Génio sem reconhecimento. Espécie de anti-herói. O craque incompreendido, vá. Aquele a quem os adeptos raramente apontam qualidades, só defeitos e mais defeitos. Este aqui chama-se Rivaldo. Lembra-se? Rei sem coroa. Ganha tudo ao serviço da seleção brasileira, entre Taça das Confederações (1997), Copa América (1999) e Mundial (2002). Nos clubes, é um craque à escala planetária: América (Corinthians, Palmeiras), Europa (Deportivo, Barcelona, Milan, Olympiacos, AEK), Ásia (Bunyodkor) e África (Kabuscorp).

Acredite, Rivaldo dá água pela barba em qualquer situação. Em todos esses clubes, assina hat-tricks. Um feito inacreditável, de categoria ímpar. O homem é nota 10 da cabeça aos pés. Daí a Bola de Ouro em 1999, com 219 pontos, à frente de Beckham (154), Shevchenko (64), Batistuta (48) e Figo (38). Ahhh, a consagração mais-que-justa. Afinal, Rivaldo é rei com coroa. Ufffff, que alegria.

Em semana de consagração (o título de campeão brasileiro do Palmeiras está à distância de um empate em casa com o Chapecoense), é tempo de apanhar Rivaldo. É ele o herói do último título, em 1994. Exato, há 22 anos. É muito, muito tempo. Daí para cá, o mundo dá voltas e mais voltas. Só um exemplo: nessa altura, a internet em Portugal funciona com modems a 28 Kbps, via-linhas telefónicas. Outro exemplo: o campeonato brasileiro de então funciona como a NBA, à base de um play-off entre os oito primeiros. Na final, a duas mãos, Palmeiras e Corinthians. O Pacaembu, estádio municipal de São Paulo, recebe os dois jogos e acaba 4-2, com três golos de Rivaldo. Aí está o que é, Rivaldo é o maior. Da cabeça aos pés. E também com a boca. Ufff, que alegria.

Rivaldo, boa tarde.
Oi, tudo bom?

Falo de Portugal.
Terra de gente boa. Joguei com muita gente daí. Até perdi a conta de tanto portuga. O Simão, por exemplo, no Barcelona. O Figo, o Baía, o Couto, também no Barcelona. O Rui Costa no Milan. O Edinho no AEK. Gente boa demais, Grandes jantaradas, muito convívio, imensa amizade e uma série de títulos. [e ri-se]

E mais, e mais?
Não lembro de mais portugueses. Há um jogador que passou lá em Barcelona, depois aí em Portugal e conheci-o bem da conta. [e volta a rir-se; quer dizer, a respiração ao telefone indicia riso]

Quem?
O Saviola. Quando chegou a Barcelona, tomei conta dele quando o seu pai morreu. Coitado, foram tempos difíceis. Mereceu tudo de bom e gostei de o ver a arrasar no Benfica. Vem cá, e o Geraldo?

O irmão do Bruno Alves?
Esse aí. Pô, dava pau para caramba. É defeito de família, né? [e parte-se a rir] Conheci-os bem, gente fina. Muito fina mesmo. Manda um abraço para eles. E outro ao pai Washington. [mais um riso telefónico]

Esse riso é contagioso. Pare lá de rir, ó Rivaldo.
Só pode ser dessa forma. Caso contrário, não tinha graça viver.

Para chegar a jogador, o Rivaldo sofreu?
Muito. A minha infância não foi nada fácil. Éramos quatro irmãos e só o meu pai é que trabalhava [como porteiro do Santa Cruz, primeiro clube de Rivaldo]. Só que ele morreu, atropelado por um ônibus em 1989, no centro do Recife. Se já com ele na nossa casa, a gente passava dificuldades, imagina sem ele.

Duro?
Duro, muito duro. Duríssimo. Aos 14 anos, por exemplo, nunca tomava café da manhã [pequeno-almoço] e tinha os dentes podres. Na altura em que era juvenil do Santa Cruz, nem sequer tinha um real [moeda do Brasil] para pagar o bilhete de ônibus da minha casa para os treinos.

Como é que fazia então?
Ia a pé.

E isso era quanto em quilómetros?
Qua [a chamada faz um som estranho]

Quanto?
Quarenta.

Quarenta quilómetros?
Quarenta quilómetros.

[silêncio, não me ocorre nada]
Fazia quarenta quilómetros a pé, vinte para lá, vinte para cá, e as minhas pernas estavam bambas de tanto tremer. Chegava a casa e queria descansar muito.

Imagino.
Não imagina, não.

Pois, é verdade, não imagino. Quanto ganhava no Santa Cruz?
Recebi o meu primeiro salário em 1991: ganhava 170 reais. Depois, foi sempre a subir.

Imagino.
Não imagina, não.

Pois, é verdade, não imagino: do Santa Cruz para o Corinthians.
Aí não acreditaram muito em mim e cavei o meu rumo.

Palmeiras?
Isso mesmo.

Como foram as negociações? Quero dizer, ir do Corinthians para o Palmeiras nunca é pacífico [é como ir do Benfica para o Sporting].
Tranquilo, negociei eu.

O Rivaldo é que negociou?
Escuta: eu é que fiz o meu caminho. Eu é que negociava os meus contratos e decidia para onde ir. Nunca precisei de alguém para me dizer o que fazer, o que comer. Sempre fui independente. E sempre só fiquei no clube em que me valorizavam.

Como o Palmeiras?
Como o Palmeiras. O Vanderlei Luxemburgo valorizava-me. Tanto assim é que o meu coração é palmeirense. Isto é, sou grato ao Santa Cruz, o clube que me lançou, mas sou palmeirense.

Foi a rampa de lançamento para a Europa?
Sem dúvida. Era o salto mais que esperado. A Europa era a montra essencial para continuar a evoluir. Atenção, a evolução está associada a entrega, concentração, treino e profissionalismo. Não é chegar e dizer estou aqui. Sei que sou uma pessoa simples, mas nunca me faltou personalidade. Se os clubes europeus queriam-me, sabia que esperavam o máximo de mim e nunca me passou pela cabeça defraudar esse apoio. Por isso, sempre treinei e cuidei-me para chegar o mais longe possível. Nunca me deslumbrei. Nunca perdi o foco. Nunca perdi a noção de que jogava por mim e pela minha família. O objetivo de vencer na vida está sempre presente. Se ninguém apostasse em mim, azar. Continuava a trabalhar para que aparecesse um clube que acreditasse no meu valor. Isso aconteceu várias vezes na minha vida. Estava n o Deportivo e passei para o Barcelona. Estava no Milan e passei para o Cruzeiro. Estava no Cruzeiro e assinei pelo Bolton.

Bolton?
É, só que as coisas não deram certo e fui.

Para onde?
Olympiacos, Grécia.

E gostou?
Muito. Divertia-me a jogar, a marcar e a ganhar. Fui tricampeão. No primeiro ano, marquei o golo do título na última jornada.

E depois?
Saí do Olympiacos, porque o presidente do clube achava-me velho, e quis continuar na Grécia.

Onde?
AEK Atenas.

Ahhhhh, é de lá que conhece o Geraldo?
Éééé isso. E o Edinho. [mais risos].

Já me lembro do Rivaldo no AEK. Não é o Rivaldo que faz aquele gesto dos quatro dedos?
Pois é, depois de um 4-0 ao Olympiacos. Foi uma vitória sen-sa-cio-nal [[é ele quem divide silabaticamente a palavra]. No fim de contas, o campeão foi o Olympiacos com um ponto de avanço sobre o AEK, depois de o tribunal ter dado três pontos ao Olympiacos num jogo de início de época em que perderam e o adversário tinha um jogador mal inscrito. Uma equipa que nâo ganhou no campo nunca deveria ser coroada campeã.

Lembra-se da primeira vez que apareceu na televisão?
Claro. Aos 21 anos, quando marquei um golo do meio-campo pelo Mogi Mirim ao Noroeste, para o Paulistão. Vi o guarda-redes adiantado e tentei a minha sorte. Fui bem-sucedido e já estava na seleção brasileira um ano depois.

Na seleção, o Rivaldo ganha tudo menos os Jogos Olímpicos? [agora quem se ri sou eu]
Essa eu pego [e devolve o riso]. Pela minha personalidade tranquila, estive quase sempre longe da mídia [comunicação social]. No campo, era também muitas vezes vaiado. Nem sempre foi fácil lidar com essa pressão constante.

Lembro-me bem disso, o Rivaldo era um alvo fácil.
Iiiiiisso. Fui muitas vezes vaiado.

E a maior deceção, qual foi?
A dos Jogos Olímpicos em 1996.

Em Atlanta?
Nas meias-finais, perdemos 4-3 com a Nigéria e falhámos o ouro. Ao intervalo, estava 3-1. De repente, a Nigéria marca dois. Depois do jogo, o Zagallo [seleccionador] culpa-me pela perda de bola a meio-campo no lance do 3-3. No jogo seguinte, fui suplente com Portugal, para o 3.º e 4.º lugares. Ganhámos 5-0 e ficámos com o bronze. A gente sabe que isso não é o suficiente para o Brasil. Estive fora da seleção por um ano. Foi um castigo sem justificação, não? Digo isto porque o futebol é coletivo.

Pois claro.
Mas já passou. Até foi o Zagallo quem me recuperou, ao chamar-me para o Mundial-98.

Quase campeão aí.
Foi uma Copa boa em que chegámos à final. Com a França, não tivemos hipótese. Três-zero e está tudo dito. Não há desculpas.

E aquele episódio com o Ronaldo?
Eu lanchei com o Ronaldo e esteve tudo normal. De repente, ouço os gritos do Roberto Carlos, com quem o Ronaldo dividia o quarto, e fui dos primeiros a chegar ao pé deles. Vi as convulsões do Ronaldo e vi-o a sair para o hospital. No balneário, o Zagallo escala o Edmundo e todo o mundo sabe disso. Entretanto, o Ronaldo chega e joga.

Joga desorientado.
Perdemos 3-0, com dois golos de canto. Não jogámos muito. Nada, aliás. E a França fez o melhor jogo de toda a Copa. Simples. Errámos naqueles cantos. Deixámos o Zidane ganhar-nos. É tudo. Nada de conspiração nem de fantasmas. Perdemos porque eles foram melhores.

Em 2002, campeão do mundo com o Scolari.
A minha relação com o Scolari era de confiança cega. Só ele é que acreditou em mim antes dessa Copa. Disse-lhe que estava bem e que podia confiar em mim. E ele confiou ao levar-me para o Japão. Da mesma maneira que levou o Ronaldo.

Gosta tanto do Scolari que reencontrou-o no Usbequistão.
[lá vem o riso abafado] Até parece que não tinha aprendido a lição de 2002. Quando ele começava a gritar e a gesticular, era ver alguns jogadores uzbeques todos encolhidos, todos atrapalhados.

E o Rivaldo?
Já não [riso], já estava descontraído, mais que habituado. Além do mais, uns gritos sempre foram bons para mexer com a gente e isso é imprescindível no futebol. Aí, na selecção de Portugal, ele fez um belo trabalho.

No Uzbequistão, o Scolari é campeão sem derrotas e o Rivaldo é o melhor marcador do campeonato, certo?
Foi isso aí. Em Espanha, já tinha ficado perto de ser o ‘Pichichi’ mas o Raúl, do Real Madrid, ganhou-me duas vezes ao sprint. Ganhei naquele ano de 2009 e precisei de ajuda.

Então?
Já tinha parado nos 20 golos e o meu companheiro de equipa Soliev começou a marcar. Dos 14 para os 16, daí para17, depois 18. À falta de um jogo, liguei ao seleccionador do Uzbequistão e pedi-lhe
para convocar o Soliev. Assim foi e o Soliev não fez o último jogo. Foi a minha sorte [que barrigada de risos].

Para mim, o Rivaldo é aquela bicicleta ao Valencia no último suspiro.
Sério? Obrigado. Foi um jogo bem puxado e essa bicicleta garantiu o Barça na Liga dos Campeões.

Essa bicicleta foi fora da área, depois de parar a bola no peito.
Bem sei, bem sei.

Estou arrepiado só de ver a jogada na minha cabeça.
Foi um grande momento. Acredita que foi eleito o melhor golo de sempre pelos adeptos do Barcelona?

Acredito, claro.
Essa bicicleta foi o 3-2. Fiz três golo nessa noite.

Lembro-me como se fosse hoje.
Fiz mais hat-tricks na carreira.

Imagino. Diga lá outro.
Milan 3 Barcelona 3. Um dos golos foi um livre direto. Tínhamos visto vídeos e sabíamos que a barreira subia toda. Então, rematei rasteiro. Foi golo. Sabe uma coisa?

Não.
O hat-trick mais engraçado foi aquele por confirmar.

Então?
Digo um que não foi hat-trick por culpa do árbitro: Real Madrid 2 Barça 2. Já tinha marcado dois golos e o árbitro anula-me o 3-2 aos 90 minutos.

Xiiiiiiii. Obrigado Rivaldo (desligo a chamada e lembro-me do corta-luz no 2-0 do Ronaldo à Alemanha na final do Mundial-2002; aquele túnel é de Bola de Ouro)