Vida selvagem

Parque da Gorongosa continua a registar recuperação da vida selvagem

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O Parque Nacional da Gorongosa, em Moçambique, continua a progredir na recuperação da vida selvagem, que foi quase dizimada durante a guerra civil e fez com que se perdessem 95% dos animais.

A seca, a instabilidade militar e política e a caça furtiva também têm um impacto significativo nas espécies do parque

ANTÓNIO SILVA/LUSA

O Parque Nacional da Gorongosa (PNG) continua a registar uma recuperação da vida selvagem, que foi quase dizimada durante a guerra civil em Moçambique, segundo uma contagem realizada este ano, a que a Lusa teve acesso.

A contagem, feita de helicóptero pelos serviços do PNG entre 18 e 31 de outubro, cobrindo a área que de maior densidade de vida selvagem do parque, registou a existência de 78.627 animais de 19 espécies, sobretudo grandes herbívoros, contra os cerca de 70 mil observados em 2014.

O PNG considera que “a recuperação da vida selvagem continua a progredir bem”, apesar da seca nos últimos dois anos, que teve “um impacto significativo em várias espécies”, da instabilidade política e militar que afeta a região e da pressão da caça furtiva.

Através da contagem aérea, a segunda em dois anos e considerada um instrumento “crítico para avaliar a evolução da recuperação [da vida selvagem] e a eficiência da gestão do parque”, o inhacoso (um grande antílope também conhecido como piva) representa mais de metade das espécies, com cerca de 45 mil indivíduos, mais 10 mil do que em 2014.

As populações de impala (que quase duplicou para 4.705 ocorrências comparativamente a 2014), de inhala (1.299 face às 964 anteriores) e de cudu (1.466 contra 1. 223) “tiveram subidas substanciais”.

O relatório aponta igualmente resultados positivos na população de pala-pala (que eram 786 e agora são 810), e os elefantes e os búfalos, apesar da seca, tiveram um aumento (para 567 e 696 respetivamente), mas abaixo do esperado.

O número de bois-cavalos (ou gnus) manteve-se estável, uma preocupação já manifestada em 2014.

O PNG observa que espécies mais pequenas parecem ter sido bastante mais atingidas pelos efeitos da seca, incluindo a imbabala, o porco do mato o chango, o oribi e o facocero, devido aos seus hábitos mais seletivos de alimentação.

As zebras mantêm-se estáveis, com uma população de 34 indivíduos, das quais 15 mantidos em território cercado no chamado Santuário, segundo os dados da contagem, que deverão ser divulgados, esta quarta-feira, na 3.ª Gala do PNG, em Maputo.

O PNG lembra que a contagem diz respeito a um número mínimo, numa área de 184. 500 hectares totalmente coberta pela pesquisa e correspondente aos melhores habitats e maior densidade de vida selvagem, mas outros animais ocorrem noutras zonas do parque e dos quais não foi realizada nenhuma estimativa.

A contagem também não abrange a população de leão, devido à dificuldade de observação por via aérea, mas os dados registam a existência de cerca de 80 indivíduos e uma subida em relação a 2014.

Dados oficiais indicam que, durante a guerra civil em Moçambique de 16 anos, encerrada em 1992, o parque perdeu 95% dos seus animais.

Numa contagem realizada em 1972, o PNG contava, por exemplo, com cerca de 14 mil búfalos, 2.500 elefantes, 3.500 hipopótamos e outras tantas zebras, 6.500 gnus e ainda a ocorrência frequente de leão e leopardo, espécie entretanto extinta no parque e que deverá ser reintroduzida no próximo ano.

Em 2007, o Estado moçambicano assinou um contrato de gestão conjunta do PNG com fundação do filantropo norte-americano Gregory Carr, com a vigência de 20 anos, e desde então o parque tem conhecido assinaláveis níveis de recuperação e atraído turistas e cientistas de todo o mundo.

Mais recentemente, o PNG assinou a 30 de novembro um acordo com o Entreposto para a conversão de mais de 200 mil hectares de uma coutada de caça contígua em área de proteção total.

Ao abrigo do acordo, o PNG começará trabalhos conjuntos com o grupo Entreposto de avaliação ecológica, levantamentos junto das comunidades locais e análise de potencial turístico na Coutada 12, e que poderá levar ao alargamento da atual maior área protegida moçambicana e que apresenta um dos maiores níveis de biodiversidade da África Austral.

O documento só terá validade com um decreto do Conselho de Ministros moçambicano, ao qual cabe delinear as áreas protegidas do país.

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