A Human Rights Watch (HRW) publicou um relatório onde denuncia as condições a que são submetidas os prisioneiros da prisão especialmente criada para os membros do Partido Comunista Chinês (PCC) e a forma como decorrem as investigações feitas pelo shuanggui, o sistema interno de justiça daquele órgão. De acordo com a ONG de defesa dos Direitos Humanos, os reclusos são sujeitos a tortura do sono, são obrigados a manterem-se na mesma posição durante várias horas, recebem pouca água e comida e também são espancados.

O relatório conta com 21 entrevistas, onde se incluem quatro ex-reclusos do sistema shuanggui e familiares de pessoas que ainda hoje estão presas.

Segundo aquela ONG, os detidos são muitas vezes levados a fazer confissões falsas, depois de passarem por um duro processo que começa antes da própria reclusão. “O início de uma investigação do shuanggui é muitas vezes marcado pelo desaparecimento de uma pessoa — membros da família não recebem nenhuma notificação da detenção da pessoa ou do seu paradeiro, não recebem informação sobre a sua alegada infração nem sobre a duração da detenção”, pode ler-se no relatório da HRW.

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Em outubro, antes da reunião do Comité Central do PCC, a televisão estatal passou um documentário onde ex-dirigentes confessavam crimes de corrupção

Aquela ONG falou com uma mulher cujo marido foi em tempos um líder local do PCC. Depois de lhe terem dito que ele não iria para casa nessa noite, começou a ler notícias no jornal de que o seu marido teria cometido “falhas graves”. De acordo com o que lhe foi dito pelos advogados do marido, este foi torturado até ter confessado que tinha aceitado subornos.

“Não lhe deixaram comer nem dormir. Apontaram-lhe uma luz brilhante, negaram-lhe comida e sono, e fizeram no sentar-se num banco pequeno até as suas nádegas começarem a apodrecer e a sua pele começar a deitar pus”, contou à HRW. Nessa altura, ter-lhe-ão dito: “Já estás detido e já te denunciámos publicamente por corrupção. Ninguém quer saber de ti”. E depois, consoante o relato da sua mulher, disseram-lhe que deveria cooperar com a investigação do shuanggui. Foi nessa altura que começaram as confissões falsas, sob ameaça de também prenderem os seus familiares.

De acordo com a HRW, o marido desta mulher (que falou sob condição de anonimato) ainda está preso.

“O Presidente Xi [Jinping] construiu a sua campanha anti-corrupção em torno de um sistema detenção abusivo e ilegal”, disse a diretora a Human Rights Watch, Sophie Richardson. “Torturar suspeitos para conseguir uma confissão não vai acabar com a corrupção, mas vai terminar com qualquer confiança no sistema judicial chinês.

O combate à corrupção tem sido umas das principais bandeiras do mandato de Xi Jinping, desde que se tornou Presidente da China em novembro de 2012. Antes da última reunião do Comité Central do PCC começar, a televisão estatal transmitiu um documentário de oito partes onde antigos ex-membros do partido e antigos detentores de cargos de topo no país confessavam os seus crimes, num autêntico exercício de autocrítica.

Ao todo, o PCC tem 88 milhões de militantes.