Durou uma hora e meia, o mesmo que dura um jogo de futebol. O Governo vestiu a camisola, apertou as chuteiras e foi este sábado para o campo mostrar o trabalho que tem feito no primeiro ano de governação — e o que planeia vir a fazer. Os remates em forma de perguntas ficaram a cargo de uma plateia de 60 portugueses, vindos de todo o país, numa amostra representativa selecionada pelo Instituto de Ciências Sociais. António Costa era o treinador, capitão e defesa, respondendo ele próprio ou distribuindo jogo para os ministros das respetivas áreas. Foram cerca de 20 questões e, no fim, a equipa da casa saiu com espírito de vitória: apesar de um ou outro ressalto a ameaçar golo, a equipa de São Bento não teve grandes dificuldades. O discurso já vinha na ponta da língua.

A partida foi jogada na Reitoria da Universidade de Lisboa no dia em que o Governo fez um ano, ao estilo de um town hall ao estilo norte-americano. Mas houve quem tivesse ficado a maior parte dos 90 minutos no banco: Mário Centeno teve “uma tarde tranquila”, já que Costa raramente lhe passou a bola. Fê-lo apenas uma vez, já a sessão ia avançada, e deu-lhe, entre risos, um “voto de confiança”. Mais um. A pergunta, feita por Lara Ribeiro, de Almada, que se identificou como acionista do Banif, era sobre se iria poder recuperar o dinheiro que tinha investido naquele banco, que foi alvo de resolução e vendido ao espanhol Santander Totta. Começou por ser o primeiro-ministro a apanhar essa bola, com um redondo “não”.

“Como acionista, não [não vai recuperar dinheiro]. O sistema de resolução bancária protege os depositantes até determinado montante, mas os acionistas não. Os contribuintes não têm de pagar as dívidas dos bancos“, respondeu António Costa. “Os acionistas têm uma responsabilidade: se as empresas correm bem têm lucros, se correm mal é um prejuízo que têm de acumular”, explicou o chefe do Governo, defendendo que os acionistas “são responsáveis direta ou indiretamente” pela situação do banco e garantindo que não são os portugueses a pagar as dívidas dos bancos.

GOVERNO, PRIMEIRO MINISTRO, ANTONIO COSTA,

António Costa ia respondendo às perguntas durante 90 minutos ou passando a palavra aos ministros

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Depois destas fintas, passou a bola a Mário Centeno com uma acrobacia. “Oh senhor ministro das Finanças diga lá alguma coisa, que tem tido uma tarde muito tranquila. Aliás, tenho estado aqui algo surpreendido porque entre o que se lê na comunicação social e as perguntas que as pessoas fazem vai uma enorme diferença”, atirou, bem-disposto, referindo-se ao facto de o ministro das Finanças andar debaixo de fogo nas últimas semanas, não só por causa do Orçamento do Estado que está a ser discutido mas sobretudo por causa da polémica da Caixa Geral de Depósitos.

Quem eram os portugueses que entrevistaram Costa?

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A escolha do “focus group” foi feita pelo Instituto de Ciências Sociais. Foram 60 no total:

Eram 32 mulheres e 28 homens, divididos pelas classes sócio económicas D e E (25), C (16), B (13) e A (seis). Em termos etários, 14 pessoas tinham mais de 65 anos, 19 contavam idades entre os 45 e os 64 anos, 21 situavam-se dos 25 aos 44 anos e seis eram jovens dos 18 aos 24.

Quanto à geografia, 34% dos escolhidos habita em regiões do litoral, 12% no Grande Porto, 16% no interior do país, 26% na Grande Lisboa e, finalmente, 12% no sul.

Mário Centeno respondeu conforme tinha ensaiado, sem sair um minuto do registo: “É muito importante haver uma atuação muito reforçada, quer na regulação, quer na legislação que constrói as instituições do sistema. Apenas essa regulação e legislação podem trazer a confiança que, quer depositantes quer investidores e o conjunto da economia, têm para, usando o sistema, poderem investir, fazer transações e a economia ter um crescimento robusto e sustentado”. Reconheceu, porém, que “houve episódios menos felizes [na banca] porque a situação era, de facto, muito complicada”. Foi o caso do Banif. Sobre a Caixa Geral de Depósitos nem uma palavra.

Correu bem e voltou para o banco. Só esteve quase a voltar quando, perante uma pergunta sobre falta de auxiliares de ação educativa nas escolas, o primeiro-ministro hesitou sobre se seria o ministro da Educação ou o ministro das Finanças a responder. Teve de ser Tiago Brandão Rodrigues a entrar em vez do colega de equipa, mas com uma piada de gosto político duvidoso tendo em conta o que se passou nas últimas semanas: “A minha solidariedade dentro do Governo faz-me responder eu próprio e não passar a palavra ao Sr. Ministro das Finanças”, disse o responsável pela Educação, para não interromper a tranquilidade de Mário Centeno em dia de aniversário governamental.

A entrevista coletiva ao Governo foi tranquila e quase todos tocaram na bola pelo menos uma vez. Tiago Brandão Rodrigues e o ministro do Trabalho e Segurança Social, Vieira da Silva, foram os mais ativos, a seguir a António Costa, sendo que nem a ministra da Justiça, nem o ministro do Ambiente, Mar, Cultura ou o ministro-adjunto foram chamados a intervir. Segundo o Executivo, apesar de os interlocutores terem sido selecionados consoante critérios de diversidade geográfica, etária, etc, as perguntas não foram combinadas e o Governo não sabia que temas iriam ser abordados.

Eis alguns exemplos:

Transparência. Costa admite puxões de orelhas de Marcelo

A pergunta foi de Aldina Jesus, do Seixal: o que tem feito o Governo para tornar o sistema político mais transparente?

Desta vez, o primeiro-ministro tratou do assunto sozinho. Assumindo que esse é um dos “maiores desafios e responsabilidades que todos temos”, reconheceu a importância do Parlamento — onde há uma “fiscalização contínua” da ação do Governo –, mas também do Presidente da República, que tem elogiado bastante a estabilidade do atual executivo, mas que, segundo Costa, também sabe puxar as orelhas quando é preciso.

“O Presidente da República tem desempenhado corretamente seu papel, mas também de forma exigente. Às vezes, só aparece a parte em que as coisas correm bem ou em que estamos em convergência, mas, às vezes, tem chamado atenção do Governo, como lhe compete, e nós procuramos condicionar a nossa atividade nesse sentido”, disse o primeiro-ministro. E destacou a “normalidade” democrática que se tem vivido no último ano, sem chumbos do Tribunal Constitucional. António Costa lembrou ainda a este propósito o código de conduta que o Governo celebrou internamente a propósito da polémica sobre as viagens oferecidas pela Galp , e concluiu que a transparência é “a melhor forma de as pessoas terem mais confiança e nós nos sentirmos melhor”.

Para Costa, a única forma de combater a abstenção na urnas é “devolvendo a confiança aos portugueses”.

Ninguém gosta de estar na política quando do outro lado há a dúvida, ‘ele é serio ou não é serio?’ Quanto mais transparência existir mais reforço da confiança há”, disse.

Natalidade e abono de família. O ressalto e a ameaça de golo

Foi o primeiro (e único) ressalto da partida que apanhou o Governo desprevenido, quando Cristina, de Braga foi certeira: “Sou mãe, mas queria ter mais filhos e não consigo. Antes recebíamos abono de família mas agora nem isso. O que é que tencionam fazer para estimular a natalidade?”. António Costa começou por responder com a medida da distribuição gratuita dos manuais escolares para todas as crianças do primeiro ciclo e com o alargamento do abono de família aos três primeiros anos de vida da criança (antes era apenas ao primeiro ano). Mas Cristina não ficaria contente com a resposta e partiu para o contra-ataque. “Mas a classe média, que recebe pouco acima do ordenado mínimo, já não tem direito a receber abono. Quem recebe 600 ou 700 euros como eu, antes recebia 20 euros que fosse, e até isso me tiraram…”

Foi preciso Vieira da Silva sair em defesa do Governo. O ministro da Segurança Social explicou que o abono de família chega a mais de um milhão de crianças mas é preciso priorizar e dar àqueles que têm menos. “O que fizemos este ano foi dar nos 3 primeiros anos de vida, que são os anos mais dispendiosos. E o que faremos até final da legislatura é majorar ainda mais o apoio, sendo que até ao final da legislatura vamos gastar 120 milhões de euros nesta prestação”, disse. Para depois rematar: “Mas o que vai mudar a natalidade é as pessoas terem mais confiança”.

Descentralização. Uma prioridade à espera de “consenso político alargado”

O tema da descentralização também não passou indiferente e entrou no jogo a partir de um português de Vila Nova de Gaia. “Que competências vão ser transferidas para as autarquias?”. António Costa podia ter passado a palavra ao ministro-adjunto Eduardo Cabrita, que tem a pasta, mas agora estava num terreno que dominava e segurou ele próprio o tema.

“A descentralização é uma peça fundamental da reforma do Estado, porque mais competências e meios nas freguesias e municípios produzem mais resultados”, disse, anunciado depois um “pacote significativo de descentralização” que o Governo está a preparar para ser implementado logo a seguir as autárquicas, em outubro. “Estamos a trabalhar nas áreas da educação, saúde e ação social”, afirmou, lembrando que não ficará por aqui, havendo também a necessidade de dar novas competências, ou competências reforçadas, às áreas metropolitanas.

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No final da entrevista ao estilo “town hall”, o Governo posou para a fotografia de família

Mas para isso Costa espera que “haja um consenso político muito alargado” para se tomarem medidas “rapidamente”. No leque de propostas de alteração ao Orçamento do Estado, o PSD tem um conjunto de propostas dedicadas à descentralização, onde aposta precisamente nas três áreas referidas pelo primeiro-ministro: educação, saúde e ação social. As propostas vão ser discutidas e votadas na próxima segunda-feira no Parlamento.

Desemprego. Benefícios para contratar desempregados de longa duração

Vieira da Silva foi um dos ministros mais requisitados, tendo sido chamado quando a pergunta, vinda de Aveiras de Cima, incidiu sobre as medidas para readmitir e reintegrar os desempregados com mais de 40 anos no mercado de trabalho.

O ministro do Trabalho reconheceu que há um problema com a chamada “geração do meio”, que ainda não tem idade para se reformar mas que é considerada muito velha para passar nas entrevistas de emprego. Ciente do problema, o governante anunciou que vai introduzir “este ano, mecanismos de apoio às empresas que contratem pessoas nessas circunstancias, nomeadamente através de benefícios maiores em termos de segurança social”.

Pensões. Recuperar emprego e diversificar formas de financiamento é a solução

Outro problema levantado pela amostra de portugueses presente na sala da Reitoria da Universidade de Lisboa, foi a questão das pensões. “Como se assegura o direito às pensões para os cidadãos que não descontaram 40 anos para a Segurança Social?”

Primeiro, Vieira da Silva. O primeiro passo para resolver a questão da sustentabilidade do sistema de Segurança Social é resolver o problema do emprego. “Aumentar o direito às pensões é aumentar o direito ao emprego”, disse. A seguir, na dobra, regressou António Costa. A receita consegue-se “diversificando as formas de financiamento da Segurança Social”. E deu o exemplo do polémico novo imposto (adicional ao IMI) sobre o património imobiliário de valor superior a 600 mil euros que consta do Orçamento do Estado para 2017, e cuja receita vai reverter para o Fundo de Estabilização Financeira da Segurança Social, para contribuir para as pensões futuras.

Passados os 90 minutos, O Governo estava mais ou menos defendido das 20 perguntas. No fim da sessão, as duas equipas despediram-se, trocaram cumprimentos e até selfies. O primeiro-ministro foi o mais requisitado, mas também o ministro da Educação teve pedidos para fotografias. Agradecimentos feitos, e com a certeza de que a estabilidade governativa perdurará por mais um ano, António Costa deixou uma promessa: quando o Governo assinalar dois anos vai repetir a partida, mas noutra cidade, “noutra universidade de outro ponto do país”.

Para o ano há mais. Se o Governo persistir até lá.