A agência canadiana de notação de risco financeiro DBRS desferiu nesta sexta-feira um duro golpe nas esperanças de que Itália poderá sair da crise económica e financeira em que está mergulhada há vários anos. Justificando a decisão com as dúvidas sobre a possibilidade de se fazerem em Itália reformas que a agência e outras entidades consideram importantes para estimular a economia do país, a DBRS cortou o rating da dívida italiana para BBB (estava em A), mantendo-se acima do limiar de investimento de alto risco (lixo) mas praticamente garantindo que os bancos italianos vão pagar mais caro para se financiar e vão ter mais dificuldade em ir buscar liquidez financeira ao banco central.

Crescimento frágil, contínua fraqueza no setor e incapacidade política em avançar com reformas económicas. Três fatores que levaram a agência DBRS a colocar o rating de Itália próximo do que atribui a Portugal. No caso de Portugal, esta é a única agência que atribui um rating acima de lixo — não acontece o mesmo em Itália, mas a decisão da DBRS em relação a Roma deverá ter dois efeitos que em nada ajudam o país a sair da crise.

  • O rating da DBRS era o mais elevado de Itália, pelo que era também dele que os bancos italianos se valiam quando apresentam dívida italiana como garantia para obter recursos junto do BCE. Perdendo o último rating A que tinha, os bancos italianos terão, agora, de suportar um desconto maior na liquidez que recebem — isto é, vão receber um valor menor em liquidez pelo mesmo valor de dívida apresentada como colateral.
  • A despromoção poderá, também, levar a custos de financiamento mais elevados para o Estado italiano. Itália está a pagar juros inferiores a 2% no prazo a 10 anos, mas é possível que exista um impacto nos custos de financiamento não só na dívida de curto prazo mas, também no longo prazo. Isto porque o facto de o rating descer para abaixo de A tornará a dívida italiana investimento interdito para alguns fundos de pensões que só podem investir em ativos com menor risco (aqui, é um fator atenuante o facto de poucos investidores considerarem a nota da DBRS nas suas regras internas, pelo que o efeito poderá ser contido nesta matéria).

A DBRS tinha colocado o rating de Itália sob vigilância com pendor negativo em agosto, citando a incerteza política em antecipação ao referendo que viria a acontecer no início de dezembro e que chumbaria as alterações constitucionais defendidas por Matteo Renzi, levando à demissão do primeiro-ministro. O principal argumento de Matteo Renzi para pedir aos italianos um voto favorável no referendo era a necessidade de Itália ter um sistema político mais simples e, portanto, uma maior agilidade na aplicação de reformas na economia.

A decisão da DBRS e as suas implicações (concretas e, também, em termos de perceção dos mercados) vão penalizar a situação dos bancos de Itália, carregados com uma pesada “mochila” de créditos malparados que algumas estimativas colocam em 320 mil milhões de euros.