Mário Soares foi seu adversário político em vários momentos da história política nacional e Cavaco Silva lembrou isso mesmo na declaração que fez sobre a morte do antigo Presidente da República, mas a mensagem central do ex-chefe de Estado foi mesmo sobre o quanto Portugal “deve” a Soares. “Portugal está de luto. Todos os portugueses, estou certo, hoje estão de luto. Portugal perdeu um dos maiores políticos do século XX“.

Quando foi primeiro-ministro, era com Mário Soares como Presidente que coabitava no topo do poder nacional, estabelecendo uma relação política sem tumultos durante o primeiro mandato do socialista em Belém. Aliás, chegou mesmo a apoiá-lo na recandidatura ao cargo de chefe de Estado, em 1992, como Cavaco Silva relembrou este sábado. Mas no segundo mandato de Soares, a relação teve períodos agudos, sobretudo na fase final em que o Presidente da República utilizava as “Presidências Abertas” pelo país (o circuito de proximidade do chefe de Estado Soares) para atacar as políticas do Governo de Cavaco Silva que chegou mesmo a falar em “forças de bloqueio”.

Em alguns momentos da vida política nacional fui um adversário do Dr. Mário Soares, mas isso não impediu que apoiasse a sua recandidatura à Presidência da República, que elogiasse o seu contributo decisivo para a defesa da liberdade da democracia e a visão estratégica da importância da União Europeia para Portugal”

Este sábado, Cavaco regressou do Algarve, onde estava, para falar no seu Gabinete do Sacramento, em Lisboa, das “capacidades políticas de Mário Soares”, recuperando mesmo a classificação que foi colada ao antigo Presidente: “Como se dizia um verdadeiro ‘animal político’, como tive oportunidade de testemunhar várias vezes”. Mas também disse que “este não é o tempo de lembrar as discordâncias do passado, mas recordar o contributo de Mário Soares para a democracia, o trabalho que ele desenvolveu para a defesa dos ideais democráticos e reconhecer quanto Portugal deve ao político Mário Soares“. E uma das principais vertentes destacadas por Cavaco na vida de Soares foi mesmo a do “europeísta convicto” e a “visão estratégica” que o socialista teve sobre a “importância da adesão às comunidades europeias para o futoro do nosso país”.

Homenageamos um europeísta convicto, um homem que dedicou a maior parte da sua vida à defesa dos ideias republicanos e democráticos”

O ex-Presidente da República destacou ainda o facto de Soares ter estado “sempre na primeira linha” nos “momentos conturbados da vida nacional”, “revelando uma coragem extraordinária na defesa da democracia, lutando contra todas as formas de opressão e de ditadura, de totalitarismos”.