Veloso (Benfica-PSV 1988), Gomes (Nápoles-Sporting 1989), Pedro Emanuel (Porto-Once Caldas 2004), Ricardo, com e sem luvas (Portugal-Inglaterra 2004). Dê por onde der, a história portuguesa dos penáltis faz-se de lágrimas. Umas de alegria, outras de desilusão. A culpa disto tudo é de um senhor chamado William McCrum, o empresário têxtil inventor da grande penalidade, na pequena vila de Milford, com 400 habitantes, na Irlanda do Norte.

Farto de ver jogadores abalroados na hora do remate mais-que-certeiro, o guarda-redes da equipa local Milford Everton (ainda hoje em atividade), tem a ideia de criar uma área a 11 metros da baliza, em 1880. Dá-se o nome de penálti e, dez anos depois, apresenta oficialmente a proposta à federação norte- irlandesa. Só em 1891 é que o penálti pega de estaca, ao ponto (literal e metafórico) de já ter decidido finais em todo o tipo de competições, mais ou menos importantes. Com o 1-0 ao Sporting Gijón, o capitão da seleção portuguesa Cristiano Ronaldo festeja o 91.º golo de penálti e já só está a dois de apanhar Maradona, o terceiro mais eficaz de sempre. Eis a lista completa, o top 11. Onze. Sim, onze é o número de futebol por excelência. Começa sempre onze para onze e até a linha do penálti é a 11 metros da baliza.

120, Baggio

É tão bom, tão bom, tão bom, mas tão bom, que até tem um lugar (bem alto) na história do futebol brasileiro, como autor do penálti do penta mundial, em 1994. É a final mais insossa de toda e decide-se nos penáltis. Baggio remata e a bola sai muito por cima. “Se calhar, foi para o Ayrton Senna”, justifica o italiano, numa alusão ao piloto brasileiro de Fórmula 1, que morrera, em Itália (Imola), durante o GP São Marino, em Maio desse ano. Fora isso, Baggio é um fora-de-série, com uma lista interminável de vítimas. Curioso verificar que deixa de marcar penáltis a dois anos do fim da carreira, no Brescia.

112, Romário

Para bom brasileiro, vamos aos factos com particulares, amigáveis e amistosos à mistura: 130 golos de penálti. Sem esses faz-de-conta, o baixinho coleciona a respeitável marca de 112 e, atenção, não é ele o marcador oficial desse tipo de lances no Barcelona, senão outro galo (ou número) cantaria. Curiosidade do arco da velha: Romário marca penálti na final do Mundial-94 com a Itália, só que… “até ali eu só tinha cobrado três penáltis na vida pela seleção; no dia [da final], vi uma preocupação muito grande dos jogadores e pedi ao Parreira para marcar. Foram os 40/50 metros mais longos da minha vida. Mas também sou o Romário por isso.”

93, Maradona

É mais que conhecida a sua história com Ivkovic num Nápoles-Sporting para a primeira eliminatória da Taça UEFA, em Setembro de 1989. E é ainda mais conhecida a sua história com o mesmo Ivkovic num Argentina-Jugoslávia para os quartos-de-final do Mundial-90. Nos dois lances, Maradona permite a defesa do guarda-redes. Aconteceria mais umas quantas vezes. Imagine agora se ele fosse infalível. A seu cargo, 93 golos de penálti espalhados por seis clubes: Argentinos Juniors, Boca Juniors, Barcelona, Nápoles, Sevilha e, claro, seleção argentina – neste último caso, tão-só quatro em 34 golos.

91, Zico

O seu nome está ligado a um dos momentos mais dececionantes da história do Brasil nos Mundiais com o penálti falhado vs. França, no prolongamento, nos quartos-de-final. Mas calma, a defesa de Joel Bats não o abate por aí além – no desempate, Zico faz golo. Aliás, o 10 brasileiro é dos mais competentes nessa arte da bola parada (aos penáltis, some-se o talento para livres directos, como Baggio e Koeman). Em toda a carreira, que inclui passagem pela Udinese (Itália), esta figura catedrática do futebol chega a marcar quatro golos de penálti num só jogo, pelo Flamengo, em 1979, com o Goytacaz (7-1).

91, Ronaldo

Primeiro é Eusébio. Entre Benfica (45 penáltis) e seleção (seis), o pantera chega aos 51 golos na linha dos 11 metros. Não há ninguém como ele. Não há? Ai há, há. É ele Fernando Gomes. Entre FC Porto (45), Sporting Gijón (2),Sporting (8) e Portugal (2), uma barrigada de 57 golos. Não há ninguém como ele. Não há? Ai há, há. É ele Ronaldo. Ao enganar Diego Meriño, do Sporting Gijón, no Bernabéu, faz o 91.º golo de penálti da carreira entre United, Portugal e Madrid. De uma assentada, desmarca-se do italiano Totti e apanha o argentino Passarella (75). Daí ao topo é um passo. De 11 metros. Dêem-lhe tempo rapazes.

https://www.youtube.com/watch?v=zgUDczmvWOE

89, Totti

Se marcar penáltis é uma arte, então o eterno romanista é uma figura ímpar no futebol mundial. Não pela quantidade de golos mas sim pela frieza. Imagine o cenário: último minuto dos oitavos-de-final do Mundial-2006 e bola a 11 metros da baliza. Quem se atreve a rematar? Francesco Totti, pois claro. É golo e a Itália inicia aí a caminhada triunfal rumo ao título no meio do calciocaos. Também há o aspeto da regularidade e aí, meus amigos, Totti é um mestre. Ninguém o perturba minimamente. Entre Fevereiro e Março de 2011, há sete penáltis para a Roma e o capitão marca-os todos sem pestanejar.

86, Ronald Koeman

Beeeem, estamos a falar do defesa mais virado para o ataque de que há memória. Só para se perceber esta teoria: o PSV 87-88 é campeão holandês e europeu (à conta do Benfica, nos penáltis). Na campanha nacional, Koeman é o segundo melhor marcador, com 21 golos. À sua frente, só o companheiro de equipa Wim Kieft, com 29. Estrondoso, não? Melhor ainda, o homem vai para o Barcelona e continua a dar que falar com penáltis indefensáveis. Uma vez, para a Liga, marca dois no clássico com o Real Madrid (3-1 em Camp Nou). O seu último golo de penálti é pelo Feyenoord, aos 34 anos de idade.

75, Passarella

Desde cedo, o homem dá sinais de liderança e autoridade: primeiro sem braçadeira, depois com. Em ambos os casos, um exímio marcador de penáltis. Aos 20 anos, por exemplo, já engana os guarda-redes como gente grande, na 3.ª divisão argentina, pelo Sarmiento. Aos 21, comete a proeza de assinar um hat-trick de penáltis no River Plate-Altos Hornos Zapla (4-1), para o Clausura. Nunca mais repetiria o gesto mas, atenção, acumula oito bis, um deles na despedida, aos 35 anos de idade, vs. Rosario Central. Em Itália, eliminaria a invencível Juventus de Trapattoni na Coppa, com um penálti (1-0).

74, Matthäus

O alemão é o cúmulo da eficácia e é pau para toda a obra. Só falha a final do Mundial-90, no Alemanha-Argentina. A pergunta impõe-se: se Matthäus marca o 1-0 à Checoslováquia, nos quartos-de-final, porque é que passa a vez a Brehme? Eis a explicação. “Rompi a sola de uma das chuteiras na primeira parte. Como sou distraído, não levei mais nenhum par para o estádio. Ao intervalo, um homem da Adidas deu-me o único par de botas disponível. Calcei-as mas elas não se adaptaram bem aos meus pés. Quando chegou a altura do penálti, confiei no Andi [Brehme]. Fomos companheiros de quarto durante todo o Mundial, pelo que eu e ele já tínhamos falado sobre isso. O Beckenbauer [selecionador] aceitou sem problema.”

73, Ronaldinho

Só há três jogadores com dois golos de penálti a Portugal: o inglês Finney (no mesmo jogo, o dos 10-0), o francês Zidane (Euro-2000 e Mundial-2006) e o brasileiro Ronaldinho (um em Alvalade em 2002, outro nas Antas em 2003). Em ambos os casos, Ricardo é enganado sem apelo nem agravo. Fora isso, é costume vê-lo em grande estilo desde a marca dos 11 metros. Ao remate segue-se sempre aquele sorriso largo, com os dentes à mostra. Há exceções, claro: que o diga o benfiquista Moretto, em Camp Nou, para a 2.ª mão dos quartos-de-final da Liga dos Campeões 2005-06.

69, Messi

Na final do Mundial sub-20, com a Nigéria, em 2005, o 10 da Argentina marca dois penáltis e inicia uma série de conquistas. Voltaria a bisar desde os 11 metros vs Milan, para a Liga dos Campeões, mais Málaga e Espanyol, para a Liga espanhola, sempre em 2011-12. Duas épocas depois, repetiria o feito no clássico com o Real Madrid, em pleno Santiago Bernabéu. Como nem tudo é promissor, Messi perde a eficácia nos últimos anos e a sua média baixa consideravelmente, ao ponto de errar um penálti em cada cinco, ao serviço do Barcelona.