Com o número um, o rei dos deuses Zeus. Com o dois, a deusa do matrimónio Hera. Três: Poseidon, deus do oceano. Quatro: Atena, deusa da sabedoria. Cinco: Ares, deus da guerra. Seis: Deméter, deusa das colheitas. Sete: Apolo, deus da luz. Oito: Ártemis, deusa da caça. Nove: Afrodite, deusa do amor. Dez: Dionísio, deus do vinho. Onze, número 11 nas Kostas: Mitroglou. O deus do golo.

A Grécia acumula encantos e mais encantos, entre 227 ilhas habitadas, o título europeu em 2004 e a infinita mitologia. Neste particular dos deuses, Mitroglou é um deles. Há um ano, é ele quem decide o título de campeão nacional com o golo solitário em Alvalade. Esta época, o homem faz de Jonas com pontaria e golos. Ao todo, oito. É o deus do golo, empatado com Jiménez e à frente de Pizzi (sete). Suplente no jogo de sábado na Amoreira, o 11 grego é titular na Luz com o irredutível Rio Ave de Luís Castro (quatro vitórias seguidas desde a chegada do treinador para o lugar de Capucho). Bastam-lhe 14 minutos para assinalar a presença. A jogada é desenvolvida por Gonçalo Guedes e há um toque de calcanhar de Mitroglou afastado pela defesa vila-condense para os pés de Pizzi. Flecte, insiste, flecte, insiste. O remate é novamente travado e o ressalto vai parar a Mitroglou, colocado em jogo por um defesa. Só com Cássio pela frente, é como se fosse um penálti. Um-zero, Mitroglou é realmente o deus do golo. Do Benfica. Nove golos em 2016-17.

Em vantagem, o Benfica quer mais. Luisão tenta um chapéu de aba larga (18′) e Mitroglou arrisca o bis numa vistosa jogada individual (18′). Do Rio Ave nem uma palavra. Muito menos um remate à baliza de Ederson. Assim, estende-se a passadeira vermelha ao Benfica, sem sofrer um único golo nos anteriores quatro jogos do campeonato a 21 Dezembro (1969 FCP 2-0 + 1997 Varzim 4-0 + 2006 Belenenses 4-0 + 2014 Gil Vicente 1-0). Só a partir dos 25 minutos é que o Benfica abranda e disso se aproveita o Rio Ave para ter bola. O pessoal da Luz assobia aqui e ali, descontente com as sucessivas trocas (inofensivas) de um lado para o outro. Ederson, zero defesas. Rio Ave, zero remates à baliza. Até ao intervalo, é isto. No outro lado, Cássio é obrigado a ir ao fundo da baliza mais uma vez, aos 42 minutos: o passe de Rafa é delicioso, a conclusão de Pizzi idem idem. Voilà, Pizzi volta a ser o melhor marcador do Benfica na 1.ª divisão, com seis golos (contra os cinco de Mitroglou e Jiménez). Aqui para nós, é um movimento delicatessen de Pizzi. Que ainda não chega aos calcanhares daquele golo cómico de Nené a este mesmo Rio Ave, em 1980. Veja lá bem.

nené

Na segunda parte, o Rio Ave entra com dois elementos novos (Tarantini mais Gil Dias) e, vá, atira-se realmente à baliza benfiquista. A culpa é de Rúben Ribeiro, autor do primeiro remate à baliza benfiquista, aos 61′. E também do segundo, aos 66′, para uma defesa vistosa de Ederson. O atrevimento dos visitantes é sol de pouca dura – dizer isto no dia mais pequeno do ano até nem é por acaso – e tudo porque Rui Vitória faz entrar Jonas. Quem anda desligado do mundo da bola, até acredita no 3-0 do Benfica tal a festa dentro do estádio. Só que não, é só Jonas a regressar aos relvados na Luz. No primeiro toque, um cabrito. No segundo, um remate à baliza. Pelo meio, o árbitro Rui Costa anula bem um golo a Mitroglou (72′), por fora-de-jogo, e exibe o primeiro amarelo do jogo, para Pizzi (68′), automaticamente suspenso em Guimarães, na próxima jornada. Ai é? Errrr, nem por isso: aos 90’+4, Pizzi demora a marcar um livre e vê o segundo amarelo mais o correspondente vermelho. Tsss tsss, agora sim, Pizzi está novamente disponível para o jogo em Guimarães.

Sem alaridos nem correrias, o Benfica controla o jogo (visto in loco por 51.566 espectadores) e mantém os quatro pontos de avanço sobre o Porto na viragem do ano. Até ao apito final, é como se fosse o passeio dos alegres. Rui Vitória, campeão em título da 1.ª divisão, ganha tranquilamente o braço-de-ferro a Luís Castro, campeão da 2.ª, e continua no Olimpo.

Estádio da Luz, em Lisboa
Árbitro: Rui Costa (Porto)
BENFICA: Ederson; Semedo, Luisão, Lindelof e André Almeida; Rafa (Jonas, 66′), Pizzi, Fejsa e Cervi; Guedes (Carrillo, 83′) e Mitroglou (Jiménez, 76′)
Treinador: Rui Vitória (português)
RIO AVE: Cássio; Pedrinho, Roderick, Vilas Boas e Rafa Soares; Wakaso, Filipe Augusto (Tarantini, 46′) e Krovinovic (Gil Dias, 46′); Rúben Ribeiro, Guedes (Yazalde, 74′) e Heldon
Treinador: Luís Castro (português)
Marcadores: 1-0, Mitroglou (14′); 2-0, Pizzi (42′)