Carlos Lopes nos JO Los Angeles 1984, Rosa Mota nos JO Seul-88, Fernanda Ribeiro nos JO Atlanta-96. Já ficámos acordados de madrugada para ouvir o hino português. E também para festejar o título mundial do FC Porto, em 1987. O golo da consagração (um chapéu de aba larga: 30 metros) é obra de um argelino de categoria internacional, que já havia construído a jogada do 1-0 de Gomes. E que, já agora, havia assistido Juary para o 2-1 vs Bayern na final da Taça dos Campeões, dois minutos depois de assinar o empate, de calcanhar. Passamos a bola a Madjer, certamente o estrangeiro mais influente do FC Porto, à frente de Jardel e Cubillas.

Boa tarde Madjer. Falo de Portugal.
Boa tarde, amigo. [Madjer é um baril: amigo para aqui, amigo para ali; habitue-se]

Tudo bem?
Tudo.

Este fim-de-semana, há clássico no Dragão.
Bem sei, bem sei. Não me apanhas desprevenido. Estou atento.

O que te diz o Benfica?
Muita coisa. Para começar, tenho a honra de ter ganho ao Benfica pelo Porto e também pela Argélia.

Pela Argéliaaaaaa?
Amigo, Estádio Nacional, em Argel. Antes do Mundial-82. Nessa altura, estava longe de saber que ia jogar com a maioria uns anos mais tarde. Como Bento, Carlos Manuel, Veloso, Álvaro.

Quanto ficou?
Um-zero.

Para quem?
Ainda perguntas?

Golo do Madjer?
Do Yahi. Eu guardei-me para um 4-2 na Luz, com o Futre na sua melhor forma.

O famoso 4-2?
Exacto, que noite memorável. Além da vitória explícita, levantámos a Supertaça na Luz.

E…
Espera, tenho outra história com o Benfica.

É só dizer.
A minha estreia pelo Porto foi precisamente no Estádio da Luz, na festa de inauguração do Terceiro Anel. Um jogo particular e empatámos 0-0.

Ainda bem que falas disso. Como é que chegas ao Porto?
De França.

Pois bem sei, mas como? Quer dizer, és o Madjer.
Obrigado pelo elogio, amigo.

De nada. Já tinhas feito história no Mundial-82, com aquele golo à RFA.
À RFA, campeã europeia em título. Ganhámos 2-1. Eu marquei, o Rummenigge empatou e nós, logo a seguir, fizemos o 2-1 pelo Belloumi.

E depois?
Perdemos 2-0 com a Áustria. No último jogo, vencemos 3-2 o Chile. E com duas vitórias não passámos à fase seguinte. Que tristeza.

O RFA-Áustria, não é?
Sim, sim, eles é que passaram. Jogaram um dia depois de nós e já se sabia que uma vitória alemã bastava para apurar os dois. Foi 1-0 e ficaram a trocar a bola depois do golo de Hrubesch, aos 10’. Uma vergonha tão grande que os espectadores no estádio do Celta Vigo puxaram pela Argélia toda a segunda parte, em sinal de protesto. Eu estava a ver o jogo e não acreditava na falta de intensidade dos jogadores e no apoio frenético do público. Parecia que estávamos a jogar em casa.

E é tudo?
Não, nem pensar. A partir daí, a terceira jornada dos grupos começou a decidir-se no mesmo dia e à mesma hora. Para o bem e para o mal, a Argélia escreveu uma página no futebol mundial.

E o Madjer também, insisto. De 1982 a 1985, o Madjer estaciona em França. Como se deu?
Comme si-comme ça [risos tímidos]. Comecei num escalão baixo, marquei 20 golos numa época e subi até ao Racing. Lá, dei-me mal. A equipa não se reforçou, os resultados não apareceram e o treinador saiu. Para piorar, fui operado a uma pubalgia e fiquei quatro meses de fora. Desci ao inferno. E, depois, desci à 2.ª divisão. O Racing emprestou-me ao Tours. Não estava muito animado, como deves imaginar.

E apareceu o Porto?
Primeiro, apareceu o Lucídio Ribeiro, empresário português que trabalha muito no mercado francófono. Só depois o convite do Porto.

Lembras-te do dia em que aterraste no Porto?
Sim, claro, no Aeroporto Sá Carneiro. Estava um dia cinzento.

Uau, essa não esperava.
É assim, amigo. Tenho boa memória. Fui para o hotel e daí para o Estádio das Antas, para ver o Porto-Penafiel [3-1, com golos de Semedo, Gomes e João Pinto]. Nem imaginas aqueles adeptos todos a gritar o meu nome. Fiquei surpreendido e emocionado. Aí, conheci toda a gente. Houve logo química: o presidente Pinto da Costa, o médico, Lima Pereira, André, Frasco, Gomes, Futre, Eduardo Luís, Jaime Magalhães, João Pinto, Juary. Tudo gente cinco estrelas.

E Artur Jorge?
Também, também. Grande senhor do futebol.

Mas vocês tiveram os vossos problemas.
Sim, mas problemas com solução. Por muito bom que seja o espírito de uma equipa de futebol, e o Porto era como uma grande e feliz família, há sempre alguém às turras com alguém. Ou o presidente com o treinador ou o jogador com o treinador. São coisas que vão e vêm. E passam. Quando havia esses stresses, nada melhor que ir almoçar ou jantar.

Mas isso não se faz diariamente?
Não, digo almoçar ou jantar com a malta amiga. Nesses casos de stresse, organizávamos excursões à Póvoa de Varzim para comer e relaxar. O André era o líder espiritual desses convívios. Era também o mais divertido do plantel, sempre bem-disposto e a contar anedotas. Como o Lima Pereira, outro capitão dentro e fora do campo e sempre pronto a comandar as suas tropas [risos]. Como o Futre, jovem e irreverente como só ele sabia. Resumindo: se houvesse algum stresse comigo, eles resolver-me-iam a situação num abrir e fechar de olhos. Percebes?

Claro. E porquê Póvoa de Varzim?
Invenções do André [risos]. Ele é de lá. Amigo, havia lá um restaurante fantástico. Não me perguntes o nome que não me lembro.

Dentro do campo, como foi?
A estreia oficial foi no Restelo. Ganhámos 3-2 ao Belenenses e fiz duas assistências para o Gomes. Depois, recebemos o Sporting e vencemos 2-1. Até que veio o tal jogo que me desbloqueou, no Bessa. Foi 2-1 e marquei os dois golos, os da reviravolta [1-0 de Casaca]. Pronto, a partir daí, ninguém mais me agarrou.

Até à final da Taça dos Campeões.
E até Tóquio. Sabes que ainda hoje tenho aquele carro que me foi oferecido pela organização como melhor em campo.

Aquele Toyota.
Esse mesmo. Ganhei o carro, levei-o do Japão para Portugal e desde então nunca mais me desfiz dele. Está guardado na garagem da minha casa, em Vila Nova de Gaia. Tenho o mesmo carro há 28 anos e está como novo. Nunca me deu problemas. Nem um! As marcas japonesas são, de facto, do mais fiável que há. Mas isto é só com carros. Já viste o tempo que estava em Tóquio naquele dia? Tudo menos fiável. Na antevéspera, um solzinho entre as nuvens. Na véspera, nublado. No dia do jogo, nevava, nevava, nevava e não parava de nevar. Aquilo era impressionante. E eu que nunca tinha jogado na neve. Nem eu nem os outros.

Nesse jogo, o golo da vitória é teu.
Um grande chapéu quase do meio-campo. Foi o golo que mais prazer me deu, porque significou o título mundial. Mas não foi o mais bonito. Esse foi o de calcanhar.

O de Viena?
Não. A piada é essa. O melhor golo de calcanhar não foi esse, embora seja o mais falado em todo o mundo, porque foi numa final e com o poderoso Bayern. Hoje, se falarem de um golo à Madjer, todos sabem como é. Da mesma forma que ninguém esquece o slalom do Maradona com a Inglaterra em 1986 ou o penálti à Panenka em 1976. Mas a seguir à Taça dos Campeões, ganhámos 7-1 ao Belenenses [26 de Agosto de 1986, primeira jornada do campeonato nacional, nas estreias de Rui Barros pelo Porto e Marinho Peres como treinador belenenses], marquei três golos, o último deles de calcanhar, mais bonito que o de Viena. Sabes porquê?

Não.
Do cruzamento do Jaime Magalhães, recebi a bola com o pé esquerdo e dei com o calcanhar direito.

Bem sei, bem sei. Eu vi-o há poucos dias, na Internet.
A sério? Não pode ser. Onde?

No YouTube.
Espera aí, vou buscar papel e caneta para anotar o endereço [espera] Diz-me lá.

É só ir ao site do YouTube e escrever “fcporto belenenses 7-1”.
Mas isso é fantástico. Já ganhei o dia. Obrigado. Vou já rever esse golo. Tenho-o na memória. Agora vou copiá-lo para o computador. E posso mostrar aos meus amigos. Eles não acreditam que marquei esse golo.

De volta ao calcanhar de Viena, o que dizer?
Só me lembro do Artur Jorge agarrar-se a mim, já na hora dos festejos, e dizer ‘só tu para fazer aquilo, és louco.’

E eras?
Comparado com o Futre, nem por isso. [mais gargalhadas]

Como é que o Porto ganha essa final?
Preparámos o jogo para fazer uma primeira parte defensiva, em 4-5-1, só com o Futre lá na frente, como um vagabundo, e fomos ao ataque após o intervalo. Como estávamos sem os capitães Lima Pereira e Gomes, ambos lesionados, entrámos nervosos e consentimos aquele golo de um lançamento lateral. Na verdade, o Bayern era mais forte que nós. No papel, digo. Tinham experiência, categoria e tanto jogador bom, como Pfaff, Brehme, Matthäus e Höness. Daí que até achasse natural o presidente do Bayern já ter preparado um discurso de vitória. Acontece que nós éramos fortíssimos. A prová-lo, as três vitórias nos últimos três jogos de uma competição exigente como a Taça dos Campeões. Já viste bem isto: três em três. Diz-me uma equipa capaz disso nos tempos actuais. Não é muito comum. Normalmente, um Barça ou um Bayern ganha em casa, empata fora e depois levanta a taça. Nós, foi 2-1 em casa do Dínamo, que era a selecção da URSS, 2-1 em Kiev e 2-1 ao Bayern. Aqui, em Viena, havia tantos alemães como se o jogo fosse em Munique. Foi uma invasão maciça. E nós, com calma e tranquilidade, demos a volta. Histórico, lindo.

Com o título de campeão europeu e mundial, o Madjer quis sair?
A minha cabeça pediu um outro desafio. O Ajax de Cruijff interessou-se por mim, mas o negócio não se fez. O Bayern quis-me e fui até Munique. Fui recebido com pompa e circunstância e falei horas e horas com dirigentes antes de assinar por três épocas. Lembro-me muito bem de tudo, estávamos a 1 Junho 1988. Estava tudo bem encaminhado. De repente, lesionei-me e o Bayern perdeu o interesse em mim. Foi pena, o Bayern era um clube à minha medida.

Ainda houve o Inter?
Sim, sim. No verão de 1988, o Inter contratou-me por três épocas. Acho que foram cinco milhões de liras para o FC Porto. Fui para Milão, a imprensa recebeu-me no aeroporto de Linate e o Trapattoni disse que queria que eu fosse o maestro, numa equipa com os alemães Brehme e Matthäus [Klinsmann só chegaria na época seguinte], e fiz exames médicos. Aí, os médicos detetaram uma lesão e, pronto, voltei ao FC Porto. Mas o Inter foi sempre impecável e não errou em nada. Eu estava mesmo lesionado.

E depois?
Joguei meio ano com o Porto e marquei 11 golos no campeonato. Em janeiro, saí para o Valência, então treinado pelo genial Di Stéfano. Grande homem. Ele falava e todos se calavam. Em Espanha, reencontrei o Futre num jogo com o Atlético Madrid. Eu marquei, ele marcou. Acabou 4-3 para eles. E lesionei-me, outra vez, num jogo com o Murcia. Mais tempo de fora. Quando voltei aos relvados, voltei ao Porto. Eles nunca se esqueceram de mim.

Obrigado por esta viagem, Madjer.
Já está, amigo? Mas como, se ainda não te falei da minha última visita à Luz.

Uisch, desculpa. Desembucha.
Janeiro 1997, diz-te alguma coisa?

Não, ainda não.
Dia 29, um jogo entre a selecção da Europa e a de África.

É que não me lembro mesmo nada.
Eu puxo-te pela memória. Ganhámos 2-1.

E marcaste?
Marcar, eu? Já estava bem fora dos relvados [risos]. Era o selecionador dessa equipa. Foi um jogo contra o racismo, organizado pela UEFA e pela CAF, e o Benfica deu a casa pela importância do Eusébio. Como anfitrião, o Benfica meteu o Rui Costa na seleção europeia e o Paulão, de Angola, na nossa.

Qual era a equipa deles?
Os treinadores eram Michels e Vogts. No campo, Klinsmann, Van der Sar Boban, irmãos De Boer, Casiraghi, Nedved.

E vocês?
Kanu, West, Fish, Pelé, Oliseh, Hadji, Chiquinho Conde, Quinzinho, Babangida, Ouattara. Ganhámos 2-1.

Pois, já disseste. Quem marcou?
Pelé 1-0, Guérin 1-1 e Hadji 2-1. Foi uma festa bem bonita. O árbitro foi o Vítor Pereira, Ganhámos bem e foi um bom empurrão para a minha carreira de treinador.

Tens o curso?
Tenho o curso da vida, porque fui treinado por Artur Jorge, Ivic e Di Stéfano, só para citar os três mais conhecidos. E tenho também o curso de treinador, tirado em Clairefontaine (França).

E treinaste?
Só a seleção da Argélia, duas vezes. Só que cansei-me dessa vida. Há muitos interesses, muita desinformação e desisti. Prefiro ver futebol de outra forma.

Como quê?
Comentador. Por isso é que sei que há um clássico este domingo. Até te posso dizer que estou curioso para ver o André Silva a rematar à baliza do Ederson. Dois jovens com tanto talento.