Quando em 1974 John Cleese contactou Andrew Sachs para interpretar Manuel, o criado do hotel manhoso da sua nova série na BBC, “Fawlty Towers”, estavam ambos a fazer vídeos didáticos, e Sachs perguntou-lhe: “Que género de criado é ele?”. “É um criado espanhol”, respondeu Cleese. “Acho que não sei fazer um sotaque espanhol. Não pode ser um criado alemão?”, retorquiu Sachs. Ao que lhe disse John Cleese: “Não! Se ele fosse alemão, seria competente a fazer o seu trabalho. Tem que ser espanhol.” (Ironicamente, Sachs era alemão de Berlim, radicado em Inglaterra desde os 8 anos, por os pais terem fugido ao regime nacional-socialista).

Andrew Sachs, que morreu em Londres, aos 86 anos, era então um ator de segundo plano. Desistiu de contrariar o seu colega, começou a treinar um sotaque espanhol e arranjou um bigode postiço. E assim nasceu Manuel, o criado mais burro, trapalhão e bronco da história da televisão, pequenino e submisso, assassinando a língua inglesa sempre que abria a boca, expressando num simples e eloquente “Qué?” toda a sua perplexidade ou incompreensão, e feito saco de pancada do seu colérico patrão, Basil Fawlty. Este, em jeito de explicação para a incompetência e atarantamento do seu sofredor servo, dizia: “Ele é de Barcelona.” (Em Espanha, sentiram-se insultados e Manuel foi transformado em mexicano).

E se John Cleese batia com força. Certo dia, Sachs levou na cabeça com um adereço danificado e andou bastante tempo com dores no crânio. De outra vez, ficou com queimaduras em segundo grau no episódio “Os Alemães”, causadas pelos químicos usados para simular um fogo na cozinha do hotel. Mas nunca se incompatibilizou com Cleese, que o deixava dar sugestões para os argumentos dos episódios, e ficaram sempre amigos. Basil Fawlty e Manuel, patrão trangalhadanças e criado atarantado, personagens construídas à base de comédia física e verbal, entraram para a posteridade televisiva numa série clássica plebiscitada por muitos milhões de espectadores, e que deixou tiradas que entraram no discurso quotidiano. A mais popular das quais a interrogação: “Qué?”

Andrew Sachs fez muito mais coisas no teatro, no cinema e sobretudo na rádio depois de “Fawlty Towers”, que esteve no ar entre 1975 e 1979, mas ficou para sempre, e muito naturalmente, associado à figura de Manuel, que o tornou famoso e solicitado. Não que ele se queixasse, tudo pelo contrário. “Interpretar Manuel foi a melhor coisa que me aconteceu”, disse numa entrevista. Nos anos 80, vestindo a pele da personagem, chegou a lançar quatro “singles” com canções cómicas, gravadas sob o nome Manuel and Los Por Favors, incluindo um “cover” de “Shaddap your Face”, de Joe Dolce.

Evocando o seu amigo e colega, John Cleese disse ao programa “Today” da BBC Radio que representar com Sachs “era com jogar ténis com alguém que é tão bom como nós.” E acrescentou: “Se o conhecessem, iam achá-lo reservado, muito calmo, com um tipo quase académico, meticulosamente bem-educado. Mas quando punha o bigode, tornava-se numa pessoa totalmente diferente. Fazia-me rir até eu ficar com dores.” O hotel Fawlty Towers está de luto pelo seu criado mais desajeitado e mais bem-amado.

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