de esforço aos nossos jogadores. Só que eles estavam tão animados que nem me ouviram e acabaram por estragar os meus planos com o 3-1, uma vantagem que compromete o êxito financeiro da segunda mão.”

Ainda faltam 90 minutos para o fim da eliminatória e a CUF enche-se de brio para dar a volta na Alemanha, onde nunca um português ganhara (entre dez derrotas e dois empates: Leixões vs Motor Iena e Porto vs Munique 1860). “Fazia um frio de rachar”, lembra o guarda-redes Conhé. “Na Alemanha e em Novembro, já se está a ver. Eu joguei de calções, mas o guarda-redes deles estava de calças.”

O onze de Caiado é o de sempre: Conhé; Vítor Marques, José António, Castro e Victor Gomes; Vítor Pereira, Vieira, Juvenal e Arnaldo, Manuel Fernandes e Monteiro. Ao intervalo, 0-0. O Kaiserslautern, 11.º classificado da 1. Bundesliga, a oito pontos do líder Bayern, sofre a derrota em cima do minuto 90, através de Eduardo, o jóquer de Caiado. Com o Molenbeek, o extremo-direito já saltara do banco para marcar os dois golos da vitória (2-0). Em Kaiserslautern, mais um golo do suplente. Este de sabor amargo. “Mesmo que tivéssemos marcado um outro”, conta Manuel Fernandes, “íamos para prolongamento, porque esse ainda não é o tempo da regra dos golos fora”.

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John Mortimore, Belenenses 1988
O Bayer Leverkusen levanta a Taça UEFA 87-88, numa final inenarrável. O Espanyol vence a primeira mão por 3-0, em Barcelona. Quinze dias depois, está 0-0 ao intervalo. Impossível uma reacção, certo? Errado. O Bayer marca um, dois, três. Prolongamento, depois penáltis. O primeiro deles do Bayer é falhado. O Espanyol sorri. E, acto contínuo, erra três livres de 11 metros, como diria Manuel Machado. A taça é do Bayer (3-2).

O treinador Erich Ribbeck vai pregar para outra freguesia e o Bayer contrata Rinus Michels, campeão europeu de selecções nesse Verão de 1988. O investimento é brutal, os outros que se cuidem. Os outros, menos o Belenenses do fleumático John Mortimore. No sorteio da primeira eliminatória da Taça UEFA, o Belenenses calha com o detentor do título. A primeira mão é em Leverkusen e é um festival de emoção sem igual. Aos seis minutos, Adão escapa-se pela esquerda e cruza milimetricamente para a entrada de cabeça de Mladenov, 1-0. Até ao fim do jogo, José António salva uma bola na linha aos 15′ e Paulo Monteiro atira à trave, aos 59′. A vitória é um marco histórico no futebol português. O onze dessa epopeia é formado por Jorge Martins; Carlos Ribeiro, José António, Sobrinho, Zé Mário, Teixeira, Chiquinho, Paulo Monteiro, Juanico, Adão e Mladenov.

Bobby Robson, Porto 1994
De inglês para inglês, de Mortimore para Robson. Ambos treinam equipas de azul, uma do Centro, outra do Norte. Duas semanas após o imperdível 4-4 em Leverkusen entre Bayer e Benfica, o Porto dança em Bremen (5-0) na fase de grupos da Liga dos Campeões.

Do onze inicial, com Baía, João Pinto, Couto, Jorge Costa, Rui Jorge, Secretário, Paulinho Santos, André, Timofte, Kostadinov e Drulovic, um há que se lesiona bem cedo, aos 9′. É ele, Paulinho Santos. Quem o substitui é Rui Filipe. Ainda frio e sem ritmo, o médio loiro sai a festejar no primeiro toque na bola, aos 11′. O amortie é de Kostadinov e o remate de Rui Filipe é como uma flecha, sem hipótese para Oliver Reck, ainda por cima traído por um ressalto na perna de um companheiro. O 2-0 é um desarme de André no meio-campo do Werder, devidamente aproveitado para Drulovic estender a passadeira vermelha a Kosta. O búlgaro, eficaz como sempre, cumpre com um remate rasteiro. Antes do intervalo, Drulovic falha o 3-0 à boca da baliza.

Calma, o Porto marcaria esse e ainda mais dois durante a segunda parte, por Secretário (slalom de 20 metros e jinga de corpo para enganar um alemão), Domingos (outro suplente, outro golo de bandeira de fora da área) e Timofte (de penálti).

Fernando Santos, Porto 2002
Continuamos no Porto, agora na era Fernando Santos e alguns heróis até se repetem. Ora veja lá bem: Baía; Secretário, Jorge Costa, Aloísio e Esquerdinha; Chainho e Paulinho Santos; Capucho, Deco e Drulovic; Jardel.

É a fase das duas fases de grupos da Liga dos Campeões. Na primeira, o FCP dá conta do recado, com Real Madrid, Molde e Olympiacos. Na segunda, há Sparta, Barcelona e Hertha. Na última jornada, o Porto visita Berlim e o maravilhoso Olímpico enche-se para assistir ao tudo por tudo. Em caso de vitória, a qualificação para os quartos-de-final é uma realidade para o FCP. O Hertha, diga-se, é de uma fragilidade impressionante. Disso se aproveita o Porto para dar água pela barba, com remates e mais remates à baliza do húngaro Kiraly, o tal das calças cinzentas de fato de treino.

Às tantas, decorridos 68 minutos, Santos substitui Clayton por Drulovic. No primeiro toque na bola, o brasileiro fura pelo meio de dois berlinenses. E avança com a bola bem controlada, sempre com o pé esquerdo. Passa mais um defesa e depois ainda rompe entre três antes de entrar na área e atirar certeiro à saída de Kiraly. É um golo de classe mundial. No flash interview, Clayton é bem brasileiro. “Este golo foi de Deus, eu sabia qu’Ele me tinha reservado esta noite.”

Jesualdo Ferreira, Porto 2006
Mais Porto. Primeiro Robson, depois Santos, agora Jesualdo. É a fase de grupos da Liga dos Campeões, com Arsenal, CSKA e Hamburgo. Na visita à bonita cidade portuária alemã, o Porto dá um golpe de autoridade sem igual (3-1), na sequência de um mais-que-satisfatório 4-1 no Dragão, quinze dias antes.

O onze contempla nomes como Helton; Bosingwa, Pepe, Bruno Alves e Fucile; Paulo Assunção, Meireles e Lucho; Quaresma, Lisandro e Postiga. Aos 44 minutos, uma descida pela direita de Quaresma apanha a defesa do Hamburgo em contra-pé. Vale o corte de um defesa de cabeça para fora da área, onde aparece o capitão Lucho a atirar de primeira, ao ângulo superior. É um golo tão bom, tão bom, tão bom que está entre os 60 melhores de sempre da Liga dos Campeões. O compatriota Lisandro assina o 2-0, Van der Vaart reduz no instante seguinte e é o suplente Bruno Moraes a fixar o resultado.

https://www.youtube.com/watch?v=uwif6QEzPeA

Jorge Jesus, Benfica 2011
Estugarda é a cidade onde o Benfica perde a final da Taça dos Campeões-88, com o PSV. Aquela dos penáltis, com Van Breukelen a adivinhar o remate de Veloso, já na segunda série do desempate.

Qualquer coisa como 23 anos depois, o capricho do sorteio dos quartos-de-final da Liga Europa devolve o Benfica a Estugarda. É a segunda mão e o 2-1 na Luz é um resultado traiçoeiro. Ou então não. Porque Roberto faz uma defesa do além a cabeceamento de Oazaki. Porque Salvio marca um belíssimo golo de fora da área, na sequência de um canto. E porque Cardozo acerta um livre a 25 metros na gaveta.
O 2-0 em Estugarda é o primeiro triunfo de Jesus na Alemanha, com este onze aqui ò: Roberto; Maxi Pereira, Luisão, Sidnei e Fábio Coentrão, Airton, Salvio (1-0), Aimar, Gaitán, Jara e Cardozo.

Jorge Jesus, Benfica 2013
Leverkusen, parte 2. Ao 1-0 do Belenenses em 1988, segue-se o Benfica, no século seguinte. Invicto há 22 jogos, o Benfica de Jesus viaja a Leverkusen para jogar os 16 avos da Liga Europa e sai-se bem, bastante bem.

O homem-golo é o inevitável Cardozo num lance bem trabalhado pela direita, por André Almeida. Na zona do penálti, o goleador aguenta a tentação de rematar à primeira e faz cair um adversário antes de atirar para a baliza, à saída do guarda-redes. Até final, o Bayer só está perto do empate aos 90’+3 quando Melgarejo evita o golo de cabeça, em cima da baliza, já sem Artur entre os postes.

Naquele dia dos namorados, é o paraguaio e mais dez. A saber: Artur, André Almeida, Luisão, Garay, Melgarejo, André Gomes, Matic, Ola John, Gaitán e Urreta.