Ricardo Araújo Pereira disse, a dada altura da última campanha das legislativas, que o cenário macroeconómico do PS tinha saído de uma bimby. Mário Centeno, o coordenador desse cenário, registou a piada e dias depois, num encontro privado com jornalistas para explicar o seu plano económico, apresentou o homem que estava ao seu lado como “o homem da bimby”. Era Ricardo Mourinho Félix, o seu braço direito, que trazia — pelo menos no apelido e no sangue — uma promessa de conhecimentos táticos de referência, ainda que até aí mais eficazes noutro terreno, o de jogo. É primo direito do treinador de futebol José Mourinho e tem estado também ele, à sua dimensão, na origem de algumas das polémicas que surgiram no caso mais crítico para este Governo até ao momento: a Caixa Geral de Depósitos.

O assunto tem dominado a agenda política nos últimos meses e quase sempre com o nome de Ricardo Mourinho Félix a surgir em algum ponto da polémica. Centeno apresentou-o como o “homem bimby”, por ter sido ele que ia testando, no seu Excel de dados económicos e das contas públicas, cada uma das medidas do cenário macroeconómico do PS.

Desse trabalho de 12 economistas, coordenados por Mário Centeno, Mourinho Félix passou para as reuniões técnicas pré-geringonça, sempre ao lado do seu amigo do Banco de Portugal, e futuro ministro das Finanças, com a mesma incumbência: testar no famoso Excel a capacidade de acolhimento das medidas trazidas pela esquerda para a mesa de negociações onde estavam a ser cozinhados os acordos políticos com o PS. Continuou ao lado de Centeno no Ministério das Finanças, como seu secretário de Estado Adjunto, e assumiu posição de destaque na questão da Caixa. Algumas das suas declarações provocaram um impacto na polémica semelhante ao efeito do modo turbo do famoso robot de cozinha.

Nem só de Caixa se tem feito esta história de declarações em falso, mas recordemos começando por todos os casos em volta do banco público que envolveram Mourinho Félix:

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  1. Mourinho vs. PR e não só. O Governo alterou a lei para permitir que a nova equipa de gestão da Caixa (que entrou no último mês de agosto) não estivesse sujeita ao Estatuto do Gestor Público e, por isso mesmo, a limites salariais que dissuadiam a contratação dos dos melhores no mercado. Era o argumento principal do Executivo. Os nomes foram submetidos ao crivo do Banco Central Europeu, que chumbou oito administradores não executivos (da equipa de 19 nomes) por excederem o limite do “número de funções desempenhadas em órgãos sociais de outras sociedades”, previsto no Regime Geral das Instituições de Crédito e das Sociedades Financeiras. Mourinho Félix apareceu de pronto a prometer uma nova lei à medida de uma necessidade imediata, desta vez para contornar os chumbos. “Vamos alinhar o Regime Geral das Instituições de Crédito e Sociedades Financeiras com a diretiva [europeia] e isso resolve grande parte do problema”. Mas a declaração caiu mal entre a esquerda. Pior do que isso, terá caído mal em Belém e isso mesmo foi noticiado pela SIC, logo em agosto: Marcelo discordava da ideia de mudar a leia bancária para salvar os administradores chumbados. Para o caso de alguém não ter percebido, Marcelo assumiu-o publicamente: “A meu ver seria uma má notícia se se tivesse de fazer a correr um diploma legal, com fotografia, a pensar num número limitado de potenciais administradores, tratando do problema sensível das acumulações, já depois do facto consumado. (…) Não é assim que se fazem leis e o Governo percebeu isso e muito bem”. Percebeu tanto que recuou. As declarações e ideia de Mourinho foram enterradas.
  2. Mourinho vs. Costa, Marcelo e Constitucional. Entretanto, já em outubro, estalou nova polémica, relativa à falta da entrega de declarações de rendimentos e património, por parte dos novos administradores da Caixa Geral de Depósitos, no Tribunal Constitucional. Uma obrigação para titulares de cargos políticos e altos cargos públicos que a equipa de António Domingues não seguira. “Sim, foi intencional, sabíamos que isto [o fim do escrutínio público dos rendimentos dos novos gestores da CGD] seria uma consequência da sua retirada do Estatuto do Gestor Público”, explicou ao Diário de Notícias Mourinho Félix, ainda que admitisse que se lhes fosse exigido, teriam de entregar. Mas também dizia tratar-se de “uma solução combinada” com a Direção Geral da Concorrência da Comissão Europeia para equiparar o banco público a um privado. “Não haverá acesso do público em geral às suas declarações de rendimentos. Será um processo entre o gestor e o regulador”, disse o secretário de Estado. Declarações que entrariam em rota de colisão com o próprio Governo que assumiu, pela voz do secretário de Estado dos Assuntos Parlamentares, que os gestores da Caixa tinham de entregar as declarações. E o Presidente da República. E o primeiro-ministro. E o próprio Tribunal Constitucional. Mais um passo atrás para Mourinho.
  3. Mourinho vs. emails escritos. Mas as declarações de Mourinho ainda haviam de gerar mais uma onda de choque. Deixavam clara uma combinação prévia para não se aplicar aquela obrigação específica — a entrega de declarações — aos novos gestores da Caixa. A notícia de um acordo escrito entre Domingues e o Governo começou por surgir nos jornais, mas depois o comentador e ex-dirigente do CDS António Lobo Xavier verbalizaria a questão na Quadratura do Círculo: estava escrito, sim. Mourinho Félix veio defender-se, mas sozinho: “Esse acordo não existe. Não assinei nenhum acordo. Nenhum acordo aludia a essa questão”.
  4. Mourinho vs. regras parlamentares. No Parlamento, esta sexta-feira, o secretário de Estado foi confrontado com toda a polémica e perante um deputado do PSD atirou: “Ou o deputado Leitão Amaro tem um profundo desconhecimento do RGIC [Regime Geral das Instituições de Crédito] ou uma disfuncionalidade cognitiva temporária“. A bancada do PSD rebentou numa pateada que interrompeu os trabalhos por uns minutos e quando Mourinho pediu a palavra teve de pedir desculpa pela expressão utilizada no plenário da Assembleia da República.
  5. Mourinho vs. Centeno? Ainda antes de todas as polémicas da Caixa, Mourinho Félix escreveu no Público três artigos de opinião sobre o Banif, imediatamente antes de ir à respetiva Comissão Parlamentar de Inquérito, o que começou logo por irritar os sociais-democratas que disso deram conta na audição com o secretário de Estado. Mas nesse dia aconteceria um novo episódio, a acabar num comunicado do Ministério das Finanças a esclarecer que não havia contradições entre Mourinho e Centeno sobre o Banif. Porquê? Porque na comissão de inquérito o secretário de Estado não foi claro em afastar a relação entre a venda de notas de dívida de médio prazo ao Santander (no valor de 1,8 mil milhões de euros) da medida de resolução do Banif (e a venda do banco ao Santander). Mário Centeno até já tinha sido claro nesta separação de águas. A oposição aproveitou imediatamente a nebulosa e as Finanças acabaram por ter de esclarecer o que dissera Mourinho: “Não foi contrapartida”. “Não existe qualquer contradição entre os depoimentos do ministro das Finanças e do secretário de Estado Adjunto do Tesouro e das Finanças na CPI [comissão parlamentar de inquérito] à venda e resolução do Banif”.

A proximidade com Mário Centeno nasceu no Banco de Portugal. Nos últimos tempos, Mourinho estava mesmo na equipa dirigida pelo agora ministro: o Departamento de Estudos do Banco de Portugal. Há um ano, ao jornal i, Mourinho Félix explicou como chegou à equipa que preparou o modelo económico em que o PS de Costa assentaria o seu programa eleitoral: “Mário Centeno convidou-me para a equipa técnica porque precisava de alguém que calculasse os impactos que as alterações ao programa teriam no quadro macroeconómico”. Lá esteve então, sempre de Excel aberto no computador, em todas as reuniões. No PS, é visto como o “homem que estuda tudo para Centeno”. É um técnico de créditos reconhecidos, “uma espécie de sobredotado”, descreve um deputado socialista. Tem “uma imensa auto-confiança”. Afinal, é um Mourinho.

Na comparação que faz com o seu próprio primo do futebol, o primo das Finanças reconheceu ao i uma semelhança: “Ele também tem ciência, analisa dados e resultados e alia isso à comunicação, que é o que falta aos economistas, a capacidade de explicar”. Mas ao Diário Económico, também pela mesma altura, o special one não ia em paralelismos e afastava-se do Mourinho de Centeno: “Somos primos, mas isso não significa que sejamos muito íntimos ou que compartilhemos ideais políticas”.

O olheiro deste Mourinho das Finanças foi o ex-ministro das Finanças Vítor Gaspar, que quando estava no Banco de Portugal o acolheu, como estagiário, no departamento que chefiava. Foi em 1996, mas no final do estágio, Gaspar teve de o dispensar, chamado-o dois anos depois para o grupo de Modelos e Previsão do banco central. Mourinho Félix também já se tinha cruzado com o agora colega secretário de Estado Pedro Nuno Santos, no ISEG. Mas Mourinho é um pouco mais velho, tem 42 anos, e tem bem menos experiência política do que o coordenador na geringonça.

Ainda assim, não é nenhum outsider. Milita no PS desde os 18 anos e já tinha sido deputado municipal em Setúbal — a terra dos Mourinho — por onde foi eleito deputado há um ano. Não aqueceu o lugar na Assembleia da República, sendo logo chamado por Centeno para a sua equipa onde mantém um lugar de grande influência sobre o ministro das Finanças. Tanto assim é que está por dentro de todos os grandes dossiês que passam pelo Ministério. Por isso mesmo é, não raras vezes, uma das vozes que mais se ouve no Ministério. Será esta experiência política trituradora para este special one de Centeno? É que a Bimby também tritura…