Há apenas um momento frustrante no documentário “Hitchcock/Truffaut”, do crítico americano Kent Jones. É quando François Truffaut pergunta a Alfred Hitchcock se ele se considera um cineasta católico e o realizador de “Janela Indiscreta” lhe pede para desligar o gravador, para poder responder em “off”. O filme revive a longa e detalhadíssima entrevista (500 perguntas no total) feita pelo ex-crítico dos “Cahiers du Cinéma” e jovem mas já brilhante realizador francês ao seu idoso e consagrado colega britânico, ao longo de uma semana do verão de 1962, no seu escritório dos estúdios Universal, e que resultou no livro “Hitchcock/Truffaut” (também conhecido como “Le Cinéma Selon Alfred Hitchcock”, ou “Hitchbook”), editado em 1966, e é um deleite cinéfilo sobre um encontro pioneiro. Nele misturam-se o grande jornalismo cinematográfico, a cinefilia rigorosa mas sempre entusiasmada e o preito de homenagem artístico em vida, de uma admiração sem servilismo.

[Veja o “trailer” de “Hitchcock/Truffaut]

O livro, um dos mais importantes já publicados sobre cinema, foi decisivo para que, no meio cinematográfico, da crítica e dos apaixonados por cinema, a perceção que então se tinha de Alfred Hitchcock, à época já célebre e sinónimo de um certo tipo de filmes, fosse alterada. E ele passasse de ser um senhor gordo e algo patusco que cultivava o “suspense” como nenhum outro e transformava o medo num grande espectáculo, para um genial “autor” cujos filmes eram mais complexos e cheios de implicações e significados (culturais, morais, psicológicos, sexuais) do que aparentavam, tecnicamente elaboradíssimos e estilisticamente inigualáveis, e únicos na maneira como transportavam tudo isso num embrulho formal de cinema comercial e de massas. Essas massas de espectadores que Hitchcock dizia querer “tocar” como um enorme e único instrumento musical, quer estivessem num cinema dos EUA, do Japão ou da Índia.

[Veja o realizador Kent Jones falar sobre o documentário]

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Um dos aspetos fundamentais que François Truffaut deteta e realça nos filmes de Hitchcock, e que este reconhece e comenta na entrevista, é a grande carga que eles trazem do cinema mudo (época em que o realizador de “Psico” começou a trabalhar), a maneira como são pensados e guiados por uma ideia essencialmente visual, de câmara, de onde tudo o resto nasce. Hitchcock chega até a lamentar que o sonoro tenha substituído totalmente o mudo, esse tempo de “pureza do cinema”, e um dos vários realizadores contemporâneos que Kent Jones foi ouvir, diz que os filmes de Hitchcock, vistos sem som, podem perceber-se quase tão perfeitamente como se ele estivesse ligado. (Entre os que contribuem aqui com opiniões elogiosas e análises pertinentes sobre o livro e Hitchcock, contam-se Martin Scorsese, Olivier Assayas, David Fincher, Arnaud Desplechin, Paul Schrader ou Kiyoshi Kurosawa).

[Veja Martin Scorsese num excerto do documentário]

Embora a intenção fosse pôr Hitchcock a falar dos seus filmes, era inevitável que a conversa, sendo protagonizada por dois realizadores de nacionalidades, gerações e formações diferentes, tocasse também nos filmes de Truffaut. E é divertido ouvir o mestre britânico opinar que teria tirado o diálogo a uma sequência de “Os 400 Golpes” que aquele lhe descreve, e que Kent Jones inclui no documentário para percebermos melhor os dois pontos de vista. (Foi nesta entrevista que Hitchcock disse que os atores “deviam ser tratados como gado”, para frisar que era ele o único senhor a bordo das suas rodagens). O filme beneficia muito da utilização do som das gravações originais (por isso, Helen Scott, amiga de Truffaut, que traduziu a conversa, também é protagonista), e das fotos tiradas por Philippe Halsman.

Claro, limpo de jargão teórico-filmológico e bem arrumado, “Hitchcock/Truffaut” passa a fazer parte do imenso, diverso e rico cânone hitchcockiano, e a ser um parceiro cinematográfico do livro que resultou da viagem feita por François Truffaut a Hollywood há 54 anos, para ir ouvir Alfred Hitchcock “como Édipo foi ao Oráculo”.