O pai foi um criança amorosa, foi um homem forte de quem chegámos a ter medo. O pai protegia-nos, cantava-nos canções de embalar, era sedutor, dançava. Agora o pai perde tudo, confunde tudo, não compreende as conversas, não distingue entre os seus pensamentos e a realidade. Agora o pai já não pode viver sozinho, agora o pai tornou-se o nosso filho e nós não sabemos o que fazer com aquele corpo que, de repente, nos confronta diariamente com a loucura e a morte. Até porque já não sabemos em que lugares habita agora a sua mente. Este é O Pai. A peça que se estreou ontem na sala Azul do Teatro Aberto, encenada por João Lourenço e protagonizada por João Perry.

Mas O Pai é menos uma narrativa convencional para apaziguar consciências e mais uma proposta de desassossego: entrar (se é que é possível entrar) na cabeça de uma pessoa demente e encenar o mundo não como nós o vemos mas como ela o vê. Como ela o sente, como ela o sofre. Por isso, o espetáculo é uma farsa trágica onde o espetador nunca saberá se o que está a ver é produto da realidade dos lúcidos ou uma projeção dos delírios, confusões, espectros do demente.

João Perry_Patrícia André2©Daniel Viana Martins

João Perry é o pai demente e Patrícia André uma enfermeira real ou a alucinação da filha morta (foto: Daniel Viana Martins)

Tudo começa com um relógio que talvez tenha sido roubado, perdido ou deliberadamente escondido. Uma vez que a memória coletiva é o ponto de ancoragem de qualquer diálogo, quando a memória começa a falhar as relações sociais começam a estilhaçar-se. As conversas tornam-se não conversas, o absurdo espreita. A demência é imprevisível, recusa a lógica com que as sociedades organizam os seus ritmos, como as famílias organizam os objetos nas suas casas, a forma com que cada um organiza o mundo na sua cabeça. Num tempo onde impera a lógica, a racionalidade, imperam cada vez mais as demências. Talvez seja esta urgência que fez com que uma peça escrita pelo dramaturgo francês Florian Zeller, 36 anos, tenha estado três anos em cena em Paris, depois em dois teatros londrinos e desde abril esteja na Broadway em Nova Iorque deixando sempre um rasto impressivo: é preciso olhar de frente a demência, é preciso olhar de frente a forma como estamos a tratar os nossos.

A tragédia de um filho ou filha que, de súbito, se vê a braços com um pai ou mãe fragilizado, demente, que já não nos pode carregar ao colo mas agora precisa do nosso colo é antiga como o mundo. Na Eneida, quando fugindo de Tróia em chamas, o herói Eneias carrega às costa o seu velho pai Anquises. Muitos eram os que o instigavam a abandonar o velho, outros criticavam Anquises por não se matar libertando assim o seu jovem filho. Mas Eneias, mesmo carregando o pai, de quem nunca desistiu, foge de Tróia e funda Roma.

Esta parábola serve-nos para pensar como os mais novos são devedores dos mas velhos, e está presente nas entrelinhas da peça, que ao longo da história tece várias críticas à forma como a nossa sociedade trata os mais velhos, os mas frágeis.

Florian Zeller é um jovem romancista e dramaturgo com uma carreira em ascenção MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images)

Florian Zeller, romancista e dramaturgo tem tido, com esta peça, uma enorme, repercussão internacional Fotografa. MARTIN BUREAU/AFP/Getty Images)

Ana (Ana Guiomar), a filha de André (João Perry), quer partir para Londres com o novo namorado e colocar o pai num lar. Nunca saberemos se isto é verdade ou se é mais um delírio de André que vai, a pouco e pouco, sentindo que é espoliado de tudo. O namorado da filha bate-lhe ou ele imagina tudo aquilo? Aos poucos os pesadelos, as fantasias, vão conquistando todo o espaço da casa. Cada um tenta como pode agarrar-se aos restos de lógica que restam. O próprio tempo expande-se e contrai-se à revelia dos relógios. O que parece um eternidade foi apenas um dia. Uma manhã já é uma noite. Chama-se o nome dos mortos e esquece-se o nome e o rosto dos vivos.

Florian Zeller conta em entrevista que se inspirou no velho da peça de Ionesco As Cadeiras, que chamava insistentemente pela mãe, nas suas próprias memórias de infância da avó que morreu com Alzheimer. “Este é um homem que foi desapossado do seu corpo”, afirma o dramaturgo. E essa talvez seja a única linha narrativa da peça. André vai sendo desapossado do seu corpo e da sua dignidade: começam a falar-lhe usando sempre diminutivos sem nunca perceberem como isso é indigno. Recusam a sua exigência em vestir uma roupa que não o pijama, esquecendo-se que ele não é uma coisa precocemente morta. A filha sonha que o mata ao mesmo tempo que deseja cuidar dele e protegê-lo. As enfermeiras ganharam o nome de “cuidadoras”, uma novilíngua destinada a apaziguar o mundo, mas que ele rejeita e denuncia como mais uma forma de o menorizarem. Apesar de se centrar nos mecanismos da demência, a história não deixa também de tocar outros aspetos complexos e dolorosos como o sentimento de culpa dos filhos, a sua sensação de impotência, por vezes, até o ódio que sentem por se verem encurralados entre o seu desejo de viver e a doença dos pais.

Ao longo de 1 hora e 45 minutos, que passam a correr, O Pai faz a sua travessia de criança gloriosa com futuro a um velho demente, sozinho, que nos convoca sem contemplações nem sentimentalismo fácil de espectador que na terra segura vê o naufrágio dos outros.

A versão da peça é assinada pela dupla João Lourenço e Vera San Payo de Lemos. Com Ana Guiomar, João Perry, João Vicente, Patrícia André, Paulo Oom, Sara Cipriano. O cenário mutante foi concebido António Casimiro e João Lourenço.

“O Pai” tem apresentações de quarta a sábado às 21h30 e domingos às 16 horas. Nos das 24, 25 e 31 de dezembro e no dia 1 de Janeiro não haverá espectáculo.