O discurso de Fidel alterou-se ao longo dos anos. Talvez não tanto no vigor. Esse, manteve-lo sempre, discursando longamente – afinal, é dele o discurso mais longo da história –, sem interrupções, em Cuba como nas Nações Unidas. Tornou-se, isso sim, mais politizado – se logo após a Revolução Cubana se dizia apartidário, na Perestroika defendia acerrimamente o marxismo-leninismo –, mais representado, nos gestos, nas expressões do rosto, nas pausas, na dicção, conferindo-lhe assim, conforme Fidel quisesse, mais entusiasmo ou mais dramatismo. Era magnético. Como só os políticos mais experientes o são. Como muitos (quase todos) ditadores o foram. Como líder que era.

Estes são, entre muitos, uma entrevista e cinco dos discursos mais emblemáticos de Fidel Castro, desde 1959 e logo após a Revolução Cubana, até 2016, quando em abril, visivelmente cansado e até em esforço, fez o último discurso público que se lhe escutou. E que ele próprio disse ser o último.

À CBS: “Não sou comunista” (1959)

Este não é um discurso, mas uma entrevista.

11 de janeiro de 1959. Fidel Castro tomara dias antes o poder em Cuba. Talvez temendo o apoio dos Estados Unidos a uma contra-revolução — que aconteceria em 1961 com a invasão da Baía dos Porcos –, Fidel viajou até ao país do (ainda) presidente Eisenhower (JFK chegaria à Casa Branca no final desse mês) e começou por explicar a Revolução Cubana aos norte-americanos. Fê-lo em inglês, no programa “Face the Nation”, da CBS.

Ponto prévio na entrevista: “Não sou comunista”, disse. Algo que Fidel reforçaria mais adiante. Quando questionado sobre se Cuba seria um estado de direito, Fidel respondeu prontamente que “sim”. O jornalista Suart Novins questionou-o então sobre as execuções sumárias que a imprensa denunciara. “Não sei precisar quantas são. Talvez duas ou três dezenas [de execuções]. Mas tratavam-se de ladrões”, atiraria Fidel Castro.

Curiosa é igualmente a troca de palavra entre Fidel e Suart Novins:

– “Tem medo [do comunismo]?” – questiona Fidel.
– “Eu sei que é advogado, mas agora vou eu ser juiz e peço-lhe que responda às minhas perguntas…” – respondeu prontamente o jornalista.

O (longo) discurso na ONU e as provocações aos EUA (1960)

É ainda hoje o discurso mais longo da história: quatro horas e 29 minutos.

“O” discurso de Fidel na Assembleia Geral da ONU precipitaria o embargo norte-americano a Cuba e terá sido a “fagulha” que restava para a invasão da Baía dos Porcos – a Brigada de Asalto 2506, composta por dissidentes cubanos, foi treinada pela própria CIA. O longo discurso teve um e o mesmo alvo: os Estados Unidos encarnados por John F. Kennedy. A propósito do presidente norte-americano, Fidel disse, sem peias: “Se Kennedy não fosse um milionário, iletrado e ignorante, obviamente compreenderia que não se pode fazer revoltas contra camponeses”. Fidel queria assim justificar perante os restantes países das Nações Unidas a Revolução Cubana.

Uma revolução que teve sangue e mortes, sim. Mas Fidel culpa o apoio dos Estados Unidos ao regime de Fulgencio Batista. E culpa as bombas usadas. “Ao senhor delegado dos Estados Unidos, digo-lhe que há mães nos campos de Cuba à espera das suas condolências. Foram as vossas bombas que assassinaram os filhos delas.” Depois, quatro horas e 29 minutos depois, arrumou as centenas de papéis de volta na pasta, colocou-a de baixo do braço, e voltou à sua cadeira, caminhando como quem marcha, então de fato e gravata e não na habitual farda verde.

A despedida de Che a Cuba, de puño y letra (1967)

Ernesto Guevara de la Serna seria assassinado na Bolívia a 9 de outubro de 1967. Antes, estivera no Congo. “Outras guerras no mundo reclamam o concurso dos meus modestos esforços”, escreveu Che.

Che escreveu a Fidel Castro, explicando assim o abandono dos cargos que ocupava no regime após a Revolução Cubana. A carta leu-a Fidel – e garantiu que se “explica em si mesma” – poucos meses antes da morte de Che. Ainda tinha o seu “puño y letra”. E começava: “Fidel, recordo-me de muitas coisas nesta hora, de quanto te conheci em da Maria Antónia e me convidaste para a revolução.”

Che não se arrependera de nada. “Numa revolução ou se triunfa ou se morre – se for verdadeira. Sinto que cumpri a parte do meu dever na revolução e despeço-me de ti, dos camaradas e do povo – que é já o meu. Vivi dias magníficos e senti a teu lado o orgulho de pertencer a este povo. Poucas vezes brilhou mais alto um estadista [Fidel] do que nestes dias. Identifico-me com a tua maneira de pensar”, termina.

Angola, “os imperialistas” e Fidel (1975)

Após o 25 de Abril, Angola entrou em Guerra Civil em Angola. O país, pela sua riqueza natural e, sobretudo, pelo seu posicionamento geoestratégico durante a Guerra Fria, seria disputado (politicamente e nos “bastidores”) por Estados Unidos e URSS. Naquela que ficou conhecida como “Operação Carlota”, Fidel enviou mais de 25 mil soldados cubanos para Luanda, de forma a apoiar o MPLA – à época, a UNITA era apoiada pela África do Sul (do Apartheid) e a Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) pelo Zaire.

Neste discurso de 1975, Fidel explica o interesse dos “imperialistas” por Angola e o seu próprio interesse no país: “Alguns imperialistas perguntam-se que interesse temos nós. Eles acham que quando um país faz algo é porque quer petróleo, cobre, diamantes ou algum recurso natural. Eles são chauvinistas e não entendem. É nosso dever ajudar o povo de Angola. Os imperialistas querem apoderar-se de Angola por causa do petróleo de Cabinda.”

A Perestroika que não chegou a Cuba (1989-1991)

Fidel nunca aceitou a desagregação do Bloco de Leste. E Perestroika era palavra non grata em Cuba e nos discursos do líder. Quanto tudo acontecia na Europa e na URSS, lá longe, em Cuba, Fidel contrapunha o “aperfeiçoamento” do socialismo. E questionava: “Mas, por acaso, é abandonando os princípios mais elementares do marxismo-leninismo que se pode aperfeiçoar o socialismo? Porque é que as reformas têm que marchar num sentido capitalista? Vejam o apoio unânime e exaltado dos dirigentes do imperialismo a essas reformas. Cuba resistirá!”

O último discurso de Fidel (2016)

20 de abril de 2016. Perto de completar 90 anos (em agosto), Fidel Castro voltaria a discursar após anos de ausência, sobretudo desde que abdicara do poder para o irmão Raul. Fê-lo pela última vez no encerramento do Sétimo Congresso do Partido Comunista de Cuba, em Havana. E admitia que podia ser o adeus. “Talvez esta seja uma das últimas vezes que falo nesta sala”, começou por dizer, agradecendo depois a Raul Castro o “magnífico esforço” à frente do regime. E continuou: “Estou quase a completar 90 anos. Nunca teria imaginado isto. Não foi fruto de um empenho; foi um capricho do destino. Serei como todos os outros.: essa hora [morte] chegará para todos nós.” Chegou este sábado, 26 de novembro.