O saco da tenda não fecha mas José Abreu insiste. Ao lado, tem cobertores, sacos-cama, mantas felpudas e lancheiras. “Trouxe uma mala extra com roupa quente que nem foi necessária”, diz, junto à porta do Meo Arena. Acordou às 8h da manhã de sexta, apanhou o autocarro no Porto e veio para Lisboa. Não é fã do Justin Bieber mas a filha Regina casava com ele, se pudesse.

A jovem de 15 anos chegou dois dias antes do concerto para garantir um bom lugar. “Ele é a minha vida. Estou a começar a ficar nervosa”, afirma Regina com as bochechas marcadas a preto com as iniciais JB. Nem a chuva, nem o frio ou os ténis encharcados a demoveram. “Ontem à noite [quinta] foi uma desgraça. Comecei a chorar. Mas depois pensei nele [Justin, claro] e ficou tudo bem”, afirma ao Observador.

Passaram-se três anos desde a primeira vez que Bieber subiu ao palco do mesmo Meo Arena para o primeiro concerto em Portugal. Regina estava lá. José e a mulher também, obrigados pela filha. Mas na noite de sexta seria diferente. “Vou ali ao shopping dar uma volta enquanto espero por ela”, explica o pai-assistente de 47 anos. Como o José, não faltam outros familiares mochileiros nas imediações da sala de espectáculos. Há até avós que “fazem isto pelos netos”.

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Ana Paula, de 60 anos, passou os últimos três dias acampada para fazer companhia à neta, uma Bieber lover. “Conheço as músicas e só não vou ao concerto porque ela [a neta] não me comprou o bilhete”, reclama a avó de Mem Martins que fez turnos para a neta ir secar os ténis aos aquecedores da casa de banho do Centro Comercial Vasco da Gama.

Joana Galego tem 14 anos e há três anos que se considera uma fã “a sério” do músico. O Justin Bieber está em todo o lado na sua vida. “O meu quarto é decorado em função dele. Tenho capas de edredons, almofadas, quadros, fotografias, posters”, diz-nos: “Gostava de lhe agradecer o que ele fez por mim. Ajudou-me a ultrapassar momentos muito complicados”.

A pouco mais de duas horas da abertura de portas do Meo Arena, as filas estão repletas de jovens vestidas a rigor, com toda a pompa e circunstâncias para o reencontro com o seu ídolo. Não há merchandising em falta. Gorros, pulseiras, pins. Há T-shirts XL com a cara do cantor que são transformadas em crop top. Qual gripe, qual pneumonia. Por Bieber, vale tudo.

Volta e meia, ouvem-se gritos de histeria. Há uma pessoa a correr que, ao longe, parece Justin. “Mãe, o Luís Mariz está aqui”, exclama uma jovem ao telefone. Outras passam a correr de smartphone na mão, prontas para a selfie e já ligadas no instagram, snapchat e em direto para o facebook. Mas afinal quem é Luis Mariz? “É um youtuber brasileiro igual ao Justin”, explica ao Observador uma das jovens enquanto acalma a respiração. O delírio é tanto que decidimos abordar o jovem sósia do artista para perceber melhor o que se passa. Mas somos “barrados” por duas seguranças, diga-se miúdas com pouco mais de 14 anos, que pedem “não toquem nele”. A testa franzida assegura que ninguém quer mal a um dos fenómenos da internet com mais de 2 milhões de fãs no Instagram e um milhão no Youtube. “Sou muito fã dele e sigo-o para todo o lado”, explica Luís, brasileiro mas a viver no Porto.

No acesso à área VIP a cantiga é outra. Não há lixo no chão, sacos ou casacos. Está tudo impecavelmente maquilhado, como é o caso de Laura. Com uma make-up profissional, a jovem de 16 anos vem acompanhada do irmão de 21 para o concerto “da vida dela”. Pagaram 1700 euros pelo pacote “I’ll Show You VIP” para conseguir estar junto do palco, tirar uma fotografia com o cantor e ainda receber um autógrafo. “Mas o Bieber acabou por cancelar a meet and greet”, confidencia a jovem. Não faz mal. Laura não se importa de não ser reembolsada: “Até pagava mais para estar aqui.”

Ao lado, encontramos duas mães espanholas a acompanhar as filhas. Montse é de Vigo e veio de propósito com Alba, de 16 anos, para o concerto. Pagou 360 euros por cada bilhete do pacote VIP “Where are you now” há mais de um ano, que garante mais regalias que os outros. “Sou fã dele há sete anos. Nunca o vi ao vivo. Tinha que estar aqui”, conta-nos Alba.

O relógio marcava 18h30 quando os portões do Meo Arena abriram e o caos instalou-se. Os dias ao relento não tiraram forças a quem esperava para conseguir o melhor lugar, mais à frente, mais perto do ídolo. As cinco entradas só ficaram vazias cinco minutos antes das 20h e do warm up de Mic Lowry e dos The Knocks que ainda pegaram na bandeira de Portugal e tiraram selfies com o público.

Bem mais que um palco

Assim que os ecrãs começaram a mostrar as imagens de Bieber, os 18 mil que esgotavam a sala fizeram o que tinham a fazer: perderam a cabeça. Às 20h53 apagaram-se todas as luzes e todo o público estava de pé com o smartphone ligado . A “Purpose Tour” estava ali e Justin tinha chegado. Uma imagem de Bieber em forma de diamante e é o próprio que sai do interior de um cubo acrílico. Camisola preta, calções aos quadrados e “Mark my Words” como primeira canção. Mais pop era difícil.

Todos sabem a letra de cor, cantam e dançam. Há quem limpe as lágrimas sem perder o enquadramento da gravação do vídeo do instagram. Logo de seguida, é a vez de “Where are you Now”. O laser, as cores, o fumo e uma equipa de bailarinos mostram que esta digressão não é feita de concertos simples, quer dar espectáculo, show off. Ainda assim, as duas primeiras canções têm o leve sabor a playback. “Ele nunca canta a sério quando está a dançar”, explica uma fã esclarecida sentada mesmo ali ao lado. Pois que então está tudo bem.

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Regressa numa espécie de jaula com a “I’ll Show You” e é abafado pela audiência. Ao quarto tema é hora de trocar de roupa, desta vez mais casual. Umas skinny jeans castanhas e uma T-shirt três números acima do dele, com Bieber a vermelho estampado atrás. A primeira grande interação com os fãs chega por ali: “Posso tocar umas músicas na minha guitarra?”, pergunta. A resposta é mais ou menos a mesma que os Beatles recebiam quando davam concertos: parece um “sim” mas não se percebe muito bem. Para tornar aquela relação mais íntima, é colocado um sofá bordeaux a meio do palco, com um microfone e uma guitarra. Bieber começa com “Cold Water” e a sua voz é afogada pelos fãs. Ali perto há uma menina sentada, de garrafa de água na mão a fazer de micro e que sabe de cor a letra. Tudo parece fazer sentido.

Com mais de uma hora e meia de concerto, é altura de descer um segundo palco com cama elástica que prova que Bieber tem jeito para as atividades físicas. As acrobacias dos bailarinos mostram a preocupação com os pormenores. O cantor atira-se para o meio da cama elástica, levando, uma vez mais, ao delírio do público. Porque num concerto de Justin Bieber tudo tem mais estilo, no palco e não só.

Esqueçamos os cartazes. Aqui há balões gigantes com as iniciais do artista, arcos com orelhas de gata que piscam e néons para animar a noite. O intervalo do concerto surge a dez minutos das 22h e permite resolver problemas rápidos, da casa de banho ao cachorro quente, passando pela pulseira de Bieber, por uns 35 euros.

As 22h03 ouvem-se os primeiros arranjos, aqueles que dizem que vai começar tudo outra vez, a música e a corrida desenfreada. “As Long As You Love Me”, Children”, “Let Me Love You” ou “Life is Worth Living”. Tudo corre bem. Mas nota-se o cansaço de Justin, que passeia de um lado para o outro, sem grande interação. “Não está com o fôlego dele”, acusa Pedro de 22 anos que o vê ao vivo pela primeira vez. Peloo contrário, a namorada, Francisca, diz que “é tudo incrível”. Antes da despedida, é tempo para uma dedicatória: “Este palco é a minha casa e não há melhor do que estar em casa”, diz ao microfone.

Mas chegava a vez do sósia de Bieber, aquele youtuber brasileiro que encontrámos lá fora, tentar um abraço ao cantor no final de “Sorry”. Luis Mariz sobe ao palco e corre em direção ao artista. É barrado de imediato por dois seguranças. Bieber ficou parado, assistindo à cena. “A vida é feita de escolhas. Se você não tentar, você nunca saberá se consegue ou não. Eu sinto que esse abraço um dia vai sair!”, disse Mariz ao relatar o episódio no perfil no instagram.

https://www.instagram.com/p/BNQWhFtAM8K/?taken-by=luis_mariz&hl=en

Quase a bater as 23h, Justin Bieber disse adeus. “Achei-o cansado mas valeu a pena. Gosto mesmo dele”, diz Anaís, de 18 anos, que segue o cantor há seis anos. A amiga Vera também saiu satisfeita. Foi a primeira vez que o viu. “Foi perfeito”, descreve a jovem do Porto de 20 anos que chegou dois dias antes e acampou à porta do antigo Pavilhão Atlântico. “A entrada dele foi qualquer coisa”, acrescenta.

Sara e Iolanda de 19 anos estão contentes. “Foi brutal, foi como imaginei”, diz uma delas. Confessam que sentiram o ídolo cansado durante a atuação. “É a última tour. Esteve muito parado”, diz Sara. Eduardo e Bernardo conseguiram dois bilhetes à última hora e decidiram vir. “Gosto mais deste último álbum, é mais hip hop e queria ver o trabalho dele de perto”, diz Bernardo.

Do lado de fora, regressava a imagem dos pais, mães, tios e restantes padrinhos mochileiros. Lurdes e António passearam pelo Parque das Nações enquanto esperavam a filha e a amiga. Vieram de Braga e tiraram férias para cumprir o sonho da filha. “Há um ano que ela não fala de outra coisa. Parece o deus dela. Tínhamos que vir”, diz a mãe. “Agora só faltam uns 400 km para chegar a casa”.