É cada vez mais comum alguém entrar numa consulta médica com um diagnóstico sobre o problema ou a doença que o está a afetar. Quem o diz são os próprios médicos e outros especialistas na área da Saúde, que salientam que graças às novas tecnologias esses diagnósticos estão, muitas vezes, corretos. Esta foi uma das ideias mais surpreendentes que saíram do Congresso Internacional Leaping Forward da Rede Hospital da Luz.

Com esta nova realidade, os profissionais de Saúde acreditam que o doente do futuro será muito mais informado e serão mais os casos em que é possível ter consultas através dos smartphones, dispensando as horas de espera nas urgências.

Um doente mais informado e mais pró-ativo

“Ainda há muito trabalho a fazer mas, de facto, o paciente do futuro já se encontra entre nós”, disse João Sequeira Carlos, Coordenador de medicina geral e familiar no Hospital da Luz de Lisboa, abrindo o debate sobre “o doente do futuro”.

O doente do futuro será alguém mais informado sobre temas que, antigamente, apenas os médicos dominavam. Esta realidade já se encontra nos dias que correm, com as pessoas a recorrerem à Internet para pesquisarem os sintomas e até mesmo possíveis tratamentos para os problemas de saúde.

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As novas tecnologias têm, também, cada vez mais importância na escolha dos prestadores de saúde. No debate sobre o doente do futuro foi apresentado um serviço (com aplicação para smartphone) que dá uma ajuda quando o paciente precisa de encontrar um médico, o Doctify.

O Doctify é um serviço britânico que disponibiliza uma lista de médicos, de diversas especialidades, onde o paciente pode ver as avaliações feitas por outros, obter informação sobre os horários de atendimento e reservar diretamente uma consulta com o especialista. A plataforma – que ainda não está disponível em Portugal – permite que, se o paciente entrar em contacto com um médico que não seja o mais indicado para a situação, este possa sugerir outro colega que esteja inscrito na plataforma de uma maneira simples e direta.

“A ideia é mostrar mais informação ao paciente”, afirma Suman Saha, diretor executivo do Doctify, acrescentando que “existe um triângulo de informação: a opinião de um cliente, a sugestão de outros médicos e a informação geral”.

Suman Saha, diretor executivo da Doctify, apresenta a aplicação e fala da influência tecnológica na saúde.

Suman Saha, diretor executivo da Doctify, apresenta a aplicação e fala da influência tecnológica na saúde. (FOTO: Luz Saúde)

E não há o risco de o paciente ser levado ao engano? A dúvida foi colocada por um dos médicos da plateia. Suman Saha explica que existe um processo de seleção antes de os dados serem tornados públicos. Além disso, se um médico tiver demasiadas críticas negativas, o profissional será removido da plataforma.

Noutra apresentação, Anthony Langham, investigador médico da Babylon, demonstrou como utiliza o smartphone em várias atividades diárias. Encomenda comida, chama um Uber, fala com a mulher e até marca viagens. O problema surge quando chegou a altura de marcar uma consulta médica: tinha de ser por chamada e era necessário ficar em fila de espera “por uns 15 minutos, ou mais!” diz Langham, “eu marquei uma viagem em menos de um minuto mas para marcar uma consulta preciso de mais de 15 minutos, e só tinha consulta duas semanas depois”.

A partir deste problema surgiu a ideia que levou à criação do serviço Babylon, uma maneira de facilitar as consultas permitindo ao paciente conversar diretamente com um médico e até realizar uma chamada de vídeo com ele.

A triagem nesta aplicação é realizada por uma enfermeira virtual que, através do uso da inteligência artificial, realiza uma primeira análise ao paciente para identificar o problema e decidir se é, ou não, preciso ser reencaminhado para um médico.

O doente do futuro é, também, um doente que transporta consigo vários dispositivos capazes de registar a atividade diária, seja o smartphone ou um dispositivo wearable (que registam os passos, o exercício físico, o sono, etc.). Para Nuno Godinho, diretor-geral de software da GE Healthcare Europa, é importante que as pessoas comecem a partilhar esses dados com as unidades de saúde para que o atendimento, no futuro, possa ser cada vez mais personalizado.

Outra característica do doente do futuro é que este poderá ter mais vontade em ser parte ativa na doença que o afeta. E é aí que entra o Patient Innovation, apresentado por Pedro Oliveira, diretor e investigador principal da iniciativa, e que foi abordado pelo Observador neste texto.

O Patient Innovation é uma iniciativa da Católica Lisbon School of Business & Economics que incentiva pacientes, cuidadores ou colaboradores a desenvolver soluções que possam ajudar a melhorar a qualidade de vida de quem lida com as mesmas doenças ou condições físicas que eles.

“São as pessoas que vivem os problemas que realmente compreendem as dificuldades e podem criar novas soluções”, afirmou o investigador, adiantando ainda que está a tentar desenvolver uma incubadora para startups que apostem no setor da saúde.

Pedro Oliveira, diretor e investigador do Patient Innovation, a demonstrar algumas das inovações do projeto.

Pedro Oliveira, diretor e investigador do Patient Innovation, a demonstrar algumas das inovações do projeto.

Depois de se falar sobre o doente do futuro, houve ainda tempo para pensar sobre qual será o papel do médico de família. A conclusão a que chegaram os especialistas convidados para este evento foi que, no futuro, o papel do médico de família não vai sofrer alterações profundas. Anthony Langham, que também é médico de família, não está preocupado com a hipótese remota de ser substituído por um sistema de inteligência artificial.

Apesar de este tipo de sistemas poder ser um benefício para o futuro, conseguindo providenciar um melhor atendimento e uma melhor gestão de pacientes, nenhum dos presentes acredita que possa substituir inteiramente o trabalho do médico de família. Ainda que a tecnologia possa envolver-se mais na saúde, vão continuar a existir inúmeros casos que necessitam de um médico físico para identificar o problema.