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Museu de Arte Popular: o que já se sabe da reabertura

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Está fechado há quase dois anos e volta a abrir portas no dia 14 com uma exposição sobre a portugalidade no início do século XX. Conheça as novidade. E as incertezas.

Autor
  • Bruno Horta
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Tem sido o parente pobre dos museus portugueses, muito provavelmente porque não nasceu para ser museu ou porque fez parte da máquina de propaganda do Estado Novo. Mas os atuais responsáveis pelo Museu de Arte Popular (MAP) acreditam que desta vez é que é.

Depois de quase dois anos de portas fechadas, o museu lisboeta volta a receber público. A reabertura está marcada para quarta-feira, 14, às 18h30, com a inauguração da exposição “Da Fotografia ao Azulejo”, sobre a portugalidade no início do século XX. Está prevista a presença do ministro da Cultura, Castro Mendes.

“É um novo ciclo que se abre”, classifica Paulo Costa, responsável pelo Museu Nacional de Etnologia e diretor do MAP por inerência (as duas instituições situam-se na zona de Belém). “Estamos num novo contexto, o MAP faz parte do Museu de Etnologia, somos nós que definimos a programação, e o edifício, que é uma peça arquitetónica de grande valia, com forte simbolismo, volta a ser valorizado”, acrescenta.

Durante décadas, o museu não se atualizou, aliás já nasceu desatualizado, por estar ligado a um projeto ideológico e a uma ideia desfasada da realidade do país”, entende Paulo Costa, referindo-se à origem do MAP.

Começou por ser um dos pavilhões da Exposição do Mundo Português de 1940, projetado pelos arquitetos António Veloso Reis Camelo e João Simões. Abriu como museu em 1948, reformulado pelo arquiteto Jorge Segurado e pelo etnógrafo Francisco Martins Lage, com o objetivo de recriar no interior as várias regiões de Portugal ou uma ideia arcaica dessas regiões.

“Foi envelhecendo em termos museográficos e do edifício, a certa altura criou-se a ideia de que o MAP era uma coisa velha e não havia possibilidade de voltar a abrir”, contextualiza o diretor.

Em rigor, não se vislumbra ainda o alcance desta reabertura. Paulo Costa revelou alguns pormenores, em entrevista ao Observador, mas mostrou-se cauteloso, o que sugere alguma incerteza quanto aos próximos capítulos. Eis o que se sabe para já.

  • A exposição inaugural, “Da Fotografia ao Azulejo”, apresenta uma “perspetiva inovadora sobre o azulejo”, segundo o diretor do museu. “Tem uma importância científica muito grande e resulta de um trabalho de investigação no terreno.”
  • Comissariada pelo antropólogo espanhol José Luis Mingote Calderón, do Museu Nacional de Antropologia de Madrid, irá manter-se até 1 de outubro de 2017. Foi exibida pela primeira vez há um ano no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e entretanto passou por Espanha: Museu Etnográfico de Leão e Museu Nacional de Antropologia de Madrid.
  • As peças da exposição encontram-se neste momento na capital espanhola e estão a ser desmontadas. O transporte para Lisboa será feito nos próximos dias.
  • A mostra “permite perceber melhor o país no início do século XX e a vontade que havia de destacar em cada região o que era considerado mais emblemático”, explica o diretor do museu. “O que o regime ou as entidades particulares quiseram transmitir está muito presente nestes azulejos. O caso dos caminhos-de-ferro é emblemático: há estações da CP na fronteira entre Portugal e Espanha com painéis que são autênticos bilhetes postais de Portugal, com representações de monumentos ou cenas agrícolas consideradas importantes, mesmo que essas cenas já tivessem deixado de se verificar à data de criação dos painéis.”
  • É composta por fotografias de painéis de azulejos que Mingote Calderón encontrou um pouco por todo o país, no âmbito de um trabalho de investigação que durou vários anos. “Ele calcorreou várias regiões portuguesas, num trabalho de detetive, e fez o levantamento fotográfico de todos os painéis de azulejos de estações de comboios, fábricas, quintas, casas particulares”, explica Paulo Costa.
  • Uma base de dados eletrónica pode ser consultada durante a mostra. Nela constam imagens e informações dos azulejos documentados.
  • Os azulejos reproduzidos na exposição foram criados na primeira metade do século XX e inspirados em fotografias do início do século – fotos que saíam em revistas de grande difusão e que muitas vezes davam origem a postais.
  • “Essas imagens tornaram-se ícones e foram adaptadas a azulejo, mas o interessante é verificar o que era revelado e o que não era revelado”, observa Paulo Costa. “Mostrava-se uma determinada ideia de povo limpo, asseado, de costumes coloridos, mas não se mostrava a povo das dificuldades, da fome, da falta de trabalho ou do trabalho sazonal. As fotos e os painéis revelam não o país arcaico, mas o país da festa, ou seja, são uma forma de mitificação do povo.”
  • A acompanhar os azulejos estarão algumas peças do Museu de Etnologia, o que marca a diferença em relação às apresentações anteriores desta mesma exposição. Exemplos: um cesto vindimo do Douro, que chegou a ser utilizado e é idêntico ao que parece em alguns azulejos, e também um carro de bois duriense.
  • O MAP tem seis salas da exposição permanente, que conservam a designação das antigas províncias portuguesas: Trás-os-Montes, Entre Douro e Minho, Beiras, Estremadura, Alentejo e Algarve. A 14 de dezembro vão ser reabertas apenas duas (Minho e Trás-os-Montes), além de um pátio interior.
  • Depois desta, o MAP vai inaugurar uma outra exposição, sobre a qual o diretor prefere não adiantar informações. “Será sobre a cultura popular portuguesa”, resume. Nessa altura, se não antes, terão sido abertas ao público as restantes salas do museu.
  • As cerca de 12 mil peças do acervo do MAP vão permanecer nas reservas do Museu de Etnologia, para onde foram transferidas a partir de 2008, depois de a então ministra da Cultura Isabel Pires de Lima ter decidido extinguir o museu e criar ali o Museu do Mar e da Língua (projeto não concretizado).
  • O MAP sofreu obras profundas de requalificação em 2010, devido ao “estado de degradação avançado”, nas palavras do atual diretor. Desde 2012, está sob a alçada do Museu de Etnologia. Chegou a ser pensado como um dos equipamentos que integrariam o projeto de gestão cultural do eixo Belém-Ajuda, idealizado pelo anterior governo e revertido pelo atual.
  • Nos últimos meses, foram feitas obras de pormenor, que ainda decorrem: paredes falsas, suportes para painéis de exposição, vitrines, mobiliário.
  • Não é certo quando voltarão a ser exibidas no MAP as peças do acervo original. “Acontecerá no seu tempo próprio”, afirma o diretor.
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