Antonin Panenka. O nome é uma marca incontornável no mundo da bola. Um Panenka é um penálti picado em que a bola sai devagar, devagarinho dos pés do marcador e entra suave, suavemente na baliza, com o guarda-redes deitado com um olhar esbugalhado/desesperado.

Antonin Panenka. O nome é o do presidente do Bohemians, mais conhecido como o do penálti mais famoso do mundo. No dia 20 Junho 1976, a capital jugoslava Belgrado recebe a final do Europeu. De um lado, a RFA campeã europeia e mundial em título. Do outro, a surpreendente Checoslováquia, que eliminara Portugal na qualificação (5-0 em Praga, 1-1 nas Antas) e a favorita Holanda nas meias-finais (3-1 após prolongamento). Na decisão, os checoslovacos chegam ao 2-0 antes dos 25 minutos, por Svehlik (8’) mais Dobias (24’), e consentem o empate dos alemães no derradeiro instante, por Holzenbein. O prolongamento passa-se, dessa vez, sem novidades e a final é levada para o inédito desempate de grandes penalidades. Aqui, prevalece a pontaria e loucura dos checos. Dizemos loucura porque Panenka, na hora da verdade, não se intimida com o calmeirão Sepp Maier e faz-lhe um pequeno chapéu. Para Pelé, “ou Panenka estava louco ou era um predestinado para o futebol.” Viktor, o guarda-redes checo da final, é de outra opinião: “Panenka era uma mistura dos dois.”

Panenka, tudo bem?
Ya. Este +351 é de onde?

Portugal.
Ahhh. Bom, bom

Aviso já que não vamos começar a entrevista com o penálti da final do Euro-1976, ok?
Ohhhh, que pena. Hoje ainda ninguém me tinha falado disso.

Nã, hoje não. Perguntamos antes o porquê de ter continuado no Bohemians Praga depois do rótulo de herói nesse Euro?
Estamos a falar do período comunista. A nossa vitória foi festejada em casa, sem excessos nem publicidade. Imagine agora a República Checa ser campeã, era uma festa sem fim. Em 1976, não. O comunismo não nos permitia um tratamento especial.

Mas nada mudou com a vitória no Europeu?
A pressão da UEFA aumentou sobre a nossa federação porque a partir daí os clubes do resto da Europa interessaram-se por alguns de nós.

O Panenka, por exemplo?
Recebi uma bela proposta dos belgas do Lokeren mas como só tinha 31 anos e nove meses não me deixaram sair.

Desculpe?
O problema é que federação checoslovaca estabeleceu limites ainda assim. Só podiam sair aqueles com mais de 32 anos de idade e 45 internacionalizações.

Xiiii.
Eram as regras daquele tempo e nós assimilávamo-las com naturalidade. Outras regras: não podíamos fumar, beber álcool, comer doces e nada de sexo com a mulher ou a namorada a três dias do jogo. No meu último ano do Bohemians, por exemplo, já tinha 32 anos, já tinha dois filhos e fiz uma loucura: beber uma cerveja depois de um jogo. O treinador descobriu não sei como e multou-me. Mas uma multa pesada, além das críticas públicas no balneário.

Aos 32 anos? Essa não era a idade estabelecida para escolher livremente o futuro.
Recebei propostas de Espanha, Bélgica e Suécia.

E acabou por escolher a Áustria, não foi?
Repara, tinha 32 anos de idade. Nunca fui uma máquina a jogar futebol e não me iria adaptar assim tão facilmente a um futebol mais veloz que o checo. Se devia ter ido para Espanha? Sim, claro. Talvez apenas um ano para ganhar bom dinheiro mas não seria a decisão correta. Para mim, para a minha família e para o meu corpo.

Então foi para Viena?
O campeonato austríaco era parecido com o checo e Viena até era perto de Praga. A minha filha podia estudar numa boa escola em Viena e no Rapid encontraria um amigo de longa data, Vesely, também campeão europeu em 1976. Ele era do Slavia Praga. E o Rapid Viena era uma grande equipa. Lembro-me perfeitamente da equipa na final da Taça das Taças 84/85 e olha lá que fui suplente utilizado: Konsel; Lainer, Garger, Braudener, Weber, Kienast, Kranjcar, Hrstic, Krankl, Weinhofer e Pacult.

E a dos maus?
O Everton? Fácil, também. Anota aí: Southall; Stevens, Ratcliffe, Mountfield e Van den Hauwe; Steven, Reid, Bracewell e Sheedy; Sharp e Andy Gray. Ganharam-nos 3-1 em Roterdão, foram campeões ingleses e estavam lançados na Taça dos Campeões da época seguinte, não fosse a tragédia do Heysel.

Quais eram as forças dominantes do futebol checo nesse tempo?
O Sparta e o Slavia da capital [Praga]. Depois o Bohemians, que era mais como uma família. Diverti-me imenso a jogar lá durante 23 anos.

Sempre em grande estilo?
Por quem me tomas? Sempre tive jeito para todo o tipo de desportos com bola. Futebol, bilhar, ténis de mesa e agora o golfe que está mais na moda para cinquentões como eu.

Descreva-me lá o Panenka futebolista ?
Gostava de fintar, adorava marcar golos e fazer assistências, mas não tinha resistência nem força. Os meus companheiros diziam-me constantemente que eu jogava para a plateia, para os aplausos. Para mim, o futebol é espectáculo. Se os adeptos saíam felizes do estádio, seja com um golo meu ou de outro qualquer, era um dia perfeito para mim.

Sem resistência nem força? Então hoje o Panenka não jogaria futebol, é isso?
Ai chamas isto de futebol? Isto é mais atletismo. Há 20 anos, o futebol era espetáculo, drible. Agora é demasiado físico e agressivo. Na minha época, oito ou jogadores de onze sabiam o que fazer com uma bola, hoje é o contrário. A maior parte dos onze são brutos com a bola. Prefere-se a força à técnica, o físico à criatividade. Antes, os ataques superavam sempre as defesas porque simplesmente não havia defesas suficientes para cobrir tanta qualidade no ataque.


O melhor exemplo é a Checoslováquia de 1976. Tínhamos dois ou três combativos, três bons no jogo aéreo e o resto eram habilidosos e criativos. A mistura era tão boa que até a RFA caiu aos nossos pés.

Aos seus pés, isso sim.
Obrigado, só que o mérito é de todos nós.

Mas o penálti decisivo é o seu. O que é que estava a pensar naquela hora?
Aqueles penáltis eram a minha marca [uma exaustiva pesquisa diz-nos que Panenka não falhou um único dos 47 penáltis no campeonato checoslovaco, nem todos à Panenka]. Treinava-os diariamente, desde os 16/18 anos. Uma horinha depois do treino. Penáltis, livres e cantos diretos. E quando a bola entrava como eu queria, era o delírio.

Como na final do Euro-76?
Sim, mas já o tinha feito em outras ocasiões e repeti mais vezes daí em diante. Lembro-me de um ao Dropsy, num Checsolováquia-França (2-0) para a qualificação do Euro-80, em Bratislava. Claro que numa final do Europeu, com a RFA e o Maier na baliza, as vibrações são diferentes para melhor.

E o Maier ficou zangado consigo?
Há uma história curiosa que acho que ainda ninguém pegou nela. Sim, ele ficou chateado. Pelo golo, por perder aquela final, não pela maneira de como o penálti foi marcado. E aqui quero deixar uma palavra de apreço para todos os jogadores alemães, que trocaram de camisola connosco no final do jogo. Se vires as fotografias de segurarmos a taça, estamos todos vestidos à RFA. Até parece que eles é que ganharam, mas não…

Voltando ao Maier.
Voltando ao Maier, ele só descansou quando defendeu um penálti meu, num Bayern Munique-Bohemians para a Taça UEFA 1979/80.

Mas foi um à Panenka?
Não, foi um normal. Também era abuso fazer isso duas vezes ao mesmo guarda-redes. Ainda por cima, o Maier. Uma instituição. Não imaginas a categoria do Maier, a elegância entre os postes, a destreza a sair da baliza, a seriedade em jogo, o estilo. Era um guarda-redes admirável. Se reparares bem, ainda hoje é falado como a referência. Quando falavam do Schumacher, do Illgner, do Köpke ou agora do Neuer, todos o comparam ao Maier: se será ou não melhor que ele?

E?
Impossível comparar. Maier é Maier.

E o penálti de 1976 ainda não nos contou tudo.
O que posso dizer?

https://www.youtube.com/watch?v=qdu5pweeDiI

Que estava possuído, como disse Pelé?
Ah ah, não, nada disso. Foi tão fácil que nem imaginas. Não estava nervoso, as pernas não me tremeram a caminho da marca de penálti e o Maier não me assustou. A situação era simples: o Höness acabara de falhar o último penálti da RFA [muito por cima da barra] e se eu marcasse, ganhávamos. Portanto, que maior motivação podia ter? Cheguei lá, calculei a distância e marquei.

Entrou a bola e quase entrou o Panenka pela baliza adentro.
Queria ter a certeza do golo e atenção que já o queria fazer na meia-final com a Holanda mas aí marcámos dois golos no prolongamento e adiei aquele penálti.


Muito se fala do Panenka, demais até. Aquela seleção tinha jogadores fantásticos, que aliavam físico a técnica, criatividade a velocidade. Éramos um cocktail explosivo. A RFA também, mas tinham de ganhar e nós quisemos ganhar. Foi essa diferença. Mas dizia eu, essa Checoslováquia também beneficiou muito do estado de graça de Vesely, o tal amigo que reencontrei no Rapid Viena. Mais o selecionador, Jozef Venglos.

Esteve no Sporting.
Ah sim? Era um senhor, posso confirmar-te. Calmo, inteligente e psicólogo. Foi ele que nos levou a acreditar no título. Afinal, ganhámos à Holanda de Cruijff e à RFA de Beckenbauer, finalistas do último Mundial em 1974.

Houve três expulsões nessa meia-final com a Holanda. Como é isso possível em 1976?
Choveu torrencialmente em Zagreb, incluindo durante o jogo. Com o campo escorregadio, as faltas sucediam-se. O árbitro tinha de acalmar aquilo.

E o Panenka, calmo?
Eu? Sempre! Um dos meus desgostos foi ter acabado a carreira sénior de mais de 20 anos com um cartão vermelho. A minha ideia era sair limpo do jogo, mas não, o Bicovski tramou-me.

Quem?
Premysi Bicovsky [diz-nos a soletrar]. Um companheiro meu dos tempos do Bohemians Praga. Estávamos a jogar na Áustria. Vamos os dois à bola e ele cai com estrondo. Faz um barulho a contorcer-se com dores. O árbitro não viu nada mas ouviu aquele espalhafato todo e optou por expulsar-me. A verdade é que saí do campo a rir-me para o Bicovski.