Conhece algum nigeriano que fale brasileiro? Não? Vá lá, faça um esforço. Deixamos-lhe algumas pistas básicas: é campeão nacional pelo Benfica na época de estreia 1988-89, ganha duas Taças de Portugal, uma pelo Estrela mais outra pelo Boavista, e é o melhor marcador do campeonato, pelo Boavista. E agora? Hum, huum? Nós aguardamos, na boa.
(…)
Nada ainda? Tsss tsss, Avançamos com uma dica, vá. Richard Daddy Owubokiri. Depois disto, por favooooooor.
(…)
E então? Isso mesmo, é o Ricky. Quem poderia esquecê-lo? Pois é, ele agora vive no Brasil, mais precisamente em Salvador, capital do Estado da Bahia e do Carnaval, onde também joga antes de dar nas vistas em Portugal. E é empresário FIFA. Número 147. Ao telefone, Ricky é uma animação pegada (diz ele, “é uma mistura do sangue africano, latino e brasileiro”). Quando se fala dos 14-1 entre Benfica e Riachense para a Taça de Portugal, a 11 janeiro 1989, a voz de Ricky faz tilt. Nessa quarta-feira à tarde, com o Estádio da Luz espantosamente composto por cinco mil pessoas, metade delas da vila ribatejana de Riachos, a apoiar em peso a equipa da 1.ª Divisão do regional de Santarém, o avançado nigeriano é titular pela única vez no Benfica. E marca seis golos. Sim, 6.

Boa tarde Ricky, tudo bem? Daqui fala Rui Miguel Tovar.
Ah, Miguel Tavares, claro, claro, estás bom?

Tudo bem, obrigado. Telefono de Portugal. És mais difícil de encontrar do que sei lá o quê. Perguntei a uma série de jogadores teus companheiros no Benfica, Estrela, Boavista e Belenenses mas ninguém sabia de ti.
Já se esqueceram? Não acredito.

Não é bem isso. Todos eles sabiam que estavas na Bahia. A questão é que ninguém tinha o teu número de telefone.
E então?

Fui apanhar o teu número a uma lista de agentes FIFA. Agente FIFA brasileiro, que não nigeriano.
Pois claro, então se vivo aqui no Brasil. Sou brasileiro, né?

Está certo, sim senhor. Renegaste as tuas origens?
Não, nada disso. Sou nigeriano com muito orgulho, beijo a bandeira e até representei a seleção. Vê lá tu, fui eu que marquei o primeiro golo da Nigéria na qualificação para o Mundial-94 [África do Sul, 2-1].

Então porque é que não foste a esse Mundial?
Isso são histórias que nem se acredita. O selecionador de então [o holandês Clemens Westerhof] pedia dinheiro aos jogadores. Isto é, quem quisesse jogar, pagava-lhe. Ora eu sou titular da Nigéria porque mereço, trabalho e marco golos, não porque dou um saco de dinheiro a um treinador. Isso não faz sentido nenhum. Foi isso que me aconteceu, mas essa seleção tinha um talento inacreditável, com muita gente conhecida por aí. O Rufai era um bom guarda-redes que depois jogou no Farense e até no Gil Vicente. O Amunike já estava no Barcelona mas tinha jogado muito bem no Sporting. O Yekini tinha acabado de se sagrar melhor marcador do vosso campeonato, pelo Vitória de Setúbal. O Siasia iria jogar no Tirsense dois anos depois. Sem esquecer outros nomes grandiosos como Amokachi, Okocha, Ikpeba, Oliseh e Finidi. Enfim, também gostava de estar lá mas paciência.

Como é que um nigeriano vai parar ao Brasil?
Olha, devia ter uns sete anos quando me apercebi que a vida seria à volta do futebol. Os meus pais voltaram para a faculdade e eu fui viver com a minha avó. Como tinha boas notas na escola, podia pedir-lhe o que quisesse.

Uma bola todos os dias???
Isso mesmo, uma bola. Só que não era todos os dias, porque o sistema escolar da Nigéria era como o britânico e passávamos três meses fechados na escola em regime de internato. Aí, aos 13 anos, os colégios organizavam torneios entre eles. Num desses jogos, ganhámos 6-0 e eu marquei os seis golos. O Sharks, uma equipa da 1.ª divisão nigeriana, soube desse registo e enviou um senhor para me ver.

E então?
Ganhámos 4-0 e eu marquei os quatro golos.

Repito-me, e então?
Depois desse jogo, o tal senhor do Sharks chamou-me e levou-me ao Sharks, que ficava a 30 minutos do colégio. Lá, ofereceram-me um contrato. Eu estava tão perplexo com a velocidade dos acontecimentos que nem respondi naquele minuto. Fiquei parado a ver o futuro à minha frente enquanto os dirigentes diziam ‘você vai jogar connosco, és nosso jogador.’

Beeeeeem, que episódio.
Pois foi, nem deu tempo para saborear o momento. Quer dizer, a partir daí é que saboreei o momento. Aos 17 anos, já estava a jogar pela seleção. Sabes quem era o treinador?

Nem ideia.
Otto Glória.

O Otto Glória?
Esse mesmo, o que levou Portugal ao terceiro lugar do Mundial-66. Ele trabalhou na Nigéria e garantiu-nos o primeiro título africano, em 1980. Lembro-me perfeitamente: ganhámos 3-0 à Argélia, na final.

O Ricky estava lá?
Nãããããão, ainda não. Era muito novo ainda, faltavam-me queimar muitas etapas.

E a primeira no Brasil?
Pois é, o Otto convidou-me para ir treinar ao América do Rio de Janeiro.

E o Ricky foi?
Para o Brasil? Então, não? Se queremos ser bons, temos de jogar com os melhores.

Quando chegou ao Brasil?
Em Janeiro 1984, no início da época brasileira.

Entrou logo para a equipa?
Nada disso, fui fazer um teste.

Uyyyyyy.
Espera, entro lá em campo, jogo 15 minutos e o treinador Gilson Nunes tira-me do treino. Desatei a chorar, claro. Tinha saído de África para tentar a sorte e só me deram 15 minutos, dizia eu. É aí que aparece um dirigente do América a dizer-me que tinha sido selecionado pelo Gilson Nunes. Ainda hoje as palavras dele me ecoam na cabeça: ‘Ele tirou você porque já não tem mais nada a provar.’

Ufffffff.
A quem o dizes, foi um alívio ouvir aquilo.

Jogaste quanto tempo no América?
Seis meses.

E depois?
O Vitória da Bahia estava interessado num jogador chamado Framber para o campeonato brasileiro. Quando eles foram buscar o Framber, um dirigente do América disse-lhes ‘estava aqui outro jogador bom, da Nigéria’. Olharam para mim, gostaram do que viram e contrataram-me.

E a questão da língua?
Quando cheguei à Bahia, pedi um professor de português. Todos os dias, depois dos treinos, ele ia à minha casa e ensinava-me português.

E o futebol na Bahia?
Estreei-me num clássico, o Ba-Vi [Bahia-Vitória], e marquei um golo.

Bom começo.
Sabes o melhor? Marquei sempre no Ba-Vi. Umas quatro ou cinco vezes. Marcava sempre. E, já se sabe, quando um estrangeiro marca nesses jogos, os adeptos idolatram-te num instante. Foi o que me aconteceu no Vitória. Uma alegria imensa.

Ao Brasil, seguiu-se França?
Isso mesmo, fui para o Metz. O dinheiro dessa transferência serviu para o Vitória começar a construir o [estádio] Barradão. Saí daqui apelidado de Gazela Negra e fui campeão baiano em 1985.

E de lá para cá, certo?
Eu estava em França, a jogar na 1.ª Divisão pelo Metz [oito golos em 32 jogos durante 1987-88], quando o empresário português Lucídio Ribeiro negociou-me para o Benfica. Tinha eu 27 anos. Só que tive um azar tremendo e parti a perna no meu primeiro jogo, durante o estágio nos EUA. Não me lembro do adversário. Só sei que foi em Nova Iorque, no Giants Stadium. Fiquei arrumado e nunca pude evidenciar a minha pontaria pelo Benfica.

Nunca, não. Há sempre o 14-1 ao Riachense.
Sim [risos], nessa tarde fiz tudo o que podia. Tinha acabado de regressar após a lesão e estava ligeiramente desanimado pois perdera os dois primeiros jogos oficiais [1-2 com Boavista na Maia, a 31 de dezembro de 1988, e 0-1 em Penafiel, uma semana depois]. Aquele jogo com o Riachense era importantíssimo.

Do que é que se lembra desse jogo?
Bem, além de conseguir a espantosa marca de seis golos, dois na primeira parte e quatro na segunda, lembro-me de uma tarde de Inverno com sol, da minha camisola vermelha com o número 9 nas costas, patrocinada pela Fnac, e dos adeptos numa gritaria danada, muito por culpa dos milhares dos torcedores do Riachense. Sabes que o golo deles foi no último minuto e os adeptos festejaram como se fosse a decisão do Mundial? Aí, percebi a grandeza do Benfica. E também a do Bento, um senhor guarda-redes. Era ele que estava na baliza e foi quem sofreu o golo [de Tochinha, um jovem fundador metalúrgico, futebolista nas horas vagas]. Também me recordo daquele extremo esquerdo que veio do Portimonense, até jogou na seleção portuguesa.

O Pacheco?
Esse mesmo, ele foi espetacular, baralhou toda a gente e ofereceu-me sei lá quantos golos. Cá fora, demorei mais de meia-hora para sair do Estádio. Eram tantos pedidos de autógrafos! Só no dia seguinte é que percebi que o Benfica tinha batido o seu recorde de goleada na Taça [datado de Abril 1949, com 13-1 ao Académico de Viseu]. E eu fiz parte dessa história [os outros golos pertencem a Direito, na própria baliza, Ademir-2, Pacheco-2, Lima, Garrido e Miranda].

E depois nunca mais jogou.
É verdade, é verdade. Só que diverti-me imenso. Morava na Linha e ia de boleia para o Estádio da Luz com o Magnusson. Encontrávamo-nos num cafezinho perto de casa e ficávamos à conversa por uns minutos. Curtia os cafés com o Magnusson, falávamos de tudo e mais alguma coisa. Depois, seguíamos para o treino. Era uma vida boa, boa. Sabes quem queria que eu jogasse?

Quem?
O Eusébio. Dizia-me sempre que eu metia a cabeça onde outros não metiam o pé. Só que o Toni tinha a vida dificultada pela quantidade de talento. Vê lá bem: havia o Vata, que se sagrou melhor marcador da 1.ª Divisão nessa época [16 golos, 18 com a Taça de Portugal] e ainda o Magnusson [nove no total]. Sem esquecer o central brasileiro Ricardo Gomes, que se fartou de celebrar golos [oito, todos no campeonato]. Portanto, não havia espaço para mim naquele Benfica que se sagrou campeão nacional, e que só não teve direito a dobradinha, com a Taça, devido àquele livre do Juanico, do Belenenses.

Voltou ao Jamor anos mais tarde, não foi?
No ano seguinte.

No ano seguinte?
Sim senhor, pelo Estrela. Grande equipa treinada pelo João Alves. Tinha o Duílio, o Bobó, o Marlon, o Paulo Bento, o Basaúla, o Abel Xavier.

Só estrelas?
Havia mais uma, José Mourinho.

A sério?
Siiiim, ele era o adjunto. Boa pessoa, comunicativa. Dizia-me sempre ‘tu, Ricky, faz o que te digo e vais triunfar; eu também vou triunfar, acredita em mim.’

Espetáculo. Essa final do Estrela acabou quanto?
Ganhámos 2-0 ao Farense, na finalíssima 1989-90.

Na ficha de jogo, o nome do Ricky não consta.
Pois não, estava lesionado. Parti o braço, mas colaborei nessa campanha. Marquei um golo ao Braga, outro ao Marco e mais um ao Vitória, nas meias-finais.

Eu falava há pouco era da Taça 1991-92, pelo Boavista.
Aaaaah, isso é que é uma grande memória. Decidi a final com o FC Porto [2-1], na mesma época em que eliminámos o Inter da Taça UEFA. Nós, os das camisolas esquisitas [numa alusão às declarações de Zenga, guarda-redes do Inter, depois do sorteio]. Também foi nessa época que eu marquei cinco golos num só jogo pelo Boavista nos 5-0 ao Estoril, no Bessa [21 março 1992]. E foi nessa época que me sagrei melhor marcador do campeonato. Aquele Boavista era uma equipa tramada, com um treinador muito sabido. O Manuel José era como um pai. O Boavista deve-lhe muito. E também ao presidente.

Ao Valentim Loureiro?
Sim, ao major. Que homem! Ele queria, ele tinha. Ele sonhava, ele concretizava. Lembro-me tão bem dele naquele dia em que jogámos com a Lazio [4 Novembro 1993]. Era a segunda mão dos 16 avos de final da Taça UEFA, e tínhamos perdido 1-0 em Roma. Precisávamos de ganhar. E ele, o major, apareceu no balneário antes do jogo e atirou um saco cheio de dinheiro ali para o meio. Disse-nos: ‘Isto é vosso se ganharem.’ Ganhámos 2-0 e eu marquei os dois golos ao Marchegiani. Os adeptos do Boavista estavam histéricos. E nós, jogadores, também. Que loucura. Só fomos eliminados nos quartos-de-final pelo Karlsruhe, que tinha o Kahn na baliza. Eu marquei-lhe um golo no Bessa [1-1] mas perdemos 1-0 na Alemanha [autogolo do Nogueira], com os adeptos alemães a fazerem ruídos de macacos cada vez que eu e o Bobó tocávamos na bola. Vergonhoso.

E em Portugal, sofreu racismo?
Não. Foi só esse triste episódio.

E no Brasil?
Aqui? Fui o rei.

Depois de Portugal, por onde andaste?
Fui para o Qatar, quando o Qatar ainda não tinha aquele campeonato famoso com Hierro, Guardiola, Desailly, Nadal, Batistuta. No primeiro ano, no Al-Arabi, fui o artilheiro do campeonato com 16 golos em outros jogos. No ano seguinte, já no Al Hilal, acabei o ano com 27 golos em 26 jogos e recebi uma Bota de Ouro, prémio para o melhor marcador do Oriente Médio. Desculpa lá, aí diz-se Médio Oriente.

E onde guardas esses prémios todos?
Em casa.

E o que fazes aí para ocupar o tempo?
Abri uma escola de futebol, organizo projetos sociais no bairro de Villas do Atlântico, em Salvador, e também sou um agente imobiliário.

Bem, tanta coisa.
Tem de ser assim.

Obrigado e abraço.
Obrigado eu, Miguel Tavares. Abraço.