“Pelos vistos, as coisas estão a andar devagar”, afirmou Dhlakama em declarações por telefone à Lusa, manifestando preocupação por as suas propostas e da mediação internacional permanecerem sem resposta, nomeadamente sobre a governação do maior partido de oposição em seis províncias: “A Renamo já respondeu a tudo aquilo. Tudo, tudo, tudo, e a Frelimo diz que está a analisar”.

Governo e Resistência Nacional Moçambicana (Renamo) deveriam ter voltado ao diálogo na presença dos mediadores internacionais na quinta-feira, depois de duas semanas de pausa, mas, em dia de feriado em Maputo, não foi dado a conhecer qualquer encontro. Dhlakama referiu que, no início das negociações, esperava ter um “acordo definitivo” até setembro ou outubro, mas há um mês, em declarações à Lusa, remeteu o prazo para o final de novembro.

Além da exigência do maior partido de oposição de governar nas seis províncias onde reivindica vitória eleitoral, o presidente da Renamo disse já ter entregado propostas à mediação sobre os outros assuntos de agenda, como a reestruturação das forças armadas e integração dos homens armados do seu partido.

“Já entregámos os mapas, onde os nossos estão, onde os da Frelimo [Frente de Libertação de Moçambique] estão sozinhos, para o equilíbrio das forças armadas, mas até agora não há resposta por parte do Governo da Frelimo”, declarou Dhlakama, que espera, do próximo ciclo negocial, “pressão” para que a contraparte “traga uma resposta positiva”.

O presidente da Renamo, que se presume encontrar-se desde o final do ano passado na serra da Gorongosa, centro do país, insistiu na exigência da governação em seis províncias do país e que os seus homens armados sejam integrados, ao abrigo do Acordo Geral de Paz, assinado em Roma, em 1992. “Não é desenterrar o Acordo de Roma, mas corrigir aquilo que foi violado”, sustentou, reiterando que o atual conflito “é originado pela falta de se cumprir com aquilo que se acordou” há 24 anos.

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As negociações de paz em Moçambique têm sido abaladas por denúncias cruzadas de raptos e homicídios de dirigentes das duas partes, de que se destacou o assassínio de Jeremias Pondeca, membro da delegação da Renamo na comissão mista e conselheiro de Estado, no início de outubro, em Maputo.

O crime não parou as conversações de paz, mas Dhlakama refere que os raptos e homicídios de membros do seu partido têm aumentado. “A Frelimo, nos últimos meses, dias, semanas, intensifica o rapto dos nossos quadros, em todas as províncias. Já não só é em Manica e Sofala, mesmo em Tete e Zambézia e Nampula”, acusou.

O presidente da Renamo descreveu que, em Nampula, são alvejados delegados distritais e das localidades, “uns a serem apanhados nas noites, amarrados e com lenços pretos, carregados para distâncias de cem a 150 quilómetros e depois apanhados os corpos sem vida”.

Para Dhlakama, são “coisas horríveis”, superiores ao que o colonialismo fez, “mais do que o terrorismo condenado internacionalmente” e ainda mais do que foi feito nas administrações anteriores da Frelimo.

“O que está a acontecer aqui, com esta administração de Nyusi, não sei onde apanhou, porque no tempo de Samora Machel, mesmo de Chissano e Guebuza – que tiveram os seus erros, do comunismo e tudo, má governação -, mas estas coisas de planificar e apanhar alguém, homens e mulheres, porque têm cartão da Renamo, isso é só na administração de Nyusi e não sabemos como quer terminar”, sustentou.

O centro e norte de Moçambique têm sido atingidos por instabilidade política e militar, motivada pela recusa da Renamo em aceitar os resultados das eleições gerais de 2014. Apesar da violência política, as partes mantêm conversações de paz em Maputo.