Em Roma, é costume tropeçar na história em qualquer esquina, seja onde for. É como se se desse um pontapé numa pedra e de lá saísse um monumento imperdível. No Brasil, o esquema é parecido com jogadores de futebol. Retificação: para génios da bola. Há tantos, tantos, tantos, tantos, tantos que alguns passam até despercebidos. É o país em que todos concordam em nomear Pelé como melhor do mundo de todos os tempos e mais alguns. Se fizermos a pergunta às mesmas pessoas sobre quem é o melhor brasileiro, a resposta leva-nos a figuras carismáticas como Garrincha, Zico, Ronaldo, Sócrates, Romário, Falcão, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká. Acabamos por aqui senão é infindável o desfile de nomes e nomes do nosso contentamento.

Falemos de Evaristo de Macedo Filho. Quem? Pois é, Evaristo é o exemplo mais flagrante de herói brasileiro sem o devido reconhecimento. A nível mundial, queremos dizer. O homem é uma instituição em Espanha e fazem-lhe uma vénia se for preciso. ¿Porqué? Simples, é bicampeão nacional pelo Barcelona e tri pelo Real Madrid. Só isso? O Figo também ganha duas Ligas pelo Barça e três pelo Madrid. Tem de haver mais. E há. Evaristo é conhecido mundialmente como o herói do golo da cabeça em Camp Nou na noite em que o Madrid é eliminado pela primeira vez da Taça dos Campeões Europeus, em 1960, cinco anos depois da sua criação. É um golo imortalizado por uma sensacional fotografia tirada ao lado do poste esquerdo dessa baliza. Imagine bem isto, já lá vão mais de 50 anos e o salto de peixe continua na memória de todos: dos que vibram e dos que choram esse 2-1.

Como se isso fosse pouco, Evaristo é o único brasileiro a marcar cinco golos pela seleção. Acontece em plena Copa América-1957, no Peru, durante o 9-0 à Colômbia. Como se isso fosse pouco, Evaristo também atinge a fama como treinador, ao contrário de todos aqueles nomes acima citados. Para início de conversa, é campeão brasileiro pelo Bahia em 1988. Nunca o Bahia ganhara um título a nível nacional. E jamais voltaria a conquistar. Mais para a frente, em 1997, o homem silencia o Maracanã com o 2-2 de Carlos Miguel na festa do Grémio em cima do Flamengo na final da Taça do Brasil.

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Evaristo de Macedo Filho é uma figura incontornável. Do futebol brasileiro, espanhol e até mundial. Aos 83 anos, fala com uma tranquilidade ímpar e é dono de uma memória rica. Ouçamo-lo.

Boa tarde, estou a falar com o grande Evaristo de Macedo?
Não, de grande nada tenho. Só meço 1,70 metros.

Daqui Rui Miguel Tovar, de Portugal. Com a proximidade do clássico Barça-Madrid, quero entrevistá-lo.
Vamos a isso, rapaz.

Como é que você vai do subúrbio carioca de Madureira para Espanha?
Antigamente, o Rio de Janeiro era uma cidade muito diferente de agora e a única diversão era jogar à bola. Vivíamos num país pobre. Só para ver: quem tinha uma bicicleta, era filho de gente muito, muito grande. Nós jogávamos à bola nos campos, que, entretanto, desapareceram. No Grajaú, onde hoje é a favela do Jacarezinho, havia sete campos. Naquele tempo, o sonho era jogar num clube. Num clube qualquer.

Por isso foi parar ao Madureira?
Sim, aos 15/16 anos. Um amigo levou-me aos treinos. Eu levei a minha chuteirinha meio-rasgada e o treinador gostou de mim.

E o seu amigo?
Foi dispensado [risos].

E depois?
Fui inscrito nos juvenis. Não demorei muito e subi para os aspirantes [juniores]. Mais um pouco e equipa principal.

Pelo meio, ainda foi aos Jogos Olímpicos?
Sim, Helsínquia-1952. Só fiz um jogo, nos quartos-de-final, e perdemos com a RFA.

Quando chegou da Finlândia
Tinha alguns convites, um deles do Flamengo.

Porque escolheu o Flamengo?
O quinteto atacante deles era conhecido demais. Adilson, Zizinho, Perilo, Peraça e Bebe. Nas várzeas, todos queríamos ser o Zizinho ou o Peraça ou o Adilson e por aí fora. Além disso, tinha um tio que ia à Gávea [estádio do Flamengo] e, às vezes, levava-me com ele.

Grande animação, então?
Fiquei animado com o convite. Mas estava atrapalhado porque tinha começado o curso de Direito e passava a semana num quartel, na tropa.

Lembra-se da estreia no Flamengo?
Claro que sim, no torneio Rio-São Paulo. Era Flamengo-Santos e estávamos a perder 1-0 quando o treinador Fleitas Solich [paraguaio] mandou-me entrar. Marquei um golo e fiz o passe para o 2-1.

E depois?
Com o Palmeiras. Eu suplente, porque tínhamos uma equipa fantástica, e o Flamengo a perder 2-1. Às tantas, a torcida começa a gritar Evaristo, Evaristo. Mais uma vez, entrei.

E?
Fiz o 2-2 e a assistência para o 3-2. Ganhei a torcida e nunca mais saí do onze.

E como é que um brasileiro vai para Espanha? Era comum?
Não, nada disso. Aliás, eu era o único brasileiro no campeonato espanhol.

Mas como é que se deu a transferência do Flamengo para o Barcelona?
Na Copa América-57, fui o melhor marcador da seleção. Marquei oito golos, cinco deles num só jogo [9-0 com a Colômbia], o que é recorde na seleção brasileira. Estava num hotel em Lima, no Peru, quando me apareceram dois senhores a pedir para falar comigo. Apresentaram credenciais como representantes do Barcelona. Quiseram contratar-me naquele instante mas adiei o assunto para o Rio de Janeiro, porque eles tinham de falar com o meu pai.

E resolveram o assunto no Rio?
Sim. Na altura, eu não tinha contrato com o Flamengo nem com outro clube.

Como?
Eu assinava o contrato de ano a ano, porque tanto o Flamengo como o meu pai tinham medo que eu não resultasse no futebol. Ao assinar de ano a ano, não ficava preso ao Flamengo durante anos e anos. Nessa Copa América-57, joguei com o passe livre. Por isso, as negociações foram entre o Barcelona e eu. O Flamengo não ganhou nada. Nadinha.

Quantos anos tinha?
Saí para o Barcelona aos 24 anos e nunca mais voltei a vestir a camisa do Brasil. Que pena, isso dói muito.

Nunca, nunca mesmo?
Nunca mesmo. Na véspera do Mundial-58, ainda recebi um telefonema lá em Barcelona do coordenador técnico. Era o Carlos Nascimento. Disse-me que a seleção ia iniciar os treinos para o Mundial e a comissão técnica desejava que eu solicitasse ao Barcelona a minha saída para aquele período.

E então?
O Barcelona não me libertou. Como a Espanha não se tinha apurado para o Mundial da Suécia, os clubes de lá quiseram manter o campeonato espanhol com as datas previstas. Não havia motivo para encurtar o calendário. Por isso, nenhum clube ia abrir mão de ninguém.

Que decepção.
O Nascimento ficou cheio de pena e disse-me que o Vicente Feola estava ansioso por me ver a jogar ao lado de um neguinho bom de bola lá do Santos.

Nããããããããããã.
Estou a dizer-te a verdade. Como não havia televisão como agora, continuei a minha vida no Barcelona sem saber que o tal neguinho se chamava Pelé.

Chegou alguma vez a cruzar-se com o Pelé?
Só uma vez, durante a visita do Santos ao Camp Nou, em 1959. O Santos ganhou-nos 5-1 e conheci a dupla mais afinada de sempre: Coutinho e Pelé.

Como foram os primeiros tempos no Barcelona?
Fui muito bem recebido por todos os jogadores. Rapidamente notei que aquilo era uma verdadeira família. Não havia ninguém que se quisesse sobrepor ao próximo. Todos nós sabíamos o que fazer, o que dizer, e éramos bastante unidos.

Fora do campo também?
Sobretudo fora do campo, rapaz! Todos os dias às seis da tarde, íamos comer tapas. Deliciosas tapas. Agora que me lembro, até fiquei com fome.

E dentro do campo?
Tive uma sorte muito grande. Na 3ª ou 4ª jornada, era dia de Barça-Madrid e fui titular. Ganhámos 4-0 e fiz três golos. Abriu-me as portas e passei a jogar sempre. Fixei-me lá na frente e todos os anos fui o melhor marcador da equipa.

Três golos ao Madrid!?! Aconteceu mais alguma vez?
Não, foi uma exceção, mas marquei um golo que tenho de memória na cabeça.

Qual?
Um de cabeça, em salto de peixe. É um golo libertador porque permite ao Barcelona eliminar o Real Madrid pela primeira vez na Taça dos Campeões. Em Barcelona, já não aguentavam mais com o Madrid, o Madrid e o Madrid. Portanto, aquele golo desequilibrou a eliminatória.

Quando foi isso?
Em 1960-61.

https://www.youtube.com/watch?v=9ao5eNB5uPc

Nessa época, a final da Taça dos Campeões não foi com o Benfica?
Fooooi. Perdemos 3-2 com o time do Eusébio, Coluna, Simões.

Toda a gente fala das bolas nos postes na baliza do Benfica
É verdade, eu atirei uma, de cabeça, na segunda parte. Só que isso é parte do jogo, fazer o quê?

Trocou de camisola com alguém do Benfica no final desse jogo?
Não.

Porque estava amuado?
Não, nada disso. A verdade é que só tínhamos uma camisola.

Para essa final?
Para toda a época. Naquele tempo, não havia cá Nikes e a Adidas estava a começar a aparecer. Nem havia publicidade nas camisolas. Eram as próprias Direções dos clubes que compravam as camisolas e pedia-nos para tratá-las carinhosamente [gargalhadas roucas].

E porquê a mudança para o Real Madrid em 1962?
Muito simples. A federação espanhola queria que eu me nacionalizasse para jogar o Mundial-62 e fizeram-me uma proposta financeira bastante interessante. O Puskas foi a esse Mundial pela Espanha e o Di Stéfano só não foi porque se lesionou às vésperas da viagem para o Chile. Ora bem, a Espanha estava interessada na naturalização e o Barcelona também, para contratar mais um estrangeiro. Mas não houve jeito de me nacionalizar porque não tinha descendência espanhola nem nada parecido. Então, o assunto resolveu-se sem demoras e sem problema algum. O Barcelona prescindiu dos meus serviços e o Madrid aproveitou-se.

E como foi lá em Madrid?
Não fui o mesmo jogador que em Barcelona. Primeiro, porque o ambiente no balneário era diferente. Todos queríamos ganhar, claro, mas os mais velhos não se davam muito com os novatos. Havia uma ligeira diferença entre uns e outros, coisa que não existia no Barcelona. Depois, tive um azar tremendo porque lesionei-me nos primeiros jogos com uma pancada de um italiano, num jogo em Itália. Fui operado mas a recuperação não correu muito bem, porque a medicina desportiva não estava tão avançada como agora. Agora quando vejo o Kaká lembro-me de mim [risos tímidos] porque ele joga duas jornadas seguidas e depois pára três. Eu também fui assim. Mas dei-me bastante bem no Madrid, com boas exibições.

Como era o Di Stéfano?
Um fenómeno, como Puskas e aquele 11, o…

Gento?
Isso, o Gento. Cada remate dele levava fogo. Então se ele atirasse à baliza na passada, ou era golo ou era golo. Não havia alternativa.

De volta ao Di Stéfano.
Era um senhor simpático, senhor do seu nariz, bastante prático em qualquer situação de jogo. Jogava com qualquer parte do corpo, até com as costas. Lembro-me de uma situação curiosa fora dos relvados. Estávamos num hotel depois de perder a final da Taça dos Campeões para o Inter e o presidente da UEFA estava no uso da palavra, enquanto o Di Stéfano, o Puskas, o Gento e o Santamaría estavam encostados ao balcão a falar entre eles. O presidente da UEFA parou o discurso uma vez. Duas. E à terceira chamou-lhes a atenção. O Di Stéfano virou-se para ele e disse-lhe ‘você está aí porque nós jogamos. Quando acabarmos de falar, fala você!”

Qual é a diferença do seu tempo para hoje?
Hoje, qualquer um tem a imprensa atrás dele. E hoje qualquer um não pode sair de casa sem se notar. Antigamente, saíamos à noite e ninguém queria saber. O futebol tornou-se mais tudo. É tudo mais valorizado. O Barcelona de hoje, por exemplo. É uma equipa inteligente e boa, mas nós também éramos. Ou o Real Madrid. O que o Messi faz hoje tem um valor extraordinário pelo seu talento, mas também porque toda a imprensa está em cima dele e repete as jogadas até á exaustão. Coisa que não acontecia com o Cruijff, o Puskas ou até com o próprio Maradona. Se antigamente a cobertura mediática fosse como hoje, muitos jogadores seriam mais, muito mais, valorizados.

E qual a diferença entre o Madrid e o Barcelona?
Olha, a torcida do Barça sempre foi mais povão e o Real Madrid é o clube elitista por excelência. Durante anos e anos, o grande Madrid existiu por causa disso. A alta sociedade da Espanha era madridista. Sem dúvida. Hoje já não é bem assim. Já existe muita gente de classes B e C a puxar pelo Madrid. Esse mito está fora do prazo de validade.

E a política?
Pois, isso continua a mexer com o clássico. Na Guerra Civil espanhola, era Madrid contra Barcelona. Castela contra Catalunha. Barcelona continua a persistir pelos ideais de independência para não depender do governo central.

É o maior clássico do mundo?
Seguramente. O ambiente é tenso, proporcionado pelos acontecimentos políticos que já disse, aliados à época do ditador Franco. Nunca tive qualquer problema na rua nem no campo, mas havia uma preocupação acrescida por se tratar de mais que um jogo.

Reconhece essa paixão noutros países?
Não vai mais longe, não. O Benfica-Sporting em Portugal. Esse clássico de Lisboa era muito duro. Apercebi-me mais disso em Espanha, quando lia alguns jornais que davam a entender a crescente efervescência dos adeptos na semana do jogo. Como um Inter-Milan. Ou um Flamengo-Vasco, a colónia brasileira contra a portuguesa. Eles aqui falam muito do Fla-Flu, que surgiu graças ao Jornal dos Sports e ao Mário Filho [jornalista que dá o nome ao Estádio do Maracanã], mas não há rivalidade maior que a do Flamengo com o Vasco.

E o seu coração, puxa por quem entre Barça e Madrid?
Joguei o dobro do tempo no Barcelona e a minha estadia em Madrid foi menos gloriosa. O interessante é que tenho um filho nascido em Barcelona e uma filha nascida em Madrid.