Vinte e nove polícias turcos começaram já a ser julgados em Istambul por suspeitas de envolvimento na tentativa de golpe de Estado contra o presidente Recep Tayyip Erdogan, em julho deste ano.

Da totalidade de polícias que foram levados a julgamento, 24 estão presos, um está em fuga e os restantes saíram sob pagamento de fiança, diz o diário britânico The Guardian. Se forem condenados, 21 deles enfrentam, cada um, três penas perpétuas e os outros oito podem ser condenados até um máximo de 15 anos na prisão. Os polícias são acusados de se terem recusado a proteger Erdogan na sua residência em Istambul no dia da tentativa de golpe, a 15 de julho deste ano.

Este é o primeiro julgamento de uma jornada que se antecipa longa já que o governo prendeu mais de 41 mil pessoas alegadamente envolvidas na sublevação.

Os julgamentos já começaram em cidades mais pequenas, por exemplo em Denizli, no sul do país, onde 60 pessoas começaram a ser julgadas na segunda-feira mas o julgamento em Istambul é particularmente significativo: além de ser na capital e os réus serem agentes da autoridade, o tribunal fica em frente à enorme prisão de Silivri e o aparato mediático — e militar — é notório.

Os homens que esta terça-feira começam a ser ouvidos são acusados de serem aliados de Fethullah Gulen, um líder religioso turco residente nos Estados Unidos que Erdogan considera culpado por liderar, a partir do exílio, esta e outras revoltas contra a sua liderança. Recentemente, Erdogan culpou Gulen de ter estado envolvido no planeamento do assassínio do embaixador russo na Turquia, Andrey Karlov.

Custa a crer que Gulen e Erdogan já tenham sido aliados mas é verdade. Ambos pró-Islão num país muito tempo dominado pelo secularismo, Gulen ajudou Erdogan a consolidar o poder mas, em 2013, acabou por criticar o presidente por este se estar a tornar um líder demasiado autoritário. Cortaram relações. Enquanto líder religioso, Gulen sempre defendeu a coexistência religiosa e a educação, e, por isso, os seus seguidores acabaram por ingressar, aos milhares, nas escolas, nos tribunais, e um pouco por todo o setor público turco.

Depois da tentativa de golpe de Estado, Erdogan saneou milhares de funcionários, por suspeitas de que estivessem a tentar liderar uma revolução contra ele a partir de dentro do próprio aparelho de Estado. Muitos dessas 41 mil pessoas que ainda estão à espera para serem julgadas são suspeitos de serem “gulenistas”. Gulen, que tem 75 anos, nega todas as acusações e um porta-voz do imã disse ao Financial Times que “a saúde de Gulen está demasiado fraca” e que “depois de tantos anos a sofrer na pele ele mesmo as tentativas de golpes, é ofensivo pensar que poderia fazer o mesmo”.

O estado de emergência continua em vigor na Turquia e a comunidade internacional tem criticado frequentemente o punho-de-ferro com o qual Erdogan tem liderado os destinos do país desde a tentativa de golpe de Estado. Erdogan diz que os revoltosos mataram 248 pessoas e que a população quer justiça, o que o levou mesmo a defender o regresso da pena da morte — e a entrar em rota de colisão com a União Europeia, grupo na qual a Turquia deseja ser aceite. Com mais de 41 mil pessoas presas por suspeitas de rebelião contra o governo – mais 1.000 só esta semana — este será possivelmente o mais longo processo legal na história moderna da Turquia.