Esta quinta-feira foi noite de debate televisivo entre François Fillon e Alain Juppé, os dois nomeados para a segunda volta das primárias do centro-direita francês, que este domingo escolhe o seu candidato às eleições presidenciais de maio. Fillon está a ser considerado o vencedor do debate, onde os dois antigos primeiros-ministros franceses discutiram temas sensíveis como o aborto ou o casamento homossexual, e discordaram sobre a forma de combater o elevado desemprego no país. Uma sondagem ao eleitorado de centro-direita mostra que 71% gostaram mais da prestação de François Fillon.

Segundo a imprensa francesa, o debate marcou o regresso da serenidade à campanha, depois de uma semana marcada por fortes trocas de acusações entre os candidatos — Fillon foi acusado de ser um “conservador medieval” por causa das suas posições em termos sociais, e o adversário foi apelidado de “Ali Juppé, candidato dos islamitas”, pelo seu apoio à diversidade cultural de França.

O início do debate foi, aliás, dedicado aos elogios mútuos e ao discurso conciliatório. “François, conhecemo-nos há muito tempo, entrámos juntos na política, você foi meu ministro e eu fui seu, e sabe que sempre tive por si amizade e estima”, começou Juppé, com Fillon a rematar: “O que quer que aconteça no domingo, vamos implementar juntos o projeto que a França escolher”.

As divergências surgiram quando Juppé e Fillon começaram a discutir propostas concretas, sobretudo com as ideias de Fillon para cortar meio milhão de empregos na função pública e acabar com as 35 horas semanais. “Não podemos pedir aos funcionários que trabalhem mais para receberem menos”, argumentou Juppé. François Fillon, por seu turno, defendeu o seu projeto, sublinhando que Juppé “não quer, na verdade, mudar as coisas”.

Aborto e Putin

Também a questão do aborto, que tem marcado a campanha, voltou a aparecer no debate. Fillon, assumidamente católico, quer rever as leis francesas sobre o assunto, o que lhe tem valido um conjunto de acusações de Juppé, especialmente a de ser um “conservador medieval”. Depois de ter acusado Fillon de “não ser claro sobre o assunto”, Juppé voltou à carga neste debate, garantindo ao adversário que “a sua consciência o está a vigiar”. Além disso, Juppé garantiu que o aborto é, para si, um direito fundamental, pelo que não irá fazer nenhuma alteração legislativa nesta matéria.

Durante as cerca de duas horas de debate, a maioria das acusações partiram de Alain Juppé, forçando sempre Fillon a defender-se. Quando Juppé acusou o adversário de estar a ser apoiado pela extrema-direita, Fillon respondeu: “Há três pessoas da extrema-direita que me apoiam, mas também há trezentos do centro que decidiram apoiar-me”. Juppé atacou ainda com a ligação de Fillon a Vladimir Putin, depois de o presidente russo ter considerado Fillon “um negociador duro e um homem decente”. “É a primeira vez que, numa decisão política francesa, o presidente russo escolhe um candidato”, atirou Juppé.

Este debate acabou por levar a uma questão sobre a própria identidade do país, com Fillon a defender que “a França não é uma nação multicultural”. “Quando vamos a casa de alguém, por cortesia, não assumimos o controlo”, acrescentou. Juppé contrariou esta ideia, sublinhando a importância da diversidade cultural em França e apelando à união entre as diferentes culturas que habitam no país.