Às vezes convém olhar para o mapa. Os maiores problemas desta Europa que sobreviveu à crise das dívidas soberanas parecem-nos ecos para lá dos Pirinéus. Se o euro acabar, até parece ter mais a ver com o que vai para além dos Alpes. Em Portugal ainda não houve atentados terroristas. Não há crise de refugiados. Não há problemas com a porosidade das fronteiras. Não há imigração massiva de gente com culturas e línguas diferentes. Não há populistas de direita ou neo-fascistas a ameaçar o status quo (e os que poderiam ser chamados de populistas de esquerda em Portugal estão a apoiar um partido da situação). Não há sinais de a maioria da população querer abandonar a União Europeia, como os britânicos. Não há palhaços profissionais em risco de ganharem eleições.

Apesar da berraria do costume e da reorganização da geometria partidária interna, tudo permanece se compararmos a nossa vidinha com o que está para vir ou com o que se passa “lá fora”. O medo, o verdadeiro medo que incita tanto eleitorado europeu ainda não cá chegou. Mas poderá emergir, se os riscos que se multiplicam debaixo dos nosso olhos se tornarem em factos.

A geografia ajuda-nos e prejudica-nos. Periféricos e pobrezinhos? Ou periféricos e poupados a catástrofes? Venha o Diabo e escolha. Mas como o Diabo teima em não aparecer, acentuam-se os riscos. E quanto aos riscos, basta essa perceção para haver efeitos. Há muitas borboletas a bater asas em demasiados lugares ao mesmo tempo. Há excesso de incógnitas em pontos-chave e um potencial imenso para as coisas não correm bem: e, em política, quando não é previsível que as coisas corram bem, aumenta muito a probabilidade de correrem mal.

Esta semana, numa conversa com jornalistas portugueses em Bruxelas, Charles Tannock um eurodeputado britânico conservador (mas pró-europeu) não mostrou qualquer otimismo em relação ao futuro. A conjugação do Brexit com a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos, a ameaça de Le Pen em França ou de Geert Wilders na Holanda, a demissão do Governo italiano, ou a atitude da Rússia, faz com que nos reste dizer — para auto consolo — que vivemos “tempos interessantes”, como dizia o britânico em excelente português à mesa do almoço.

“O Brexit é um ato de autodestruição egoísta dos britânicos”, dizia Tannock, enquanto procurava explicar e lamentava o que tinha corrido mal na campanha dos remainers e procurava defender uma “saída suave” do Reino Unido da União Europeia. Apontava consequências como a eventual saída da “city” para Frankfurt, Dublin e o regresso a Nova Iorque de grandes empresas financeiras norte-americanas. O eurodeputado ressalvava ainda os riscos de instabilidade dentro da própria Grã-Bretanha: o regresso do impulso secessionista da Escócia, para já tímido, ou um retorno a troubles na Irlanda. “Um dos problemas no futuro será a fronteira para viajar entre Dublin e Belfast”. Se a República da Irlanda fica na União Europeia e a Irlanda do Norte sai, como vai ser a vida na ilha? “Não se fala muito da Irlanda, mas é um grande problema”, dizia o eurodeputado para concluir que não via “nada de bom no futuro próximo”.

Às incertezas do Brexit, soma-se toda a insegurança gerada a partir da eleição de Donald Trump. Sabemos que as coisas vão mudar, mas não percebemos ainda como e quanto: das propostas do presidente-eleito dos EUA à personalidade do indivíduo, apenas é possível prever elevadas doses imprevisibilidade.

Um gestor norte-americano chamado Michael C. Maibach — apoiante de Donald Trump — também deixou notas preocupantes numa conversa com o Observador depois de um seminário no Parlamento Europeu. Este diretor do James Wilson Institute on Natural Rights & American Founding, argumentou que era positiva a nova abordagem da diplomacia norte-americana one-to-one, em que a política externa era determinada não por uma estratégia global, mas pelo somatório de relações bilaterais. O estilo seria próprio de um homem de negócios (Trump), que avaliaria em cada caso concreto como beneficiar os interesses dos Estados Unidos. Essa tese ganharia força, dias depois, com a possibilidade de Rex Tillerson CEO da petrolífera Exxon, se tornar secretário de Estado. No mesmo evento, Peter Chase, do German Marshall Fund, recomendava a Trump “prudência no uso das palavras”, embora não achasse que todas as incertezas geradas por Trump estivessem a tornar o mundo um lugar mais perigoso. Perigoso e instável sempre o mundo foi.

Mesmo assim, há níveis diferentes de instabilidade. Nesse sentido, Michael Maibach chamaria à política económica de Donald Trump um “jogo de risco”. Um jogo, um “gamble“, como se estivesse a referir-se a uma aposta de casino: um enorme corte nos impostos conjugado com um aumento do investimento em obras públicas, que poderá gerar um imenso défice aos EUA e um disparar da dívida. “Trump está a jogar alto porque a parada é alta”, dizia Maibach ao Observador. “Ele não acredita na austeridade. Ele crê no crescimento e na prosperidade. Ele aposta que a maior economia do mundo está encalhada por causa da regulação e dos impostos. Vai fazer as infraestruturas para pôr os ‘colarinhos azuis’ a trabalhar, a construir estradas e pontes”. Como vai pagar? “Através de Public-Private Partnerships (PPP), por isso muitas dessas coisas vão pagar-se a si próprias”.

Aqui os riscos parecem enormes. “Mas bem-vindos à vida’“, responderia Maibach como se estivesse a dirigir a todos os europeus. E acrescentava: “Daqui a um ano vamos falar e vamos ver se funcionou. Se não funcionar temos um grande, um enorme problema”.

A borboleta que bate asas do outro lado do Atlântico é um gigante que pode arrastar toda a gente. Teremos “um enorme problema” se Portugal e as outras dívidas soberanas mais frágeis forem arrastadas para um turbilhão de juros altos. Teremos um enorme problema com os riscos que o euro corre, mesmo que a curto prazo sobreviva. Teremos um enorme problema se a vitória da direita radical e o enfraquecimento do centro político noutros países contribuir para a morte da construção europeia. Teremos um enorme problema se a banca italiana colapsar. Não é preciso que tudo aconteça. Basta que alguns factos tidos como improváveis e insólitos há uns meses (como o Brexit ou a vitória de Trump) se verifiquem.

Olhando para o mapa, para a geografia dos maiores problemas europeus e do mundo, não podemos deixar de achar que os problemas dos outros são também problemas nossos. O atual contexto eleitoral europeu e de crise permanente parece ir beneficiando António Costa, o Governo e o país, porque há razões de sobra para a Comissão Europeia e os parceiros não serem excessivamente severos com o Sul, quando há fogos muito mais graves para apagar. Portugal será neste momento a trigésima prioridade das instituições europeias e dos outros governos europeus, desde que não dê demasiado nas vistas.

Enquanto na política interna se debatem, ao longo de semanas, polémicas como a entrega das declarações dos administradores da Caixa, os possíveis sucessores de Passos Coelho no PSD, ou os candidatos à câmara de Lisboa — assuntos que são importantes no seu contexto — o céu prepara-se para cair em cima da cabeça dos distraídos. O jogo é de grande risco. As apostas estão altas, como dizia o trumpista norte-americano. Ninguém pode negar que há demónios à solta. Os pequenos e mais frágeis costumam ser as primeiras vítimas. E Portugal é pequeno e frágil. “Vivemos tempos interessantes” é o mais otimista que podemos dizer.