A eleição de António Guterres como o próximo secretário-geral da ONU foi “a única boa notícia de 2016”. Quem o disse foram os organizadores do Vision Europe Summit, conferência que decorre desde segunda até esta terça-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, que, quando escolheram os oradores do painel tiveram a “ousadia” de convidar o ex-Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados que viria depois a ser eleito sucessor de Ban Ki-moon. É preciso pensar alto, disseram. E assim foi, António Guterres não está “particularmente otimista com o atual cenário internacional”, mas talvez por isso aceitou participar no evento. É preciso “encontrar soluções concretas” para os problemas, disse.

O problema número um, disse, é a “dramática deterioração do sistema de proteção de refugiados”, que se tem verificado um pouco por todo o mundo devido à prevalência da “agenda da soberania nacional” sobre “a agenda dos direitos humanos”. Ou seja, enquanto não se pensar numa solução de larga escala, e enquanto as organizações comunitárias, como por exemplo a União Europeia, não conseguirem “assumir coletivamente as suas responsabilidades”, nenhum país individualmente conseguirá resolver o problema das migrações e da não-inclusão, ou má-inclusão, dos migrantes.

Isto porque, defendeu o ex-primeiro-ministro português perante um auditório composto por representantes de organizações e think tanks internacionais, as migrações são só são “inevitáveis” como são “necessárias” para garantir a sustentabilidade das sociedades. Mas é preciso que sejam bem geridas. Se não houver um “investimento político, cultural, económico, social por parte dos vários Estados, por parte dos municípios, das autoridades regionais e até da sociedade civil para conseguir que essas pessoas sintam que pertencem a uma comunidade, que não estão à margem, em guettos, então não iremos só perder referendos ou certas eleições, iremos perder os valores que temos de tolerância e a segurança global“, disse.

No final, e desencadeando um forte aplauso da audiência, Guterres viria a completar esta ideia com uma frase simples: “É melhor perder uma eleição sendo coerente com os valores e os princípios do que o contrário”.

Para António Guterres este é “provavelmente o mais dramático desafio que enfrentamos no mundo de hoje”, disse, referindo-se sempre de forma implícita ao Brexit e às eleições que, um pouco por todo o mundo, têm dado força aos partidos e aos políticos anti-sistema, como é o caso paradigmático da vitória de Donald Trump nas presidenciais norte-americanas. E numa tentativa de justificar o crescimento destes movimentos, António Guterres apontou aos defeitos e problemas que vieram associados à rápida globalização e ao progresso tecnológico e identificou como principal vítima não só os refugiados e os migrantes que veem cada vez mais fronteiras fechar-se à sua frente, mas também os jovens de todo o mundo que se veem sem possibilidades de trabalho.

“Quando vim para o governo de Portugal em 1995 havia um otimismo enorme de que a globalização e o progresso tecnológico podiam desenvolver a economia e trazer prosperidade e que isso iria incluir toda a agente – toda a gente ia beneficiar disso, a globalização iria ser a solução para os problemas. Claro que ajudou, o mundo mudou para melhor em muitos aspetos, mas muita gente ficou para trás”, disse. E continuou: “A globalização não foi tão bem sucedida como tínhamos pensado, muitas pessoas não ficaram contentes e acharam que muitos governos falharam. Por isso é que as forças anti-sistema tendem a ganhar eleições“, explicou, sublinhando que uma das principais “vítimas desta evolução das opiniões públicas foram os refugiados, porque criaram medos, inseguranças e tornaram-se ameaças paras muitas comunidades”.

Segundo o secretário-geral das Nações Unidas eleito, “não é sensato ignorar” esta sensação generalizada de medo. Mas é preciso lidar com ela através de respostas concretas. “Não seremos eficazes se não formos capazes, enquanto líderes políticos, líderes de organizações internacionais, da sociedade civil, de dar respostas concretas aos sentimentos de comunidades e populações”, sublinhou, defendendo que o caminho inevitável e necessário é o caminho rumo a sociedades “multiétnicas, multirreligiosas e multiculturais”. Mas a sociedades que protejam esta diversidade e que não a segreguem.