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Linguística

“Brexit”, “geringonça” e “racismo” entre as dez candidatas à Palavra do Ano

A votação para a Palavra do Ano arranca esta quinta-feira e dura até ao último segundo do ano. Entre as candidatas encontram-se "Brexit", "campeão", "geringonça" e "racismo".

"Campeão" é uma das candidatas a Palavra do Ano

FÁBIO PINTO/OBSERVADOR

Autores
  • Agência Lusa

A votação para escolher a Palavra do Ano começou esta quinta-feira, anunciou a Porto Editora, que organiza a iniciativa desde 2009. A lista final, que pode ser consultada aqui, inclui as palavras Brexit, campeão, empoderamento, gerigonça, humanista, microcefalia, parentalidade, presidente, turismo e racismo.

A escolha pode ser feita até “ao último minuto do dia 31 de dezembro” e a palavra vencedora será conhecida “na primeira semana de janeiro” de 2017, numa cerimónia pública.

A seleção das dez palavras finais começou em maio deste ano e foi feita a partir de sugestões avançadas pelos votantes, num processo que passa sobretudo pelo estudo da frequência e distribuição do uso das palavras, da monitorização da comunicação social e das redes sociais e, ainda, dos acessos e consultas aos dicionários digitais da Porto Editora.

A Palavra do Ano, que vai na oitava edição, “já faz parte do calendário dos portugueses, tal a curiosidade que desperta e a participação crescente nas votações, na ordem das dezenas de milhares, apesar de se fazer exclusivamente online“, disse à Lusa fonte da editora.

No ano passado, registou-se uma participação superior a 20 mil pessoas. As palavras eleitas nas edições anteriores foram esmiuçar (2009), vuvuzela (2010), austeridade (2011), entroikado (2012), bombeiro (2013), corrupção (2014) e refugiado (2015).

Brexit, geringonça ou campeão. As dez palavras de 2016

Brexit, palavra que define a saída do Reino Unido da União Europeia, surgiu associada ao referendo do passado mês de junho. Já campeão, foi escolhida depois de Portugal se ter tornado campeão europeu de futebol em julho.

O termo empoderamento passou “a ser usado com maior frequência para designar formas de obter mais controlo sobre a própria vida, através da conquista de direitos civis, independência ou equidade de géneros”, explicou fonte da Porto Editora. Geringonça, um termo usado por Paulo Portas para se referir à formação do atual Governo, liderado por António Costa, e passou a ser usado para designar a maioria de esquerda no parlamento, que apoia o executivo.

Humanista foi, segundo a Porto Editora, “um dos adjetivos mais utilizados para qualificar António Guterres durante o processo de seleção que o levou ao cargo de secretário-geral das Nações Unidas”. O termo microcefalia tornou-se conhecido devido à pandemia registada este ano, em alguns Estados sul-americanos, principalmente no Brasil.

“Tema frequente ao longo do ano” foi ainda a parentalidade, o “conjunto de atividades desenvolvidas pelos educadores com vista a um melhor desenvolvimento das crianças”. Já presidente “tornou-se muito frequente nas notícias”, desde que Marcelo Rebelo de Sousa tomou posse a 19 de março, adianta a Porto Editora.

“Os excelentes resultados da indústria do turismo têm um impacto positivo na economia do país, mas esta realidade abriu o debate em termos de sustentabilidade e qualidade de vida nas grandes cidades”, e daí também a escolha do termo turismo para votação.

Por fim, surge a palavra racismo que, segundo a Porto Editora, tem crescido de forma preocupante. “Têm-se multiplicado atitudes e manifestações de racismo um pouco por todo o mundo, com particular incidência na Europa, mas também nos Estados Unidos da América”, referiu ainda a mesma fonte.

Votação da Palavra do Ano chega pela primeira vez a Angola e Moçambique

Pela primeira vez desde a sua criação, a iniciativa foi aberta a Angola e Moçambique através da Plural Editores. Nos dois países, a votação decorre também até ao dia 31 de dezembro, avançou a editor em comunicado. As palavras vencedoras serão conhecidas em meados de janeiro próximo, segundo fonte editorial.

Em Angola, foram a concurso dez palavras frequentemente usadas ao longo do ano, que incluem crise, candando, kandengue, kínguila, diversificação, kixiquila, esperança, liberdade, kamba e paz. A lista final foi selecionada por um grupo de lexicólogos da Plural Editores em Angola através de um “trabalho permanente de observação e acompanhamento da realidade” linguística e da “análise de frequência e distribuição de uso das palavras e do relevo que elas alcançam, tanto nos meios de comunicação e redes sociais, como no registo de consultas online e mobile dos dicionários da Porto Editora”, explicou à Lusa fonte editorial. Além disso, foi ainda tido em conta a opinião dos votantes.

Candando é termo com origem no quimbundo kandandu e significa “abraço”. “Foi recentemente adotado como marca por uma nova cadeia de hipermercados”, explicou à Lusa a mesma fonte. A palavra crise foi escolhida por causa da “a crise económica e financeira que Angola atravessa, agravada pela baixa do preço do petróleo no mercado internacional”. “Foi um tema inevitável ao longo do ano, e daí a escolha da palavra.”

Diversificação foi um termo escolhido também por causa da economia. “A diversificação da economia, muito dependente dos dividendos do petróleo, tem sido apontada como a principal medida para superar a queda nas receitas e ultrapassar a crise”, adiantou a fonte. “Num contexto de crise social e económica, a esperança é o sentimento por trás da coragem e otimismo com que os angolanos encaram o futuro”, acrescentou, justificando a inclusão do termo na lista final.

Kamba, um “termo [que] ganhou relevância num contexto social em que o espírito de entreajuda faz a diferença”, é “usado para designar aquele que é amigo, companheiro”. Kandengue, palavra da língua quimbundo, significa “criança” e “por elas [as crianças] se enfrentam as dificuldades e é nelas, nos mais novos, que se deposita a esperança da nação”. Kínguila é um termo usado para descrever “as mulheres que transacionam divisas estrangeiras ao preço do momento, sem taxas ou perguntas, nas ruas das cidades, fruto da acentuada desvalorização do kwanza”, a moeda angolana.

Kixiquila vem do termo quimbundo kixikila, que significa “assentar”, numa alusão ao registo dos valores. Com “os grandes desafios económicos com que se debatem as pessoas, popularizou-se esta prática informal de poupança partilhada, em que o acumulado de cada mês é rotativamente entregue a cada um dos participantes”, explicou a mesma fonte.

Liberdade, “em especial a de expressão, foi dos valores mais demandados em diferentes manifestações e incidentes ao longo deste ano” em Angola, sendo por isso que foi escolhida pela Plural Editores. A par da liberdade, também a paz continua a ser um desejo por parte dos angolanos. “Catorze anos depois da assinatura do Memorando do Luena e dos acordos de paz e de reconciliação nacional, o desejo de paz continua bem presente.”

Em Moçambique, as palavras finais são crise, mamparra, diálogo, paz, dívida, solidariedade, educação, tchilar, liberdade e txunar. Crise foi escolhida por causa do “desequilíbrio das contas públicas na sequência de um quadro internacional de crise económica veio aumentar a frequência de uso desta palavra”, disse à Agência Lusa fonte do Grupo Porto Editora.

A palavra diálogo está relacionada com “o diálogo político, sobretudo entre os dois maiores partidos, a Frelimo e a Renamo, é apontado como chave para um entendimento que assegure um clima de paz”. Já dívida, fruto do debate que se gerou este ano sobre “a dívida pública moçambicana, com juros dos mais altos do mundo, que torna urgente um plano de resgate que permita ao país ultrapassar a crise”.

Educação foi a quarta palavra escolhida. “Apesar das várias reformas feitas neste setor e dos enormes desafios que a gestão da rede escolar do país apresenta, uma educação de qualidade continua a ser uma preocupação premente da sociedade civil e uma prioridade para o futuro”.

Outro termo selecionado é liberdade. “A participação cívica em debates e manifestações públicas demonstrou a importância dada pelos moçambicanos à liberdade de expressão e de imprensa, e daí a escolha do termo para votação”. Mamparra, outro termo, tem ganhado destaque nas redes sociais, sendo usado para “designar alguém inexperiente ou ignorante, e também empregado para descrever o comportamento desregrado de alguns membros da classe política e de gestores de empresas públicas, assim como a atitude passiva com que o povo o encara”.

Paz faz também parte do grupo de finalistas e está relacionada com “o fim dos confrontos entre as Forças de Defesa e Segurança e o braço armado do maior partido da oposição, a Renamo, foi uma reivindicação constante com vista ao alcance da paz”. “A solidariedade é um valor fundamental numa altura em que o país enfrenta grandes desafios políticos, económicos e sociais”.

Outra palavra escolhida, tchilar, é oriunda do inglês chill out, sendo “usada para designar o ato de relaxar, descansar ou até divertir-se, sempre de uma forma descontraída”. “Txunar, é uma “expressão popularizada pelas redes sociais”. “Txunar é o que fazemos para aprimorar o aspeto de algo ou de alguém”.

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