Primeiro é em casa. O Benfica recebe o Dortmund a 14 de fevereiro e o FC Porto a Juventus uma semana depois, a 22. E numa eliminatória em que não são favoritos — e terão que se deslocar no final a estádios sempre apinhados de adeptos fervorosos –, os clubes portugueses têm que se valer do primeiro jogo para conseguir mais do que um empate. E de preferência sem sofrer golos, pois na fase a eliminar tudo conta.

Deitámos a lupa sobre os adversários de Benfica e FC Porto.

O perigo maior vem do ataque, de Aubameyang no Dortmund, de Gonzalo Higuaín na Juve, que certamente não perdoarão só com Ederson ou Casillas pela frente. Até se poderia dizer que a defesa é menos boa e que poderíamos aproveitar esse handicap do adversário. Mas se no caso do Dortmund até é meio verdade (os guarda-redes são medianos e os centrais pouco mais do que isso), no caso da Vecchia Signora não há volta a dar: de Buffon a Bonucci, de Dani Alves a Chiellini, qual deles o melhor.

É tempo de assumir que não somos favoritos e que a história (conto-lhe tudo a seguir) não está do nosso lado. E fazer das fraquezas, forças.

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Benfica-Dortmund. Aubameyang e o resto da malta (que também não é má)

16 de novembro de 1963. Estádio da Luz. O Benfica é uma das potências europeias da década, tendo vencido a Taça dos Campeões Europeus (duas vezes de enfiada) logo que esta começou. À data, o Dortmund é, talvez a par do Colónia – o Bayer mal “contava para o Totobola” nessa altura –, um dos vencedores do costume, quer na Bundesliga (que só começaria em 1963/64), quer no extinto Campeonato da Alemanha.

Na frente de ataque dos germânicos, três avançados-centro em linha, três ruços, matulões que só eles, e “com faro”: Franz Brungs,Timo Konietzka e Lothar Emmerich. Disputava-se a Taça dos Campeões Europeus, a primeira-mão da 2.ª Ronda. Em Lisboa, o Benfica venceria 2-1, com golos de António Simões e de Eusébio. O problema foi depois, na viagem até ao estádio Rote Erde, a 4 de dezembro, e aí nem Eusébio valeria ao Benfica. O clube português seria goleado, 5-0, com um hat-trick de Brungs. Não mais o Benfica voltaria a defrontar o Dortmund na sua história. Ficaria a má recordação.

Não mais… até agora, até que Ruud Gullit rodou as bolinhas numa taça em Nyon, e sacou de lá um papelinho com o nome dos alemães. Obrigadinho, oh Gullit! Quanto a favoritismo, e olhando só à historia recente, é todo ele dos alemães. É que o Dortmund venceu os últimos cinco jogos que disputou contra clubes portugueses, os últimos dois ainda esta época, diante do Sporting. Mas aí estaremos só a ver o copo meio vazio. Se olharmos para ele mais a dar para o cheio, a verdade é que em 17 eliminatórias entre o Benfica e clubes alemães, a coisa até está ela por ela: passou o Benfica em oito ocasiões, sendo eliminado em nove.

Mas quem é este Dortumund de Thomas Tuchel? Dir-se-ia que seria diferente do de Jürgen Klopp, quando Klopp de lá saiu, no verão de 2015. E quanto a títulos até é verdade: o atual treinador do Liverpool venceu duas Bundesliga e Tuchel nenhuma. Aliás, em duas temporadas que já conta no banco do Dortmund, Tuchel não venceu nada. N-a-d-a. Mas um e outro, Klopp e Tuchel, são treinadores de ataque – alguns apelidam-nos de “loucos”, pois não se importam de sofrer cinco golos se fizerem seis e vencerem o jogo –, e exigem aos seus jogadores “espetáculo”, que é como quem diz, bola no pé e nada de “charutos” para a frente. Em 1963 era assim que o jogava o Dortmund, à “charutada” e fé em Franz Brungs — e nem se deu mal de todo.

Hoje, a “Muralha Amarela” nas bancadas não permitira que assim fosse.

O campeonato não corre bem ao Dortmund, que é apenas sexto classificado, a oito pontos do tetra campeão Bayern. As fichas estão todas na Liga dos Campeões, está visto, uma Liga dos Campeões onde o Dortmund relegaria o Real Madrid (que é campeão europeu em título) para o segundo lugar do Grupo F – o mesmo do Sporting, que foi último. Olhando às qualidades e debilidades (talvez chamar-lhes “debilidades” seja um exagero; são “qualidade assim-assim”) do Dortmund, pode dizer-se que o ponto forte é mesmo o ataque e, nele, o goleador Pierre Aubameyang, que esta temporada conta 19 golos em 20 jogos. Coisa “pouca”, Pierre. Mas o gabonês não está sozinho na frente. A servi-lo há dois canhotos, ainda teenagers, mas com talento de gente graúda nas botas: Emre Mor e Ousmane Dembéle. Isto para não falar de Mario Götze, André Schürrle, Marco Reus, Shinji Kagawa… Ufffff! É fartura até mais não.

O meio-campo (só internacionais alemães são três: Bender, Castro e Weigl) é tão criativo quanto sólido defensivamente. E por falar em “defensivamente”, a defesa será, talvez, o calcanhar de Aquiles do Dortmund. Os dois guarda-redes, ora o veterano Weidenfeller, ora o suíço Roman Bürki, vão rodando na baliza, mas nenhum deles é um particularmente seguro, sobretudo quando são pressionados e têm que jogar com os pés – Tuchel é adepto de um futebol “à Guardiola”, em que todos são intervenientes na posse de bola, até o guarda-redes. A defesa está órfã de Mats Hummels, que trocou o Dortmund pelo Bayern este verão. Bartra foi contratado e (ainda) não convence, Ginter está “verdinho”, e tem sido o grego Sokratis Papastathopoulos a dar conta do recado – por ele… e pelos outros dois. Valha ao Dortmund que os laterais são mais do que isso, são quase alas, autênticos extremos: à direita Lukasz Piszczek, à esquerda o português Raphaël Guerreiro.

Assim sendo, e mesmo com uma defesa que volta e meia dá borrasca, o Dortmund é mais do que favorito a seguir para os quatros-de-final. Mas se Aubameyang não estiver (nas duas “mãos”, de preferência) nos seus melhores dias – e Jonas sim –, até poderá o Benfica vingar a eliminação de 1963.

FC Porto-Juventus. A Vecchia Signora está para as curvas

Uma vitória é inesquecível para quem vence. A derrota nunca é fácil de esquecer para quem é o derrotado. E o FC Porto perdeu dois dos três jogos que disputou contra a Juventus — tendo empato uma vez, nas Antas. Mas uma dessas derrotas, apesar de distante no tempo — foi a 16 de maio de 1984 –, é mais do que isso. E não sai da memória nem com sabão-macaco. O FC Porto perderia, em Basileia, a final da Taça das Taças — o único título que o FC Porto nunca venceria na Europa.

Sim, perder uma final europeia custa mais do que qualquer outra derrota “domingueira” em Portugal.

Era aquela a Juventus de Platini. E de Gentile, Cabrini, Tardelli, Rossi ou Boniek. O “mister” era um tal de Giovanni Trapattoni. Vignolo colocou os transalpinos em vantagem, António Sousa reduziria ainda na primeira parte, mas um golo do polaco (e à época goleador da Juve) Boniek antes do intervalo arrumou com a final. E terminaria assim: 2-1. Valeu ao FC Porto que em 1984 estava a criar a base (João Pinto, Lima Pereira, Eurico, Jaime Magalhães e Jaime Pacheco, Sousa e Frasco, Fernando Gomes) que venceria a Taça dos Campeões Europeus em 1987, então treinado o FC Porto por Artur Jorge e não por Morais, como naquela noite de Basileia.

O reencontro entre FC Porto e Juventus foi na Liga dos Campeões, em 2001/02. A Juventus, e tal como hoje, era hegemónica em Itália – títulos que perderia na secretária, por altura do “Calcio Caos”, o escândalo que a relegou para a segunda divisão. Desses dias só resiste Buffon na baliza. Mas o FC Porto, mesmo com Buffon por diante – e Thuram, Davids, Del Piero ou Marcelo Salas no primeiro jogo entre ambos no Grupo E –, até começaria por empatar nas Antas, a zero. Não era mais o FC Porto de Jardel, mas começava a surgir Postiga no onze de Ótavio Machado. Havia Deco, havia Costinha, Jorge Andrade ou Ricardo Carvalho. Mas nem a defesa e o meio-campo, do melhor que o FC Porto tinha e teve, valeram de nada no Olímpico de Turim. O FC Porto seria derrotado (3-1), então com golos de Montero, Del Piero e Trezeguet – Nedved foi o melhor em campo. Reduziu para os portistas Clayton.

Mas voltemo-nos ao presente. E no presente o FC Porto até se deu bem em eliminatórias contra equipas vindas de Itália. Eliminou o Nápoles da Liga Europa em 2013/14 e apurou-se para a fase de grupos da Champions, esta temporada, à custa da AS Roma. Quanto à Juventus, a sina é precisamente a oposta: no último jogo diante de irredutíveis portugueses, foi eliminada pelo Benfica da Liga Europa (os de Jesus seriam finalistas vencidos) em 2013/14.

De lá, da derrota com o Benfica, até agora, a Juventus era e continuou a ser campeã em Itália. São já cinco títulos de seguida – e esta temporada é líder do Calcio, com mais sete pontos que os segundos, AS Roma e AC Milan.

Porque é que é campeã – ou melhor: penta campeã? Explica-se assim, em 3-5-2: Buffon; Barzagli, Bonucci e Chiellini; Dani Alves, Khedira, Marchisio, Pjanić e Evra; Dybala e Higuaín. E quando não são estes, há ainda Benatia, Rugani, Lichtsteiner ou Alex Sandro na defesa; Cuadrado ou Lemina no meio-campo; Mario Mandžukić no ataque. Não há muito mais a dizer: é confiar mais na história recente (contra italianos e de italianos contra nós) do que na passada. E não olhar para os apelidos que estão gravados nas camisolas bianconeras.