Aos 19 anos, Alcides Gonçalves, filho mais do novo do músico cabo-verdiano Bana, é diagnosticado com uma doença rara no cérebro, neurofibratose. O azar bateu à porta cedo e, por causa dos tumores que a doença desenvolve, Alcides foi progressivamente perdendo a audição. Em 1996, com 27 anos, grava Pensamento, um álbum que rapidamente atinge um estatuto de culto e que é considerado por muitos como um dos mais importantes da música de Cabo Verde. Na altura nunca chegou a ser apresentado ao vivo, contudo teve um grande impacto e desapareceu rapidamente das lojas. A história poderia ter ficado por aqui e o mito em volta de Pensamento ter continuado a crescer sem que fosse escutado mas falado. Alcides quis mudar essa história.

No final do ano passado começou um crowdfunding para reeditar o seu único registo. O objectivo foi atingido e Pensamento ressurge em 2016 como “Alcides”, que é celebrado este sábado no Pequeno Auditório do CCB pelas 21h, com uma série de convidados que irão participar neste momento único com Alcides: Ana Firmino, Celina Pereira, Dany Silva, Dead Combo, Dino D’Santiago, Lucibela, Luiz Caracol, Maria Alice, Mário Marta, Rui Veloso, Sara Tavares, Tito Paris, entre outros.

É um gesto de sobrevivência, um de muitos pelo qual Alcides passou. A doença, a gravação do álbum, quando já tinha pouca audição, o estatuto que Pensamento conquistou ao longo de duas décadas, a reedição e a coragem para agora apresentá-lo ao vivo num registo de festa, um encontro de amigos para interpretar e apresentar aquilo que quis deixar neste mundo, onze temas que escolheu criteriosamente com o intuito de mostrar a riqueza da música cabo-verdiana.

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Pensamento era um álbum que tinha de acontecer. Alcides tinha o bichinho da música, de criar, de dar a conhecer. Apesar de não gostar de falar muito do seu pai, é incontornável a importância que isso teve na sua vida. Alcides encontrou na música uma forma de resistir à doença. Após abandonar os estudos aos vinte anos, por causa dos problemas de audição, entrou no mundo do espectáculo. Tornou-se programador de alguns bares do Bairro Alto e alguns anos depois assumiu as mesmas funções no clube B.Leza. É provável que já se tenha cruzado com Alcides desconhecendo a dimensão daquilo que registou em 1996. E é admirável que, face às suas limitações, tenha desenvolvido um papel tão importante para a divulgação da música do seu país em Lisboa. E para o mundo.

Ser programador permitiu-lhe criar ligações mais profundas com músicos e arranjar coragem para gravar e partilhar a sua visão muito pessoal do universo da música cabo-verdiana. Pensamento juntou uma série de músicos que eram exemplares a tocar o seu instrumento de eleição: Armando Tito na viola, Cau Paris na bateria e Nandinho no saxofone e saxofone soprano. Alcides contou com a ajuda do seu grande amigo Paulino Vieira, que produziu o disco e tocou todos os outros instrumentos que se ouvem: piano, baixo, harmónica, violino, viola, viola de doze cordas, cavaquinho e bateria.

Alcides conseguiu assim concretizar o seu sonho e apresentar ao mundo a sua interpretação de canções que falam da sua terra, a qual abandonou aos quatro anos para viver em Lisboa com a sua família. Em 2016, vinte anos depois, Alcides continua esse sonho, com a reedição do álbum, que agora pode ser adquirido fisicamente e digitalmente no site que montou, e hoje pode celebrá-lo como tem de ser feito, com amigos, em família, num concerto único e imperdível.

O espectáculo “Alcides” acontece este sábado no CCB às 21h; bilhetes a 15 euros.