Uma funcionária da maior agência de publicidade do Japão, a Dentsu, suicidou-se depois de se queixar de excesso de trabalho. A empresa foi processada e o seu presidente pediu a demissão, esta quinta-feira.

Matsuri Takahashi tinha 24 anos e trabalhava há sete meses na divisão de publicidade online da empresa que, recentemente, viu a sua equipa ser reduzida de 14 para apenas seis empregados. Semanas antes de pôr termo à própria vida, em dezembro do ano passado, Matsuri partilhou diversas mensagens no Twitter onde se queixada do seu trabalho: dizia ser vítima de bullying na empresa e que trabalhava demasiadas horas.

São 4 horas. O meu corpo está a tremer… Eu não consigo fazer isto. Vou morrer. Estou tão cansada”, conta o The Telegraph.

Antes de se suicidar, a jovem deixou um bilhete à mãe onde questionava: “Porque é que as coisas têm de ser tão difíceis?“. Esta quarta-feira, as autoridades japonesas decidiram processar a agência de publicidade e um dos seus executivos por suspeitas de violação das leis laborais do Japão, por forçarem Matsuri a trabalhar, ilegalmente, cerca de 20 horas por dia – chegou a fazer até 105 horas extra por mês.

Agora o presidente da Dentsu, Tadashi Ishii, emitiu um comunicado onde considera “extremamente lamentável” que a sua empresa não tenha sido capaz de evitar o excesso de trabalho de uma nova trabalhadora, e pediu a demissão.

Para assumir a total responsabilidade, gostaria de me demitir como presidente.

Esta não é a primeira vez que um trabalhador da Dentsu se suicida por alegado excesso de trabalho. Em 2000, outro empregado de 24 anos acabou por pôr termo à vida e o tribunal considerou que o rapaz sofria de “horríveis condições de trabalho”. Já em 2015, o funcionário de uma empresa de manutenção, Kiyotaka Serizawa (também com 24 anos) suicidou-se depois de trabalhar mais de 90 horas por semana.

O “karoshi” não é uma novidade

A decisão surge numa altura em que o primeiro-ministro japonês Shinzo Abe está a fazer reformas nas leis laborais do Japão, que poderão incluir a regulação da carga horária. O ano passado o governo japonês aprovou uma lei para travar o excesso laboral, que entrará em vigor em janeiro, cujas medidas passam por inspeções surpresa às empresas, acompanhadas por especialistas para aconselhar normas laborais e promover a atenção médica e psicológica aos funcionários.

Os turnos de trabalho no Japão são de 12 horas ou mais, o que terá começado na década de 70 quando os salários eram muitos baixos. Depois, nos anos 80, a situação manteve-se, e até se intensificou, face à urgência do Japão em tornar-se a terceira maior economia do mundo.

O governo japonês chama-lhe “karoshi“, suicídio por excesso de trabalho. O país é conhecido pela dura cultura de trabalho e pelos altos níveis de suicídio. Em 2014, mais de 25.000 pessoas cometeram suicídio no Japão (cerca de 70 pessoas por dia).