Eunice Muñoz, que segunda-feira é homenageada, em Lisboa, pelos seus 75 anos de carreira, tem-se afirmado como uma atriz com a determinação de “fazer sempre melhor”.

“Não podia ser outra coisa, só podia ser atriz”, disse Eunice Muñoz à agência Lusa, quando da celebração dos 70 anos de carreira, em 2011, lembrando que apenas abandonou o teatro – o seu “grande amor” -, dos 23 aos 27 anos, depois de uma década nos palcos e do nascimento da primeira filha.

A atriz nasceu a 30 de julho de 1928, na Amareleja, no Baixo Alentejo, no seio de uma família de atores e, aos cinco anos, já realizava pequenos números musicais, na companhia teatral ambulante da família, a Troupe Carmo.

“Vendaval”, de Virgínia Vitorino, foi a peça com que se estreou profissionalmente, há 75 anos, no Teatro Nacional D. Maria II (TNDM), em Lisboa, quando tinha apenas 13 anos, na então Companhia Rey Colaço-Robles Monteiro, entrando pouco depois para o grupo histórico, que detinha a residência do teatro.

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Eunice Muñoz ingressou no Conservatório Nacional em 1942, de onde saiu com 17 anos, e uma média final de 18 valores.

Os grandes atores da época, como Raul de Carvalho ou João Villaret, reconheceram-lhe de imediato o talento, tal como Palmira Bastos com quem, em 1943, contracenou no Nacional, em “Riquezas da sua avó”.

Em outubro último, numa conferência de imprensa, em Lisboa, referiu-se a Palmira Bastos como a sua “grande mestra”.

No verão de 1944, interpretou a primeira opereta — “João Ratão” –, ao lado de Estêvão Amarante e foi dirigida por Maria Matos, em “A portuguesa”, de Carlos Vale.

A popularidade chegou quando, no Teatro Variedades, em 1945, fez parte do elenco de “Chuva de Filhos”, de Margaret Mayo, ao lado de Vasco Santana e de Mirita Casimiro.

A estreia no cinema aconteceu em 1946, em “Camões”, de Leitão de Barros, que lhe valeu o prémio de melhor atriz do ano, que que também entrou em “Um Homem do Ribatejo”, de Henrique de Campos.

Participou em cerca onze filmes. O mais recente data de 2008, “Entre os dedos”, de Tiago Guedes e Frederico Serra.

No final dos anos de 1940, continuou a trabalhar no teatro, em peças como “Outono em flor”, de Júlio Dantas (1948), e “Espada de Fogo”, de Carlos Selvagem, novamente com Palmira Bastos.

Em 1950 e 1951, fez parte do elenco das comédias “Ninotchka”, de Melchior Lengyel, ao lado de Igrejas Caeiro, e “A loja da esquina”, de Edward Percy, duas comédias celebrizadas no cinema por Ernst Lubitsch.

Eunice Muñoz fez então parte da Companhia de Teatro Gynásio, em Lisboa, dirigida por António Pedro, e passou ainda pelo Teatro da Trindade, antes de se retirar de cena, entre os 23 e os 27 anos, para regressar aos palcos em 1955, com “Joana d´Arc”, de Jean Anouilh, no Teatro Avenida, em Lisboa.

Em 1957, interpretou “A desaparecida”, de Pirandello, e, pouco depois, com Maria Lalande, Isabel de Castro, Ruy de Carvalho e Curado Ribeiro, entrou para o Teatro Nacional Popular, sob a direção de Francisco Ribeiro (Ribeirinho).

“Noite de Reis”, de Shakespeare, “Um serão nas laranjeiras”, de Júlio Dantas, “Pássaros de Asas Cortadas”, de Luiz Francisco Rebello, foram algumas das peças em que participou na companhia de Ribeirinho.

Na década de 1960, fez comédia na Companhia de Teatro Alegre, no Parque Mayer, em Lisboa, com António Silva e Henrique Santana.

Monumental e Variedades foram teatros da capital onde também representou, com atores como Virgílio Teixeira, Mimi Muñoz, sua mãe, e Laura Alves. Em 1963 partilhou com Laura Alves o prémio de melhor atriz, pelo seu papel em “O milagre de Ana Sullivan”, de William Gibson (1963).

Em 1965 fez parte da Companhia Portuguesa de Comediantes, fundada por Raul Solnado no recém-inaugurado Teatro Villaret, em Lisboa, onde entrou em “Verão e fumo”, de Tennessee Williams (1965), e “As Raposas”, de Lillian Hellman (1966), peças que lhe valeram prémios de Imprensa de Melhor Atriz, e a então revista Rádio e Televisão lhe atribuía o Prémio Popularidade.

Em 1970, estreou-se na encenação com “A Voz Humana”, de Jean Cocteau, uma das quatro peças que levou em digressão pelas ex-colónias portuguesas em África, com os atores José de Castro e Alberto Villar.

No regresso, em Lisboa, no Teatro S. Luiz, a poucas horas da estreia de “A mãe”, de Stanislaw Wiktiewicz, sob a direção de Luiz Francisco Rebello, a censura da ditadura proibiu o espetáculo.

Em 2011, em declarações à Lusa, Eunice Muñoz afirmou que se sentia uma atriz “profundamente roubada”, como a geração a que pertenceu, por causa da censura anterior ao 25 de Abril de 1974, pois houve peças proibidas que nunca pôde representar.

Nesse ano a atriz abriu as celebrações dos seus 70 anos de carreira com a peça “O Cerco a Leninegrado”, do espanhol José Sanchis Sinisterra, encenada por Celso Cleto, no auditório com o seu nome, em Oeiras, nos arredores de Lisboa.

Na televisão, aceitou o desafio de Nicolau Breyner e participou nas séries cómicas “Nicolau no país das maravilhas” e “Nico d’Obra”. Em 1933 protagonizou “A Banqueira do Povo”, de Walter Avancini, seguindo-se outras telenovelas, entre as quais “Todo o Tempo do Mundo”, “Porto dos Milagres”, “Olhos de Água”, “Sonhos Traídos”, “Olhos nos Olhos”, “Mar de Paixão”. Atualmente faz parte do elenco de “A Impostora”.

Eunice Munõz participou ainda na versão televisiva de “Equador”, romance de Miguel Sousa Tavares.

No ano passado recebeu o Prémio Carreira da Academia Portuguesa de Cinema e o TNDM produziu “74 Eunices – Homenagem a Eunice Muñoz”, a um ano da celebração dos seus 75 anos de carreira.

A Presidência da República distinguiu-a como Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada (1981), com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique (1991) e com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique (2011).