Humanos capazes de regenerar partes do seu próprio corpo, como a lagartixa quando perde a cauda? Esse dia já esteve mais longe. Paula Sol está empenhada em dar essa capacidade ao nosso corpo.

A investigadora mostra um pedaço de tecido acinzentado que guarda numa tina de vidro, na sua bancada de trabalho, numa das salas do centro de investigação 3B’s da Universidade do Minho. Modelos como o que a Paula Sol segura entre os dedos vão poder ser colocados no corpo humano, por exemplo, quando uma zona da pele sofre queimaduras profundas.

Esse material transporta um determinado código genético que dirá ao corpo qualquer coisa como: “Eu estou aqui, agora cabe-te preencher o espaço que eu ocupo e expulsar-me”. Se tudo correr como esperado, as células humanas serão capazes de recriar partes do corpo que se julgavam perdidas para sempre. O mesmo princípio poderá ser aplicado a lesões em ossos e cartilagens.

Em linguagem científica, no centro 3B’s — que o comissário europeu Carlos Moedas visitou há uma semana, no âmbito do terceiro Roteiro para a Ciência — procuram-se soluções para novas aplicações clínicas e a criação de novas terapias para a regeneração e substituição de diversos tecidos humanos e (nano ou micro). Mas também, por exemplo, sistemas para libertação controlada de fármacos ou outros agentes bioativos e “modelos de doença baseados em engenharia de tecidos humanos e dispositivos médicos implantáveis”. O nome do centro, o “B”, representa o biomaterial, o biodegradável e o biomimético (uma cópia do corpo biológico) dos materiais com que os investigadores trabalham.

3B’s: o pavilhão da inovação a norte

O centro de investigação, uma ramificação da Escola de Engenharia da Universidade do Minho, fica no Avepark – Parque de Ciência e Tecnologia, a meio caminho entre Braga e Guimarães. Apesar da ligação à academia, apenas três dos cerca de 150 investigadores que ali trabalham são professores na universidade. Em cerca de seis anos, o 3B’s desenvolveu projetos que obtiveram financiamento de perto de 7o milhões de euros. Ali se registaram cerca de 40 patentes nacionais e internacionais e foi dali que saíram várias startups distinguidas com prémios de inovação.

Entre os portugueses do centro trabalham investigadores espanhóis, chineses, búlgaros, indiano, turcos, italianos, polacos, tailandeses, iranianos, eslovacos e checos. As mulheres são quase o dobro dos homens. “Cada vez vemos mais cientistas que querem estar em Portugal”, diria mais tarde Carlos Moedas, ao perceber que o país tem conseguido afirmar-se na área da investigação científica.

Foi no auditório do 3B’s que o comissário europeu para a Investigação, Ciência e Inovação assistiu à apresentação de “The Discoveries Center for Regenerative and Precision Medicine”. O projeto – que vai nascer no novo edifício do 3B’s, um investimento de 11 milhões de euros, e que será acoplado ao espaço já existente – vai juntar a Universidade do Minho ao University College London (UCL) e às universidades do Porto, de Aveiro, de Lisboa e Universidade Nova de Lisboa.

A ideia de um polo de investigação científica de referência em Portugal arranca um sorriso a Carlos Moedas. O comissário europeu pediu aos investigadores com quem se cruzou – do 3B’s e da escola de Medicina da Universidade do Minho – que descodifiquem o mundo em que se movem e o abram à sociedade.

A ciência contra o terrorismo

No dia em que Moedas visitava a região, nove pessoas morreram atropeladas por um camião, em Berlim, na Alemanha, um polícia turco matou o embaixador russo em Ancara e três pessoas foram atingidas a tiro numa mesquita de Zurique, na Suíça. “Vivemos num tempo de medo na Europa”, disse Moedas perante uma audiência de cerca de 50 cientistas. Por isso, “é preciso explicar a ciência na Europa”, para que fique mais claro um dos propósitos da existência do projeto europeu: o progresso através da investigação.

Falem de nós, não tomem isto como certo porque isto pode não durar para sempre”, alertou Moedas.

A ideia seria sublinhada até à exaustão nos vários encontros que o comissário europeu manteve nos dois dias de visita. “O mundo está e vai continuar a estar bastante perigoso“, disse, num “diálogo com os cidadãos”, no auditório da Universidade do Minho, num “dia muito complicado” para ser falar sobre o futuro da Europa.

Tenho receio de que nos próximos dez anos vamos ver uma reversão daquilo que é o projeto europeu“, antecipava o comissário, chamando a atenção para “um grupo que está a tentar destruir o que foi construído“.

Um colosso tecnológico a norte

Na sua passagem pelo Minho, Carlos Moedas, o rosto europeu da Inovação e Ciência, ainda passou pela Bosh Car Multimedia, um gigante de inovação eletrónica para o setor automóvel que emprega 2.674 pessoas (número que a torna um dos maiores empregadores da região) e registou vendas de mais de 670 milhões de euros em 2016 — o valor mais alto dos últimos seis anos.

São 20h e a “produção” está a chegar ao turno mais ligeiro dos quatro que rodam durante as 24 horas do dia, mas a linha de montagem funciona a toda a velocidade. Em cada turno, saem da fábrica da Bosh oito milhões de componentes para os equipamentos desenvolvidos pela empresa. Carlos Moedas abre os olhos e faz contas em voz alta. “Quatro turnos, 400 pessoas.. então 100 pessoas produzem um milhão de componentes por hora. É brutal!

A maioria do que ali se produz é exportado para a Europa e Estados Unidos. E é tudo feito com a prata da casa, desde a conceção de novos produtos até à sua produção, nos vários pavilhões que a empresa ocupa na cidade.

Romper com a tradição

A visita de Carlos Moedas, que acabou com uma série de pitchs (apresentações curtas de projetos) na Startup Braga, tinha começado, no início do dia anterior, com uma passagem pelo CITEVE, um centro de tecnologia congregador de 650 empresas da região e virado para o têxtil, que desafia as visões mais tradicionais sobre o setor.

Mais do que em conceção do último grito da moda, ali fala-se sobretudo em “ensaios laboratoriais”, faz-se “certificação de produtos”, presta-se “consultoria técnica e tecnológica” e investiga-se para inovar na produção de roupas e equipamentos técnicos. “Não somos já um setor que faz vestuário, não fazemos fast fashion“, sublinha o diretor-geral do CITEVE.

Na apresentação que faz ao comissário Carlos Moedas, Braz Costa refere que, enquanto o número de empresas e empregados ligados ao CITEVE caía (menos 20% e menos 13,3%, em 2015, respetivamente) cresciam as exportações (38,2%), o volume de vendas (24,8%) e a produtividade (31%). O CITEVE, sublinha, foi fundado há mais de 25 anos e representou a salvação de um setor característico da região norte do país. No ano passado, registou vendas de 6,8 mil milhões de euros.

O Observador viajou a convite da Comissão Europeia.